Retorno das Ações Internacionais
Após passar a maior parte da última década sendo superadas pelo mercado acionário dos EUA, as ações internacionais estão retornando, e especialistas em investimentos afirmam que a oportunidade deve se sustentar por um período prolongado.
Desempenho Fraco e Nova Tendência
Um longo período de baixo desempenho, que durou uma década, chegou ao fim no final de 2024 e manteve seu impulso no início de 2026. Anteriormente, as alocações globais permaneceram baixas para a maioria dos investidores baseados nos EUA devido ao fraco retorno das ações internacionais. Contudo, os ganhos recentes, em meio a condições macroeconômicas em mudança e crescentes preocupações sobre a concentração do mercado nos Estados Unidos, estão levando os investidores a reavaliar a falta de exposição internacional em seus portfólios.
Segundo Tim Seymour, diretor de investimentos da Seymour Asset Management, essa movimentação não se trata apenas de seguir o desempenho recente. Ele afirmou, durante a edição desta semana do programa “ETF Edge” da CNBC, que “isso não é uma indicação de que seja o momento de negociar mercados globais”.
Desempenho em Relação ao Mercado dos EUA
Nos últimos dez anos, as ações globais fora dos Estados Unidos apresentaram um desempenho consideravelmente inferior ao dos mercados domésticos. Seymour destaca que um ETF de benchmark mundial, o iShares MSCI ACWI ETF (ACWI), apresentou um desempenho aproximadamente 60% inferior. Essa discrepância moldou o comportamento dos investidores, resultando em um fluxo significativo de capital para ações dos EUA, especialmente para ações de tecnologia de grande capitalização. Ele descreveu essa situação como uma dinâmica geracional entre os investidores, na qual o crescimento da capitalização de mercado nos EUA “impediu bastante o investimento internacional.”
Oportunidades no Mercado Global
Seymour comenta que, no atual contexto, o subinvestimento estrutural que muitos investidores dos EUA têm em relação aos mercados globais representa um impulso favorável. Embora as ações internacionais representem aproximadamente 30-40% da capitalização de mercado global, ele estima que, no extremo superior dessa faixa, a exposição dos investidores dos EUA a mercados externos é de apenas 12-15%, enquanto, em muitos casos, esse valor é consideravelmente inferior.
As ações internacionais começaram a superar as dos EUA em novembro de 2024 e, desde então, têm superado as ações americanas em cerca de 15%. Mesmo que isso não apague a década de retornos abaixo do esperado, representa um ponto de inflexão significativo. “Em um período de 14 meses, você viu as ações internacionais superarem as dos EUA”, afirmou Seymour. Embora o gráfico de dez anos em relação ao mercado acionário americano ainda seja desfavorável, “isso realmente é uma história de onde o crescimento global começou a se recuperar”, acrescentou.
Tendências de Investimento em ETFs
Uma escolha popular de ETF entre muitos investidores dos EUA para obter exposição internacional é o iShares MSCI Emerging Markets ETF (EEM), que possui ativos de 26,55 bilhões de dólares e retornou 42% no último ano. O iShares MSCI ACWI ETF subiu 20% no mesmo período, superando o retorno do S&P 500 em cerca de 5%. Seymour observa que, enquanto os retornos potenciais dos mercados emergentes são mais elevados, os investidores que buscam diversificar no exterior devem inclinar-se mais para alocações em mercados desenvolvidos, citando uma divisão de 70%-30% como um exemplo razoável.
Impacto das Moedas e Commodities
Parte do renovado interesse pelos mercados internacionais está ligada às questões cambiais. A desvalorização do dólar americano melhorou os retornos para investidores baseados em dólares que detêm ativos estrangeiros. Ao mesmo tempo, os metais preciosos experimentaram uma alta significativa à medida que os investidores buscam formas de armazenar valor, uma tendência que Seymour descreve como uma troca global, não restrita aos EUA.
“Esses fatores estão proporcionando condições favoráveis, e a fraqueza do dólar, claro, está levando os investidores a diversificar seus portfólios, que anteriormente eram centrados nos EUA”, disse Jon Maier, estrategista principal de ETFs da J.P Morgan Asset Management, durante o programa “ETF Edge”.
Aprimoramento dos Fundamentos Internacionais
Seymour enfatiza que o ponto mais importante para os investidores que consideram adicionar ações internacionais a um portfólio é que os fundamentos estão melhorando. O crescimento dos lucros está surgindo em lugares onde a estagnação antes definia as perspectivas. Ele cita o Japão como um exemplo fundamental, destacando que anos de reforma na governança corporativa e de foco no acionista estão começando a impulsionar os retornos.
A Europa também se beneficia da redução das taxas de juros, dos gastos fiscais e das mudanças regulatórias. Seymour argumenta que a desregulamentação na Europa pode ser um catalisador mais poderoso do que esforços semelhantes nos EUA, pois representa uma mudança mais significativa em relação ao passado. Setores como os de bancos, serviços públicos e indústrias estão experimentando um novo impulso. Ele acrescenta que, além de uma década de baixo desempenho tornando essas ações econômicas em termos relativos, muitos estoques bancários europeus se beneficiarão tanto da política do banco central quanto os bancos dos EUA, apresentando melhores dividendos, como Barclays, Santander e SocGen.
Interesse Renovado nas Ações Internacionais
Maier ecoou essa visão ao afirmar que “os mercados internacionais desenvolvidos são, certamente, áreas de interesse para nossos clientes”.
Os mercados internacionais também oferecem exposição a negociações recentes que se destacaram, incluindo metais preciosos. A América Latina tem sido uma das regiões com melhor desempenho neste ano, impulsionada pelo ouro e pelo cobre. Segundo Seymour, Chile e Peru são exemplos de mercados internacionais que estão se beneficiando da crescente demanda por commodities. O Brasil, por sua vez, tem se destacado tanto pela força das commodities quanto pelas expectativas políticas em mudança.
Destaques do Mercado Brasileiro
“O Brasil é a maior economia da América Latina”, disse Seymour. “Alguns fatores estão relacionados às dinâmicas das commodities, mas outros dizem respeito às dinâmicas geopolíticas.” O iShares MSCI Brazil ETF (EWZ), que tem ativos de 8,91 bilhões de dólares, subiu quase 49% no último ano, enquanto o iShares MSCI Peru and Global Exposure ETF (EPU) subiu quase 118% no mesmo período.
Pressões e Expectativas no Mercado
As transações envolvendo o dólar e metais enfrentaram pressões na sexta-feira após o presidente Trump anunciar Kevin Warsh como seu indicado para suceder Jerome Powell na presidência do Fed. Acredita-se que Warsh será uma figura que manterá a independência do Fed, em vez de forçar uma redução das taxas a pedido do presidente. O ouro, a prata e o platina todos sofreram quedas. No entanto, esses metais tiveram retornos enormes no último ano, com o ouro subindo mais de 90%, a prata subindo cerca de 200% e o platina subindo 120%.
Estratégias de mercado apontam que as políticas globais da administração Trump continuarão a servir como ventos favoráveis de longo prazo para negociações temáticas internacionais. “Seja o acordo comercial entre a Índia e a UE ou o Canadá fechando acordos de petróleo com a China, o resto do mundo está se reposicionando”, disse Seymour.
Liderança Tecnológica e Reavaliação de Investimentos
A liderança em tecnologia é outra área onde os investidores estão reavaliando o equilíbrio entre os ativos dos EUA e os do exterior. Seymour destaca a Coreia do Sul como exemplo, observando que o mercado desse país é fortemente concentrado em líderes de chips de memória como Samsung e SK Hynix, que representam cerca de 46% do benchmark do mercado de ações sul-coreano, conforme medido pelo iShares MSCI South Korea ETF (EWY), que subiu 125% no último ano. “As ações de memória estão em franca ascensão”, disse ele, o que torna os ETFs de nível de país uma forma prática de obter exposição. A Apple mencionou em sua chamada de resultados na quinta-feira que não consegue garantir chips suficientes para atender à demanda do iPhone, outro sinal que reforça a força do setor de memória.
Seymour destacou outras empresas que estão entre os maiores players de chips do mundo, como ASML e Taiwan Semi, que também estão localizadas fora dos EUA, e há muitas oportunidades em data centers no exterior também.
O renovado interesse nas ações internacionais reflete uma reavaliação mais ampla após anos de negligência. Os investidores estão respondendo às lacunas de valorização, ao crescimento dos lucros e a um mundo onde o capital e o comércio estão se tornando cada vez mais multidirecionais. “Essas são negociações globais, e não apenas negociações dos EUA”, concluiu Seymour.
Fonte: www.cnbc.com