Contexto do Mercado de Crédito Privado
Após mais de uma década de crescimento acelerado, com liquidez abundante e retornos consistentes, o mercado global de crédito privado começa a demonstrar sinais claros de estresse.
Riscos e Ajustes no Setor
As altas taxas de defaults de grande visibilidade, as dúvidas sobre a precificação de ativos ilíquidos e o aumento dos pedidos de resgate reacenderam um debate que parecia ter sido superado desde a crise de 2008: existe risco sistêmico no setor, ou estamos apenas diante de um ajuste natural de ciclo?
De acordo com Howard Marks, cofundador da Oaktree Capital Management, o momento atual exige maior cautela, especialmente por parte de investidores de varejo, embora não aponte para uma crise sistêmica semelhante àquela de 2008.
A Expansão do Crédito Direto
Em entrevista a um relatório do Goldman Sachs, Marks descreveu o crescimento do crédito direto como uma “corrida do ouro”, impulsionada por mudanças regulatórias que ocorreram após a crise financeira de 2008. Com a diminuição da atuação dos bancos no financiamento de operações alavancadas, gestoras privadas começaram a ocupar esse espaço, oferecendo crédito a empresas de médio porte que estão envolvidas em transações de private equity.
Durante a pandemia, a combinação de estímulos fiscais massivos, juros próximos de zero e grande liquidez resultou na redução dos spreads de crédito para níveis historicamente baixos. Esse ambiente favoreceu uma expansão agressiva do crédito privado, aumentando a busca por retornos em ativos menos líquidos.
Mudanças no Cenário Econômico
No entanto, esse regime foi alterado. Com a inflação em alta em nível global, o Federal Reserve aumentou as taxas de juros para patamares superiores a 5%, encarecendo o custo de capital e forçando uma reprecificação de risco. O resultado foi a ampliação dos spreads e o aumento da seletividade, um movimento típico de transições de ciclo.
Segundo Marks, essa mudança inicial resultou em oportunidades significativas, com taxas de juros elevadas e uma maior proteção contratual. Contudo, também atraíu uma onda de novos participantes ao mercado ao longo dos anos, o que culminou em um crescimento acelerado do setor, atualmente próximo de US$ 2 trilhões, acompanhado de maior concorrência e um possível deterioramento nos padrões de risco.
“Como em toda corrida do ouro, esse sucesso atraiu muitos novos investidores. O capital disponível cresceu mais rapidamente que a demanda, diminuindo o poder de barganha dos credores. Entretanto, com a expansão do private equity, a demanda por financiamento permaneceu forte, possibilitando relevante crescimento dos ativos sob gestão e a geração de taxas”, explica Marks.
Análise do Crédito Direto
Apesar das preocupações recentes em relação a defaults e pedidos de resgate, Marks acredita que o crédito direto não apresenta falhas estruturais capazes de provocar uma crise sistêmica. “Emprestar dinheiro não é problemático”, afirmou, enfatizando que a qualidade da análise e as condições do empréstimo são o fator determinante do risco.
“Participei do surgimento do mercado de high yield na década de 1970, quando empresas sem grau de investimento começaram a emitir dívidas com juros mais altos. Esses títulos eram frequentemente descritos como ‘junk bonds’. Da mesma forma que nas etapas iniciais do crédito direto, havia poucos investidores dispostos a emprestar, o que permitia altos retornos com proteção. Temos décadas de atuação bem-sucedida nesse mercado e com gerenciamento de risco adequado. Portanto, não há nada inerentemente seguro ou arriscado em um empréstimo”, argumenta.
No entanto, o investidor aponta fragilidades significativas nos veículos de investimento, especialmente nas BDCs (business development companies) não listadas, que são utilizadas para o acesso do varejo ao crédito privado. Ele observa que existem incertezas relevantes sobre a precificação desses ativos, uma vez que o valor patrimonial (NAV) é estimado e não resulta de negociações no mercado.
Distorções e Liquidez
Essa dinâmica pode ocasionar distorções: investidores que resgatam podem receber valores superiores ou inferiores ao que seria justo, dependendo da avaliação do ativo. “A única maneira totalmente justa de proceder seria pagar ao investidor o valor efetivamente obtido na venda de sua fatia dos ativos, mas não é assim que esses veículos operam”, ressalta Marks.
Outro aspecto delicado é a questão da liquidez. Esses veículos frequentemente impõem limites aos resgates, geralmente restringidos a cerca de 5% do patrimônio por trimestre, o que tem gerado frustração durante períodos de alta demanda por saques. “É desconfortável investir e não conseguir acessar seu dinheiro — especialmente quando há uma promessa implícita de liquidez”, afirma Marks.
Apesar disso, ele considera que essas limitações atuam como um mecanismo de proteção, ajudando a minimizar o risco de vendas forçadas e evitando uma espiral negativa no mercado.
Comparação com a Crise de 2008
Ao traçar um paralelo entre o cenário atual e a crise de 2008, Marks identifica diferenças fundamentais. Naquela época, o problema estava concentrado em ativos de baixa qualidade, como hipotecas subprime securitizadas, em um sistema altamente alavancado e interconectado por derivativos — fatores que potencializaram o efeito dominó, inexistente no crédito privado atual.
Em relação à crescente exposição ao setor de tecnologia e empresas de software, que são suscetíveis à disrupção provocada pela inteligência artificial, o investidor admite que há riscos, mas acredita que, em geral, eles são administráveis dentro de carteiras diversificadas. “Em empréstimos seniores, uma empresa precisaria perder um valor significativo antes de afetar o credor. Mesmo perdas relevantes em software tendem a ser absorvíveis em carteiras diversificadas. Embora não seja uma situação agradável, não representa uma ameaça ao sistema financeiro”, observa.
Expectativas Futuras
Para o futuro, Marks prevê um ambiente de maior seletividade. Com a desaceleração do private equity, que é o principal tomador desse tipo de crédito, espera-se que a demanda por financiamento cresça em um ritmo mais lento. Simultaneamente, os episódios recentes tenderão a tornar os investidores mais cautelosos.
Na visão do gestor, o mercado ainda precisa passar por um ciclo de crédito completo para alcançar o amadurecimento necessário. “Somente quando a maré baixa é que se vê quem estava nadando nu”, disse Marks, citando famosa frase de Warren Buffett.
Fonte: www.moneytimes.com.br

