Galápagos perde concessão bilionária devido a falha na due diligence e mercado critica gestora - Times Brasil

Galápagos perde concessão bilionária devido a falha na due diligence e mercado critica gestora – Times Brasil

by Fernanda Lima
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Investimentos e Desclassificação no Leilão

A Galápagos Capital participou do maior leilão de rodovias já realizado no Mato Grosso do Sul, apresentando uma proposta de R$ 10,1 bilhões em investimentos. Entretanto, junto com o consórcio que formou com a K-Infra, a empresa trouxe uma questão preocupante que poderia ter sido detectada por uma pesquisa simples em bases públicas. O Consórcio K&G venceu o leilão com um desconto de 9% na tarifa de pedágio, mas, três meses após o certame, a Justiça desclassificou o consórcio e a XP Investimentos assumiu a concessão.

A Rota da Celulose e Suas Implicações

O insucesso da Galápagos na Rota da Celulose teve início há um ano e dezenove dias, quando o governo federal decretou a caducidade do contrato da K-Infra na Rodovia do Aço, no Rio de Janeiro, em razão do descumprimento de diversas obrigações. O atraso provocado pela gestora resultou em nove meses de paralisação em um projeto que era esperado há anos por produtores rurais, caminhoneiros e transportadoras do leste sul-mato-grossense.

Impacto no Setor Produtivo

A Rota da Celulose representa um projeto concreto composto por 870 quilômetros de rodovias que conectam a região produtora de celulose, soja e milho do leste do Mato Grosso do Sul aos portos e centros de distribuição do país. A megafábrica da Suzano, localizada em Ribas do Rio Pardo, uma das maiores do mundo, depende dessas estradas para o escoamento de sua produção. Atualmente, caminhoneiros enfrentam diariamente trechos de rodovias sem acostamento, sem sinalizações adequadas e sem duplicação, condições que não foram projetadas para suportar o volume de carga que recebem.

Durante os nove meses em que a disputa judicial, causada pela desclassificação do consórcio, estagnou o processo, nenhuma obra foi realizada. Não houve implantacão de acostamentos, nem a abertura de faixas adicionais. Os custos desse atraso, que não são registrados em nenhum balanço, podem ser avaliados em termos de acidentes, tempo perdido e perda de competitividade.

Parceria Bilionária com Problemas Conhecidos

Quando a Galápagos formou a parceria com a K-Infra, o processo administrativo de caducidade contra a operadora já estava em andamento na ANTT há dois anos e meio. Entre 2020 e 2024, a agência lavrou 75 multas contra a concessionária, devido ao descumprimento de prazos de atendimento de serviços essenciais, como socorro mecânico e inspeção de tráfego. A dívida acumulada com a União alcançava cerca de R$ 1 bilhão, e a rodovia apresentava diversos problemas estruturais, como trincas, afundamentos e falta de sinalização.

Todas essas informações eram de domínio público e podiam ser acessadas por qualquer analista com acesso ao sistema da ANTT. Contudo, continua a indagação sobre se a Galápagos tinha conhecimento dessa situação e decidiu, mesmo assim, considerar válida a certificação técnica de sua parceira, ou se entrou no consórcio de R$ 10 bilhões sem realizar uma análise detalhada sobre a situação regulatória de seu parceiro. Ambas as situações são igualmente preocupantes.

Capacidade Técnica e Exigências do Edital

O edital da Rota da Celulose exigia que o consórcio demonstrasse capacidade técnica operacional em concessões. A K-Infra apresentou como comprovação o contrato da Rodovia do Aço, o mesmo que a União encerrou devido à inadimplência durante o leilão. A Bolsa, responsável pela análise de governança do certame, emitiu um parecer positivo que levou a comissão de licitação a habilitar o consórcio.

Após a XP contestar a habilitação com base na caducidade, a comissão começou a exigir documentos adicionais, que não estavam especificados no edital. A defesa da K-Infra contestou essa exigência, argumentando que o edital demandava apenas demonstrações financeiras e balanços, que foram fornecidos. Enquanto isso, a ação no mérito ainda tramita no Tribunal de Justiça do Mato Grosso do Sul, mas todas as liminares solicitadas foram negadas, resultando na concessão com a XP, onde as obras já foram iniciadas.

Histórico Regulatório da Galápagos

O caso da Rota da Celulose não foi o primeiro a levantar questões regulatórias sobre a Galápagos. A Anbima abriu um Procedimento para Apuração de Irregularidades contra a gestora, que se comprometeu a pagar R$ 150 mil. Entre as irregularidades estavam a originação de direitos creditórios por empresas do mesmo conglomerado, conflitos de interesse, falta de segregação de atividades e ausência de transparência com os cotistas.

A Galápagos foi fundada em 2019 por Carlos Fonseca, ex-chefe de private equity do BTG Pactual, com foco em crédito estruturado, venture debt e gestão de patrimônio. Rodovias eram um território desconhecido para a gestora quando decidiu participar do leilão da Rota da Celulose. O histórico regulatório da gestora foi considerado durante o processo de habilitação do certame? A empresa informou espontaneamente essa ocorrência à comissão de licitação? As perguntas foram enviadas à Galápagos, que não respondeu antes da publicação deste artigo.

Fundo Sem Ativo e Consequências

No momento do leilão, a Galápagos anunciou publicamente a estruturação de um fundo de infraestrutura que tinha a Rota da Celulose como ativo âncora, com uma estratégia voltada para rodovias, saneamento, mobilidade e portos. O fundo tinha como objetivo captar recursos de investidores, tanto nacionais quanto internacionais.

Após a desclassificação do consórcio em agosto de 2025, o ativo que justificava o fundo desapareceu. Não foram encontrados registros públicos que indiquem que a Galápagos tenha comunicados formalmente os investidores sobre os riscos regulatórios associados à K-Infra durante o período em que o consórcio ainda estava em disputa judicial pela concessão.

Efeitos no Setor Regulatórios

O acontecimento teve uma repercussão que transcende a Rota da Celulose. A ANTT agora proíbe explicitamente empresas com concessões caducadas de participarem de novos leilões federais pelos cinco anos subsequentes à punição. A K-Infra está, portanto, impedida de disputar qualquer concessão federal até junho de 2030.

Para o setor produtivo da região leste do Mato Grosso do Sul, o impacto é mais palpável: uma espera de nove meses em um projeto que já deveria estar em andamento, e rodovias que permanecem nas mesmas condições em que estavam antes do leilão. O custo de um erro que, no setor de infraestrutura, não deveria ser aceitável.

Novas Oportunidades

Menos de um ano após a perda da Rota da Celulose, a Galápagos retomou sua participação em leilões. No dia 28 de maio, o Consórcio 116 Sertões, composto pela gestora paulistana com a Nova Infra Invest, braço de infraestrutura da Novonor – antiga Odebrecht –, e a construtora portuguesa Mota-Engil, conquistou a concessão da Rota dos Sertões. Este contrato abrange 502 quilômetros de rodovias federais conectando a Bahia a Pernambuco, com um prazo de 30 anos e investimentos de R$ 4,1 bilhões previstos. O consórcio ofereceu um desconto de 19,6% na tarifa de pedágio, o maior entre os três grupos que participaram da licitação. Desta vez, os sócios escolhidos não apresentavam contratos sendo encerrados por inadimplência com a União, até o fechamento desta reportagem.

Procuradas pela Times Brasil | CNBC, tanto a Novonor quanto a Galápagos não forneceram respostas até o momento da publicação deste artigo. O espaço permanece aberto para atualizações assim que recebermos um retorno das empresas.

Fonte: timesbrasil.com.br

As informações apresentadas neste artigo têm caráter educativo e informativo. Não constituem recomendação de compra, venda ou manutenção de ativos financeiros. O mercado de capitais envolve riscos e cada investidor deve avaliar cuidadosamente seus objetivos, perfil e tolerância ao risco antes de tomar decisões. Sempre consulte profissionais qualificados antes de realizar qualquer investimento.

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