Fundo de R$ 2,2 bi associado à North Sea e QORE pode ter sido utilizado para esconder patrimônio de Vorcaro

Caso Master: Ex-Diretor do Banco Central como Alvo da PF

Um fundo de investimento com ativos na ordem de R$ 2,2 bilhões está no centro da segunda fase da Operação Compliance Zero, que investiga suspeitas de crimes relacionados ao Banco Master e ao banqueiro Daniel Vorcaro. Segundo informações apuradas pela reportagem do Money Times, é neste fundo que estão alocados os valores que a Justiça determinou bloquear em janeiro.

Uma fonte consultada para a matéria revelou que o fundo em questão é o multimercado Somme, administrado pela QORE e gerido pela North Sea. A investigação aponta que esse fundo pode ser um meio de ocultação de patrimônio, sendo Henrique Moura Vorcaro, pai de Daniel, o provável beneficiário final dos ativos.

A decisão que autorizou o bloqueio foi assinada pelo ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), em janeiro, e determinou o congelamento de R$ 2.245.235.850,24 em contas vinculadas à família Vorcaro. O despacho destaca que essa quantia estava registrada em uma conta de Henrique Vorcaro na CBSF DTVM (Reag), um agente que teria atuado como distribuidora, resultando, na prática, na restrição ao acesso às cotas e aos ativos detidos pelo fundo.

A QORE DTVM e a North Sea Gestora de Recursos não se manifestaram sobre os pedidos de comentário feitos pela reportagem até o fechamento desta matéria. O espaço permanece aberto para futuras declarações.

O que Apontam as Investigações

Os valores que foram bloqueados estão registrados na conta mantida na Reag, mas aplicados em cotas do fundo Somme. Isso significa que ao atingir essa conta, as medidas judiciais bloqueiam também o acesso aos ativos que compõem o fundo.

No dia seguinte ao bloqueio dos recursos, em 15 de janeiro de 2026, o Banco Central decidiu pela liquidação extrajudicial da Reag, mencionando “graves violações às normas que regem as instituições do Sistema Financeiro Nacional”.

Em sua representação, a Polícia Federal descreveu a Reag como uma estrutura utilizada para facilitar a movimentação de valores dentro do arranjo investigado, incluindo operações realizadas em nome de terceiros.

Os valores em questão são quase idênticos: R$ 2.245.235.850,24 bloqueados na conta que estava vinculada à Reag e cerca de R$ 2,2 bilhões registrados no patrimônio do fundo Somme no mesmo intervalo. Essa coincidência temporal e numérica sugere uma conexão, embora a correspondência direta entre os recursos dependa de elementos que constam nos autos do processo, os quais encontram-se sob sigilo.

Antes do bloqueio, o fundo Somme operava com uma concentração praticamente total em um único ativo. Entre maio e setembro de 2025, aproximadamente R$ 2,1 bilhões estavam alocados em Cédulas de Crédito Bancário (CCBs) emitidas pela PKL ONE Participações. Esta empresa é a controladora da Credcesta, uma fintech de crédito consignado que tem como acionista majoritário Augusto Lima, um ex-sócio do Banco Master.

Esse arranjo indicava uma exposição excessivamente concentrada em operações de crédito consignado, com baixa diversificação e uma forte dependência de um único emissor. Naquele período, o fundo tinha apenas um cotista, cuja identidade não é de conhecimento público, mas fontes indicam que esse investidor estaria ligado a familiares de Vorcaro.

A Credcesta se consolidou como um dos principais instrumentos de originação de crédito no âmbito do Banco Master e também figura como um ponto central nas investigações relacionadas ao grupo. Este produto foi estruturado como um cartão de crédito consignado com desconto em folha para servidores públicos, resultando em fluxos financeiros previsíveis que podem ser convertidos em ativos e distribuídos por meio de fundos.

Estruturas Complexas

De acordo com as investigações conduzidas pela Polícia Federal, parte dessas carteiras pode ter sido inflacionada ou estruturada sem lastro adequado, afetando a composição de ativos de alto volume. Essa dinâmica também aparece em situações com suspeitas de créditos inexistentes ou de baixa qualidade que foram utilizados em operações financeiras relevantes, incluindo tentativas de aquisição de participação no sistema bancário, como é o caso do BRB.

Esse modelo não apenas possibilitava a geração de ativos em grande escala, mas também sua circulação entre diferentes veículos financeiros, criando camadas adicionais de complexidade. Segundo a Polícia Federal, essa dinâmica pode dificultar o rastreamento dos recursos e identificar sua origem, um ponto que se relaciona com as suspeitas de ocultação de patrimônio neste caso.

Dados da Comissão de Valores Mobiliários (CVM) mostram que, a partir de outubro de 2025, houve uma alteração abrupta na carteira do Somme. As posições do fundo deixaram de ser reportadas nos documentos públicos.

Em janeiro de 2026, os dados voltaram a ser disponibilizados, mas com uma nova configuração: o fundo passou a conter cotas do Marne FIDC-NP, também sob a gestão da North Sea, totalizando R$ 2,2 bilhões, o que representa uma troca de ativos que manteve praticamente todo o volume financeiro. Essa movimentação ocorreu durante o mesmo período em que as ações judiciais foram implementadas e coincide com o momento em que, segundo o STF, arranjos financeiros estavam sendo utilizados para ocultar capital.

Na decisão que fundamentou a operação, Mendonça afirma que a organização investigada “continuou a ocultar recursos bilionários em nome de terceiros”, valendo-se de mecanismos que dificultariam a identificação da origem e do destino do capital.

A partir de fevereiro de 2026, o fundo Somme não apareceu mais nos relatórios clássicos de carteira da CVM e passou a ser listado apenas em documentos considerados confidenciais, restringindo o acesso público às informações detalhadas sobre sua posição.

No mesmo processo de reestruturação, o fundo Marne, que passou a concentrar os ativos, alocou praticamente a totalidade de seu patrimônio, cerca de R$ 2,19 bilhões, em cotas de um veículo da Kinea Investimentos. A gestora informou que não fará declarações sobre o assunto.

Um Fundo Construído Dentro do Master

Registros históricos da CVM indicam que o fundo Somme foi constituído em 12 de julho de 2022, tendo a Master S/A Corretora de Câmbio, Títulos e Valores Mobiliários como administradora, custodiante e controladora, e a 3J Gestora de Recursos como gestora original.

Durante o seu período inicial, o fundo permaneceu em fase pré-operacional, sem registros de atividades. Em 27 de maio de 2025, a administração foi transferida para a QORE e a gestão para a North Sea, iniciando as operações regulares. Nas semanas seguintes, bilhões em ativos relacionados à Credcesta começaram a aparecer em sua carteira.

Um detalhe que chama a atenção nos dados públicos é que o campo que identifica o controlador do fundo ainda registra a Master S/A Corretora, sem data de encerramento. Nos registros oficiais, o controle formal do fundo Somme não foi atualizado após a transição.

Um Padrão que se Repete

A atuação da QORE e da North Sea em mecanismos desse tipo já havia sido observada em situações anteriores.

Por exemplo, pouco antes do pedido de recuperação judicial do Grupo Fictor, a empresa transferiu em bloco a administração, controladoria, escrituração e custódia de três de seus FIDCs para a QORE. Fundos relacionados à Reag, que foi liquidada, também foram transferidos em massa para a administração da QORE.

Esse tipo de substituição impacta diretamente quem é responsabilizado pelos fundos perante a CVM e quem valida o lastro das carteiras, funções centrais na governança dessas estruturas.

A presença das duas gestoras também foi observada em outras operações. Em novembro de 2025, o fundo Delta, administrado pela North Sea, foi utilizado para adquirir ações do Banco de Brasília (BRB) pelo Banco Master.

Em janeiro de 2026, o Kadesh FIDC, administrado pela QORE e gerido pela North Sea, alocou R$ 15,49 milhões em ativos da Fictor Holding, que representava 48,65% de seu patrimônio líquido. Em 1º de fevereiro, a companhia solicitou recuperação judicial. No mesmo mês, o fundo registrou uma depreciação de 70% em sua carteira.

Fonte: www.moneytimes.com.br

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