Avaliação de Crédito do GPA pela Fitch Ratings
A Fitch Ratings revisou sua recomendação de crédito para o GPA (PCAR3) em um relatório divulgado na noite de segunda-feira, 2. A agência retirou sua observação negativa e rebaixou o rating nacional de longo prazo da varejista para ‘CCC(bra)’, anteriormente classificado como ‘A(bra)’. O rebaixamento foi motivado por um risco elevado de refinanciamento, liquidez pressionada e geração de caixa estruturalmente negativa.
Riscos e Desempenho Financeiro
A redução para a faixa de alto risco ocorre em meio a um cronograma apertado de vencimentos. Conforme indicou a Fitch, o GPA enfrenta cerca de R$ 1,7 bilhão em dívidas que vencem entre maio e julho de 2026, valor considerado incompatível com o perfil financeiro atual da companhia.
O relatório elaborado pela equipe de analistas, liderada por Renato Donatti, afirma que “o rebaixamento reflete os maiores riscos de refinanciamento do GPA, o enfraquecimento da liquidez e a expectativa de fluxos de caixa livre negativos a médio prazo, na ausência de uma redução material do endividamento”.
A Fitch também observa que uma reestruturação de dívidas é viável, mas ressalta que a disposição dos credores para estender prazos em condições adequadas de custo e prazo é “altamente incerta”. Além disso, para a Fitch, os R$ 2 bilhões em caixa previstos para o final de 2025 devem ser utilizados já no primeiro semestre de 2026 para pagamento de fornecedores e cobertura do fluxo de caixa livre negativo.
Fluxo de Caixa e Alavancagem do GPA
A Fitch projeta um fluxo de caixa livre (FCF) negativo equivalente a 2,8% da receita líquida em 2026 e a 1,6% em 2027. Essa pressão é resultante dos elevados desembolsos com juros, além de contingências trabalhistas e tributárias. A equipe de analistas destaca que, embora a redução de despesas e investimentos possa ajudar a diminuir a queima de caixa, essa medida não é suficiente para restabelecer o fluxo de caixa de forma sustentável sem uma significativa redução da dívida.
A entidade estima ainda um Ebtidar (Lucro antes de Juros, Impostos, Depreciação, Amortização e Custos de Reestruturação) de R$ 1,7 bilhão para 2026, com uma margem de 8,8%, e de R$ 1,8 bilhão para 2027, com margem de 9,1%. Contudo, a visão da Fitch é de que a alavancagem permanecerá elevada, com a relação dívida ajustada/Ebitdar próxima de 4,8 vezes e dívida líquida ajustada/Ebitdar em torno de 4,3 vezes nos próximos dois anos. Ao final de 2025, a dívida ajustada totalizava R$ 9,1 bilhões, incluindo R$ 4,4 bilhões em obrigações de aluguel, conforme metodologia da agência.
Alterações na Estrutura Societária
O relatório menciona uma mudança recente na base acionária, onde a família Coelho Diniz agora detém 24,6% do capital e indicou metade do conselho de administração, enquanto o grupo francês Casino mantém 22,5% da participação. A Fitch assertivamente destaca que possui “visibilidade limitada” sobre a estratégia de médio e longo prazo da companhia, bem como sobre seu apetite para risco. No entanto, no curto prazo, a agência considera positiva a revisão de investimentos e a racionalização de despesas que foram anunciadas pela empresa.
O panorama operacional também exerce influência na avaliação. A Fitch projeta um crescimento de 3,2% nas vendas de mesmas lojas para 2026 e 2027, com margem bruta em torno de 27,5%. A abertura de novas lojas não deve ocorrer nos próximos três anos. A agência ainda projeta que o consumo alimentar seguirá enfrentando pressão devido à renda limitada, ao elevado endividamento das famílias e a uma inflação acumulada de 30% desde 2021. Ademais, a forte concorrência no mercado fomenta um comportamento de “trade down”, onde os consumidores optam por produtos de menor preço.
Projeções sobre o Rating do GPA
A Fitch esclarece que não antecipa uma elevação do rating no curto prazo. Qualquer melhora nesta classificação dependerá de um fortalecimento sustentável da liquidez, redução da alavancagem e geração de caixa positiva, o que poderia ocorrer, por exemplo, por meio da venda de ativos, capitalização ou uma melhoria operacional significativa.
Por outro lado, a agência alerta que o rating do GPA poderá ser novamente rebaixado caso um processo de inadimplência seja iniciado ou se for anunciada uma troca de dívida em situação crítica (distressed debt exchange). Comparando com seus pares, o rating do GPA está vários graus abaixo do Assaí (ASAI3), que possui classificação de AAA(bra), e do Grupo Oba, que possui A-(bra). Isso reflete, principalmente, o risco de refinanciamento e a estrutura de capital mais alavancada que o GPA apresenta.
Fonte: www.moneytimes.com.br