Guerra revela os perigos para a segurança energética do Brasil, afirma ex-presidente da Petrobras.

A Guerra no Irã e o Novo Choque do Petróleo

A guerra no Irã e o fechamento do Estreito de Ormuz expõem as vulnerabilidades da segurança energética do Brasil, que suspendeu o projeto de ampliação de suas refinarias em meio à Operação Lava Jato e à pressão internacional de multinacionais do petróleo. Esta avaliação é feita por José Sergio Gabrielli, ex-presidente da Petrobras, que liderou a estatal entre os anos de 2005 e 2012.

Contexto do Mercado de Petróleo

Em uma entrevista à Agência Brasil, Gabrielli comentou que os Estados Unidos têm buscado influenciar o mercado global de petróleo por meio de intervenções na Venezuela e no Irã. Ele acredita que a guerra pode alterar a dinâmica do comércio de petróleo, aumentando a participação de países como Brasil, Canadá e Guiana na oferta de petróleo bruto para China e Índia.

Entretanto, Gabrielli destaca que, sem capacidade de refino para atender à demanda interna — especialmente a de diesel —, o Brasil permanece vulnerável às instabilidades atuais. O ex-presidente também discorreu sobre o papel das importadoras de combustíveis e os impactos da guerra sobre a transição energética.

Efeitos da Guerra no Comércio Global de Petróleo

Gabrielli: "Tivemos dois choques significativos em 1973 e 1979, momentos de instabilidade política no Oriente Médio que provocaram aumentos no preço do barril e afetaram a economia global. Neste momento, estamos experimentando um terceiro choque que trará efeitos estruturais, alterando não apenas a comercialização do petróleo, mas também do gás. Isso se deve a ataques a importantes fontes de produção de gás ao redor do mundo."

Ele observa que, no mercado de petróleo, o impacto pode ser moderado inicialmente, mas será prolongado. As principais novas refinarias estão sendo construídas no Oriente Médio, especialmente na Arábia Saudita, nos Emirados Árabes Unidos e no Irã, com os maiores destinos de petróleo do Golfo Pérsico sendo a China e a Índia.

Motivação da Intervenção Americana

A política agressiva dos Estados Unidos, liderada durante o governo Trump, visava o controle do mercado de petróleo. Gabrielli cita o sequestro do presidente da Venezuela como um exemplo dessa estratégia, com a imposição de várias medidas favoráveis aos interesses americanos. O ex-presidente acrescenta que a complementaridade do petróleo venezuelano com as refinarias americanas, que são adaptadas ao tipo de petróleo extraído na Venezuela, justifica essa intervenção.

Por outro lado, o Irã, o segundo maior produtor do Oriente Médio, opera mercado próprio devido às sanções americanas. Seu petróleo continua a ser escoado, principalmente para a China, através de um mercado paralelo criado em virtude das restrições internacionais.

O Impacto da Guerra na Exportação de Petróleo

A guerra certamente mudará a exportação de petróleo iraniana. Com o controle do Estreito de Ormuz, o Irã passou a permitir a passagem de alguns navios, desde que a transação seja feita em yuans, a moeda chinesa. Essa abordagem indica uma crescente relutância em usar o dólar como moeda de troca, prenunciando um realinhamento na estrutura de mercado.

Objetivos dos EUA no Irã

Gabrielli reflete que a intervenção americana no Irã tem o objetivo de ocupar o mercado paralelo que surgiu sob as sanções. Além do Irã, outros grandes produtores como Canadá, Guiana e Brasil estão se tornando mais relevantes, com previsões de que esses países adicionem 1,2 milhão de barris de petróleo ao mercado diário até 2027.

Para Gabrielli, a capacidade de produção dos três países será impactada mais pela demanda do que pela guerra em si. "Com a situação conflituosa, a modificação do suprimento para China e Índia, que já têm capacidade de refino, pode ser facilitada."

Ele ressalta que o petróleo brasileiro é o mais adequado para as refinarias chinesas, enquanto as pequenas refinarias se adaptam melhor ao petróleo canadense. Essa dinâmica pode provocar uma mudança nas relações entre Brasil, Canadá e China.

Desafios da Segurança Energética no Brasil

Gabrielli: "O Brasil enfrenta um problema de segurança energética. Não temos capacidade de refino suficiente para atender à demanda local de diesel, gasolina e gás de cozinha, com a maior dependência recaindo sobre o diesel."

Para mitigar essa vulnerabilidade, ele argumenta que é necessário ampliar a capacidade de refino no Brasil. A partir da Operação Lava Jato, o país inibiu a criação de novas refinarias. Durante o período de 1980 a 2014, nenhuma nova refinaria foi construída, com a única exceção sendo a de Pernambuco, inaugurada em 2014.

Historicamente, a discussão sobre a capacidade de refino no Brasil começou em 1911, quando empresas estrangeiras como Exxon e Shell dominavam o setor e se opuseram à expansão das refinarias locais. A insegurança energética torna-se mais clara em tempos de crise, porém, construções de refinarias exigem um tempo significativo, o que limita as opções de curto prazo.

Papel das Importadoras de Combustíveis

Desde o governo de Michel Temer, quase 300 importadores de combustíveis começaram a operar no Brasil. Gabrielli explica que as refinarias da Petrobras, nos governos Temer e Bolsonaro, operaram a 50% de sua capacidade. A volta ao máximo de 93% com o novo governo em 2023, embora tenha ampliado a produção, ainda não é suficiente para satisfazer a demanda de mercado.

Os importadores, que deveriam equilibrar o mercado, têm uma abordagem especulativa, somente importando quando o preço internacional é inferior ao nacional. Portanto, para justificar a importação, é necessário ajustar os preços internos.

Efeitos do Choque do Petróleo na Transição Energética

Gabrielli: "A atual realidade demonstra que não podemos prescindir do combustível fóssil neste momento. A eliminação imediata dos combustíveis fósseis é inviável, como evidenciado pela situação de Cuba, que sofre devido à falta de petróleo."

A subida dos preços pode provocar uma contração da demanda, mas a médio prazo poderá também estimular uma mudança de comportamento, com potencial para aumentar a transição energética a longo prazo.

Viabilidade do Hidrogênio Verde como Alternativa

Gabrielli menciona que o desenvolvimento do hidrogênio verde exige um novo mercado. Nos dias atuais, as refinarias e empresas de fertilizantes são os principais consumidores. O hidrogênio é crucial para descarbonizar diversos setores, mas sua produção deve estar próxima do ponto de consumo, especialmente ao competir com biocombustíveis.

A substituição do petróleo por hidrogênio verde dependerá de políticas que fomentem essa transição. Enquanto alguns locais já mostram viabilidade, os analistas projetam que hidrogênio verde poderá dominar o mercado de combustíveis em 2035, mas apenas se ações concretas forem tomadas agora.

Fonte: www.cnnbrasil.com.br

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