Defesa da Atuação do Banco Central
O presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, realizou nesta terça-feira (19) uma defesa ampla da atuação da instituição em relação aos casos que envolvem o Banco Master e o ex-presidente do BC, Roberto Campos Neto. Durante uma audiência pública na Comissão de Assuntos Econômicos (CAE) do Senado, Galípolo destacou que a questão do Banco Master não estava relacionada ao tamanho do passivo ou a um risco sistêmico para o sistema financeiro, mas sim ao uso indevido dos recursos captados com garantia do Fundo Garantidor de Créditos (FGC) pela instituição.
Ao longo da sessão, Galípolo procurou enfatizar que o Banco Central tomou decisões técnicas no acompanhamento do conglomerado liderado por Daniel Vorcaro, assim como na gestão de processos internos envolvendo servidores e ex-dirigentes do banco.
Comparações com Crises Bancárias Passadas
O presidente do BC comparou a situação do Banco Master a crises bancárias enfrentadas no passado, afirmando que “o caso Bamerindus era mais complexo. O caso Econômico era mais complexo. O caso Nacional era mais complexo”. Ele argumentou que, diferentemente de aqueles episódios, o banco em questão não apresentava uma ameaça sistêmica ao sistema financeiro.
“O caso em questão possui uma complexidade relacionada ao uso dos recursos e aos indivíduos envolvidos na situação”, complementou Galípolo.
Características do Banco Master
Galípolo fez uma analogia ao comparar o Banco Master a um clube de “terceira divisão do futebol”, referindo-se ao fato de que a instituição pertence ao segmento 3 do sistema bancário. Ele enfatizou que a preocupação central do Banco Central estava voltada para a aplicação dos recursos captados que tinham respaldo do FGC.
“O problema não era o passivo. Era como o dinheiro garantido pelo FGC estava sendo utilizado”, afirmou.
Mudanças nas Regras do Fundo Garantidor
O presidente do Banco Central também abordou alterações recentes nas normas do fundo garantidor, implementadas para evitar que outras instituições adotem o mesmo modelo utilizado pelo Banco Master. Entre as mudanças, mencionou o aumento das contribuições exigidas de bancos excessivamente dependentes de captações cobertas pelo FGC, além de um endurecimento nas exigências referentes aos ativos aceitos como garantia nessas operações.
“Não se pode ter um passivo de varejo em um ativo de hedge fund ou em ativos de gestores de fundos estressados”, destacou Galípolo.
Preferência pela Liquidação Organizada
Durante a audiência, Galípolo revelou que, após o Banco Central impedir a aquisição do Banco Master pelo Banco de Brasília no mês de setembro do ano anterior, Vorcaro sugeriu uma saída organizada da instituição do mercado. “Ele reconheceu que o banco não é mais viável, mas propôs que realizaria uma ‘autoliquidação’, passando a instituição para investidores árabes, dos quais nunca tive conhecimento”, disse.
De acordo com Galípolo, os sinais de deterioração financeira do Banco Master já eram evidentes. Ele informou que, em 2025, a captação líquida da instituição foi negativa em R$ 11,5 bilhões, enquanto as captações garantidas pelo FGC levaram a uma saída líquida de US$ 9 bilhões.
“Recentemente, várias comunicações têm surgido, denunciando um certo estado de asfixia financeira do grupo”, comentou.
Afastamento de Servidores do Banco Central
Concernente ao afastamento do ex-diretor Paulo Souza e do ex-chefe de departamento Belline Santana, após a realização de uma auditoria e sindicância a fim de investigar as suspeitas associadas ao caso do Banco Master, Galípolo classificou essa situação como uma das mais graves da história da administração da autoridade monetária.
“Foi um episódio gravíssimo. O afastamento de dois servidores de carreira do Banco Central representa um dos acontecimentos mais sérios já vistos na história da instituição”, afirmou o presidente.
Segundo ele, os processos resultantes dessa investigação foram encaminhados à Controladoria-Geral da União e comunicados à Polícia Federal.
Afastando Acusações de Perseguição Política
Galípolo se esforçou para rechaçar as acusações de perseguição política dentro da autarquia. Quando questionado por senadores sobre o termo de compromisso estabelecido entre o Banco Central e Campos Neto, o presidente alegou que o acordo seguiu um processo técnico e independente.
No mês de junho do ano passado, Campos Neto aceitou pagar R$ 300 mil ao Banco Central devido a falhas no preenchimento de informações relacionadas à validação da legalidade de operações de câmbio e à qualificação de clientes, enquanto atuava como diretor do Santander Brasil entre 2015 e 2017.
Galípolo ressaltou que o caso estava ligado a um “preenchimento inadequado” de dados e destacou que as inconsistências representavam um percentual muito baixo em relação às operações realizadas pelo banco no período. O Santander, por sua vez, também foi multado em R$ 19 milhões em decorrência desse ocorrido.
“As decisões são tomadas com base em uma governança técnica. Não me compete perseguir ninguém”, afirmou.
O presidente do Banco Central acrescentou que parte de seu mandato é garantir que a instituição não se torne um instrumento de politicagem.
“O mandato a que o Banco Central está comprometido é cuidar da estabilidade financeira e monetária, mas existe um terceiro mandato que tenho perseguido com afinco: impedir que o Banco Central se transforme em qualquer tipo de palanque político”, concluiu.
Atualmente, Campos Neto ocupa os cargos de vice-presidente do conselho de administração e chefe global de políticas públicas do Nubank.
*Com informações do Broadcast
Fonte: www.moneytimes.com.br