O presidente do Banco Central (BC), Gabriel Galípolo, participou da Comissão de Assuntos Econômicos (CAE) do Senado nesta terça-feira, 19 de setembro, e surpreendeu ao dedicar uma parte significativa de seu discurso ao caso do Banco Master, enquanto deixou a política monetária em um segundo plano.
A analista da CNN Money, Lucinda Pinto, observou que há muito tempo não se testemunhava o chefe da autoridade monetária sendo tão questionado sobre um assunto que não fosse o relacionado à taxa de juros.
Defesa enfática da PEC e da autonomia do Banco Central
Frente aos questionamentos sobre o Banco Master, Galípolo aproveitou a oportunidade para fazer uma defesa incisiva da aprovação da Proposta de Emenda à Constituição (PEC) que visa ampliar a autonomia do Banco Central.
Lucinda Pinto destacou que a mensagem transmitida por Galípolo buscava transformar a crise do Banco Master em uma nova oportunidade para fortalecimento institucional.
Em suas declarações, o presidente do BC teria afirmado: “Pelo amor de Deus, qual é o problema da gente ter um Banco Central desaparelhado e sem dentes suficientes para acompanhar esse mercado que cresceu tão rapidamente?”. Essa frase se destacou pela ênfase e pela força de suas palavras.
Além disso, Galípolo ressaltou as disparidades entre o Banco Central do Brasil e as instituições financeiras em outros países, evidenciando que enquanto o Banco Central Europeu (BCE) conta com aproximadamente 20 técnicos para cada instituição supervisionada, no Brasil essa proporção seria bastante acentuada, com apenas um técnico para cada 20 instituições.
Ele também mencionou o comprometimento dos servidores do Banco Central, que frequentemente trabalham durante a madrugada e nos fins de semana, apenas para assegurar o funcionamento do sistema do Pix.
Perspectivas para a PEC no Congresso
Entretanto, as perspectivas para a aprovação da PEC no curto prazo são incertas. O relator da proposta, o senador Plínio Valério (PSDB-AM), informou que o texto será apresentado na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) na quarta-feira, 20 de setembro, mas já apontou a probabilidade de que um pedido de vista deve ser solicitado.
De acordo com Lucinda Pinto, o projeto não mostra sinais de que conseguirá avançar de forma significativa ainda neste ano.
Ela destacou a urgência da questão, considerando o crescimento e a complexidade do sistema financeiro, que hoje abrange fintechs, open finance e operações cada vez mais sofisticadas. Batendo na tecla da necessidade de agilidade, alertou que a exigência de submeter qualquer aquisição ou desenvolvimento tecnológico a outras instâncias tem limitado a capacidade do Banco Central de se modernizar, tornando o sistema financeiro mais vulnerável a ataques, fraudes e corrupção. Pinto ainda lembrou que países como o México e o Chile já possuem legislações mais avançadas que tratam desses assuntos.
Política monetária: cenário preocupante
Embora a política monetária tenha ocupado um espaço menor na fala de Galípolo, o presidente ainda abordou esse tema, apresentando um cenário alarmante e reafirmando o compromisso do Banco Central em atingir a meta de inflação, sinalizando que a taxa de juros reagirá de acordo com as expectativas do mercado.
A mediana das projeções para o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) está estimada em 4,92% para 2026 e em 4% para 2027, enquanto a ocorrência do fenômeno El Niño pode agravar ainda mais a situação inflacionária esperada para o ano seguinte.
Galípolo não mencionou que a inflação atual deveria ser considerada um choque de oferta — uma tese que diverge da posição defendida pelo Ministério da Fazenda. Newton Davi, diretor do Banco Central, também participou de um evento do Santander na mesma data e afirmou que a política monetária se manterá em vigor até que a ancoragem das expectativas se alinhe à meta estabelecida.
O relatório Focus indicou que a mediana das projeções para a taxa Selic está em 13,25% para este ano, 11% para o próximo e 10% para 2028, sem previsões de que a taxa possa vir a atingir um dígito nos próximos anos.
Fonte: www.cnnbrasil.com.br