Intel: Um Virada Histórica
Desempenho Financeiro
A Intel está atravessando uma fase de crescimento sem precedentes, comparável apenas à época em que se tornou uma das primeiras empresas a abrir capital na Nasdaq, cerca de 55 anos atrás. Em abril de 2025, as ações da fabricante de chips tiveram uma alta impressionante de 114%, marcando o melhor mês em sua história. Nos últimos sete meses, a empresa também vivenciou dois dos seus melhores dias de negociação, incluindo um aumento de 24% em 24 de abril, após um relatório de lucros excepcional. Nesse dia, o valor das ações atingiu um recorde, algo que não acontecia desde o ano 2000, e continuou a subir.
A Intel está passando por uma reestruturação significativa, após anos de atrasos nos lançamentos e resultados abaixo do esperado, que a fizeram perder terreno para a líder em fabricação Taiwan Semiconductor e para a Nvidia, particularmente na corrida para impulsionar a inteligência artificial.
A confiança de Wall Street na recuperação da empresa é evidente, especialmente com os novos chips 18A prometendo resultados positivos enquanto são produzidos na nova fábrica da Intel, situada no Arizona. Ao mesmo tempo, a demanda por inteligência artificial está gerando um aumento significativo na busca por seu principal produto: a unidade central de processamento (CPU). O Bank of America prevê que o mercado de CPUs poderá mais do que dobrar até 2030, com a Nvidia afirmando em março que as CPUs estão se tornando um gargalo para a inteligência artificial.
Reconhecimento do CEO
Lip-Bu Tan, o novo CEO da Intel, nomeado em março de 2025, comentou durante a chamada de lucros da empresa que a demanda por suas CPUs para data centers já ultrapassa a capacidade de produção. A nomeação de Tan ocorreu três meses após a saída de Pat Gelsinger, que enfrentou um mandato tumultuado em que as ações da Intel despencaram 60% em 2024, o pior ano da história da companhia. Desde então, o valor das ações quase quintuplicou, fazendo com que a capitalização de mercado da Intel superasse os $470 bilhões.
Demanda de Clientes
Embora os números financeiros da Intel indiquem sinais de recuperação, investidores demonstram estar bastante otimistas, superando as realidades fundamentais da empresa. A receita no último trimestre cresceu mais de 7%, após quedas em cinco dos seis trimestres anteriores. Essa demanda crescente é impulsionada pela urgência por computação de grandes clientes da Intel, incluindo Google, Microsoft e Amazon, além de fabricantes de equipamentos como Dell, HP e Lenovo.
Patrick Moorhead, CEO da Moor Insights, destacou em uma entrevista que "as CPUs voltaram a ser atraentes e a Intel não consegue atender à demanda." Segundo ele, a empresa está com o estoque esgotado e foi capaz de aumentar os preços.
Os novos processadores da Intel para computadores, da Série Core Ultra 3, começaram a ser vendidos em janeiro, e as CPUs Xeon 6+ para data centers foram lançadas em março. O rali das ações teve início meses antes, quando o governo dos Estados Unidos ajudou a empresa com um investimento de 10%, tornando-se o maior acionista da Intel. Esse investimento de $8,9 bilhões se originou principalmente de subsídios prometidos pela Lei CHIPS, assinada pelo Presidente Joe Biden em 2022.
Investimentos e Proteções
O governo agora possui uma participação na Intel avaliada em mais de $40 bilhões. A Intel é a única fabricante de chips baseada nos Estados Unidos capaz de produzir os microchips mais avançados necessários para impulsionar a inteligência artificial, ao lado de grandes players como TSMC e Samsung. Atualmente, 92% dos chips mais avançados são fabricados em Taiwan, um fator que levantou preocupações e levou os governos de Biden e Trump a promoverem a revalorização da indústria crítica.
Moorhead informou que, embora TSMC e Samsung tenham fábricas nos EUA, essas empresas mantêm tecnologia e propriedade intelectual em outros locais, o que representa um "risco estrutural". A aquisição de 10% das ações da Intel pelo governo é uma tentativa de mitigar esse risco.
Retorno da Fabricação na Intel
A virada real da Intel começou anos atrás, quando Gelsinger decidiu dar um foco renovado à fabricação, conhecida como foundry. Ao contrário de outros fabricantes de chips, como a Advanced Micro Devices e Nvidia, que terceirizam a fabricação de seus componentes, a Intel projeta e fabrica seus próprios chips, com a intenção de eventualmente fabricar para outros.
Por enquanto, a Intel continua sendo o único cliente significativo de sua unidade de foundry, uma vez que seus antigos clientes, que também são clientes da TSMC, estão hesitantes em realizar a mudança. Moorhead estima que "75% de sua valorização reside na foundry e na promessa de foundry, que ainda não foi cumprida".
Reestruturação e Investimentos
Tan tem procurado desfazer algumas das iniciativas agressivas implantadas por Gelsinger. Em julho, a empresa cortou 15% de sua força de trabalho e cancelou projetos de fábricas de chips na Alemanha e Polônia. Em Ohio, a nova e gigante fábrica de chips da Intel sofreu um atraso e só deve iniciar a produção em 2030, ao invés da previsão inicial para este ano. Tan também comentou em um memorando sobre os cortes que "nos últimos anos, a companhia investiu demais, e muito cedo – sem demanda adequada".
Em janeiro, Tan mudou seu discurso, afirmando que a Intel está "indo com tudo" em sua próxima geração de tecnologia, o 14A. Durante a chamada de lucros da semana passada, Tan afirmou que "múltiplos clientes" estão "avaliando ativamente a tecnologia", observando que seu desenvolvimento ocorre em um ritmo mais rápido do que o 18A.
A única grande parceria externa da Intel na sua foundry até o momento foi com Elon Musk. A empresa anunciou recentemente que se unirá ao complexo de chips Terafab, em Austin, Texas, para "projetar, fabricar e empacotar chips de ultra-alto desempenho em larga escala" para a SpaceX, xAI e Tesla. Durante a chamada de lucros do primeiro trimestre da Tesla, Musk expressou planos de usar o próximo processo 14A da Intel para produzir chips na nova instalação, voltados para uso em veículos e robôs da Tesla, além de datacenters orbitais a serem construídos para a SpaceX.
Avanços em Embalagens Avançadas
Outro foco principal da Intel é em embalagens avançadas, um estágio menos conhecido do processo de fabricação de chips, que envolve a conexão de chips individuais a sistemas maiores através de métodos cada vez mais complexos. A tecnologia de embalagem EMIB da Intel se destaca e rivaliza com a tecnologia de embalagem CoWoS da TSMC.
A Nvidia reservou a maior parte da capacidade de CoWoS na TSMC, o que torna a embalagem avançada um potencial gargalo na fabricação de chips para IA. Como uma das poucas empresas habilitadas a realizar esse tipo de embalagem avançada, a Intel está bem posicionada para capitalizar sobre a oferta limitada.
Após a divulgação de resultados do primeiro trimestre, o papel da embalagem avançada se mostrou crucial na valorização das ações. O CFO da Intel, David Zinsner, afirmou que essa área deverá gerar bilhões de dólares anualmente, superando estimativas anteriores que previam receitas na casa das centenas de milhões. Os clientes de embalagem avançada da Intel incluem Amazon e Cisco, além do novo compromisso com SpaceX e Tesla.
O Google também confirmou em abril que continuará utilizando chips da Intel em seus data centers de IA e, rumores sugerem que a próxima geração de chips da gigante da internet, os processadores de tensor (TPUs) de oitava geração, pode ser embalada usando a tecnologia EMIB da Intel. Moorhead acredita que "dentro de 18 meses" o Google deverá utilizar a embalagem da Intel.
A Intel não comentou sobre o assunto. Moorhead também mencionou a possibilidade de que a Nvidia se torne um cliente de embalagens no futuro, embora indique que a TSMC fará o que puder para barrar essa evolução.
Fonte: www.cnbc.com