Situação do Setor Aéreo Brasileiro
Pedidos de Recuperação Judicial
Nos últimos cinco anos, o mercado aéreo brasileiro observou as três principais companhias do setor buscando assistência financeira. Primeiro, a Latam solicitou ajuda, seguida pela Gol (código GOLL4) e agora a Azul (código AZUL4), que ainda passa pelo processo de Chapter 11, que refere-se à recuperação judicial nos Estados Unidos.
Fatores Contribuintes
O impacto da pandemia é um dos principais fatores que levaram a essa situação, mas outros aspectos macroeconômicos e microeconômicos também levantam a indagação: é possível uma recuperação para as companhias aéreas?
O Money Times dialogou com analistas e especialistas acadêmicos para discutir os diferentes elementos que afetam a operação de uma companhia aérea. Existe um consenso de que esse é um setor desafiador e que, mesmo quando um fator é favorável, existem outros que impedem uma recuperação mais completa.
Complexidade do Setor
Carlos Honorato, professor da FIA Business School, afirma que uma análise mais profunda revela a complexidade do setor em nível global, onde muitas empresas enfrentam dificuldades e frequentemente necessitam de suporte, seja por meio de subsídios governamentais ou reestruturações financeiras.
Um dos principais desafios que o setor enfrenta é a alta complexidade operacional, que envolve não apenas o leasing de aeronaves, mas também o custo elevado dos combustíveis. Qualquer fator externo, como crises financeiras, pandemias ou desastres naturais, possui um impacto significativo. Segundo Honorato, os gestores de companhias aéreas devem equilibrar constantemente esses aspectos variáveis.
Cenário Brasileiro
No Brasil, a situação é ainda mais complicada, especialmente por causa dos custos dolarizados. Aproximadamente 40% dos gastos com combustível são calculados em dólares. Nesse contexto, Honorato sugere que um suporte estatal ou subsídios seriam fundamentais para a sobrevivência das companhias aéreas.
Ele cita o exemplo da TAP, que foi comprada quase que totalmente pelo governo português durante a pandemia, e da Lufthansa, que também recebeu apoio estatal. Contudo, ele destaca que o governo brasileiro já enfrenta suas próprias dificuldades econômicas.
Desafios de Gestão e Fatores Econômicos
A Busca por Eficiência
Uma parte significativa do desafio das companhias aéreas envolve a gestão e a busca por eficiência em diversos aspectos operacionais, incluindo custos, aproveitamento de oportunidades e a seleção de rotas. Paralelamente, existem os altos juros, o preço do petróleo e a variação do dólar. Conforme explicado pelos analistas consultados pelo Money Times, calcular a viabilidade económica para as companhias aéreas é um desafio complexo.
Felipe Sant’Anna, especialista em investimentos do grupo Axia Investing, também corrobora essa visão e argumenta que o setor é, por sua natureza, propenso a dificuldades. Ele aponta que os custos em dólares, receitas em reais, tarifas e taxas tornam o transporte aéreo extremamente caro.
Sant’Anna sugere que o transporte aéreo deveria ser tratado como um serviço público e que o governo deveria facilitar a operação, evitando obstáculos regulatórios. Além disso, ele menciona problemas sérios na questão cambial, alertando que todos os envolvidos, como a Anac (Agência Nacional de Aviação Civil), precisam colaborar para mitigar esses problemas.
Impacto do Combustível
A volatilidade dos preços do combustível representa quase 50% dos custos de um voo. Sant’Anna propõe que a Petrobras, maior produtora de querosene de aviação, poderia adotar uma política de preços diferenciados, considerando a possibilidade de isenção ou redução do ICMS para o combustível utilizado pelas companhias aéreas.
Apesar de considerar a intervenção estatal necessária, Sant’Anna acredita ser pouco provável que o governo crie um mecanismo eficaz de subsídio às companhias aéreas no momento presente.
Problemas Estratégicos das Companhias
Carlos Honorato ainda destaca que, embora o cenário macroeconômico seja complicado, existem falhas estratégicas dentro das próprias companhias que contribuem para os resultados negativos. Ele menciona o impacto que a Covid-19 teve, mas também ressalta que algumas decisões, como a aquisição da Varig pela Gol em 2007, poderiam ter sido evitadas.
Possíveis Soluções para as Companhias Aéreas
Fusões e Recuperação do Setor
Felipe Sant’Anna aponta que a história do setor aéreo brasileiro não demonstra mudanças significativas no perfil das companhias, com vários players, como Varig, Vasp e TransBrasil, desaparecendo ao longo do tempo. No futuro, ele nota que tanto a Gol quanto a Azul tentam estabelecer uma cooperação através de codeshare, mas se deparam com dificuldades.
A fusão entre as duas companhias foi proposta como uma solução. Sant’Anna, porém, sinaliza que essa união enfrentaria obstáculos regulatórios significativos. Em contraponto, Enrico Cozzolino, da Levante Investimentos, vê a fusão como vital para a sobrevivência das companhias. A falta de sinergia de rotas e as margens diminutas intensificam a necessidade de um grupo mais forte para enfrentar crises.
Desafios das Fusões
Carlos Honorato acredita que, do ponto de vista empresarial, a fusão traria benefícios, mas seria vital garantir proteção aos consumidores caso apenas duas companhias permaneçam no mercado, o que complicaria a competição.
Ações e Desempenho das Companhias
Enrico Cozzolino observa que o setor aéreo envolve um prêmio de risco elevado devido a seus custos de capital e à sensibilidade a juros e outras variáveis. Sem aumentos significativos nas receitas e melhorias nas garantias, novos desafios são esperados no futuro.
Ele aconselha que os investidores se desvinculem dos preços das ações da Azul de um ou três anos atrás, já que uma recuperação significativa pode demorar. Os resultados recentes de ambas as companhias mostram áreas de potencial melhoria, mas há ainda muitas pendências a serem resolvidas.
Felipe Sant’Anna classifica o cenário atual das ações como um momento de especulação, marcado por movimentos bruscos de alta e baixa, devido aos preços extremamente baixos de negociação. Ele expressa que ações de companhias aéreas, em qualquer lugar do mundo, têm um histórico de serem empreendimentos pouco rentáveis.
Sant’Anna afirma que não investiria em ações do setor aéreo atualmente, considerando o contexto de crise, a volatilidade cambial, a oscilação dos preços do petróleo e as taxas de juros.