Maior intervenção cambial desde 2004 não deve conter a alta do dólar em relação ao iene, afirma ING.

Injeção de Recursos no Mercado de Câmbio

Entre os meses de abril e maio, o Japão injetou 11,7 trilhões de ienes, equivalentes a aproximadamente US$ 73,5 bilhões, no mercado de câmbio para apoiar a moeda local. Essa informação foi confirmada pelo Ministério de Finanças do país, corroborando as especulações sobre uma intervenção que já circulava entre os operadores de mercado.

Essa intervenção representa a maior movimentação cambial no trimestre desde 2004 e teve início no dia 30 de abril, levando a cotação do USD/JPY de um patamar superior a 160 para níveis abaixo de 156.

Nesta segunda-feira, dia 1º, por volta de 11h50 (horário de Brasília), a cotação do iene se encontrava em 159,71 ienes por dólar.

O ING, banco pesquisador, classificou o valor da intervenção como “elevado” e “impressionante”, mas também apontou que é difícil argumentar a favor da eficácia da intervenção cambial japonesa feita neste ano em comparação com a realizada em 2024.

De acordo com a análise do ING, há especulações de que as autoridades japonesas se sintam limitadas pelas diretrizes de classificação cambial estabelecidas pelo Fundo Monetário Internacional (FMI).

Pressão sobre o Iene

O iene enfrenta pressão devido ao aumento dos preços do petróleo, uma vez que o Japão depende fortemente das importações de energia. Essa pressão nos preços de energia acentuou uma tendência de desvalorização a longo prazo, que se agrava em função da postura cautelosa do Banco do Japão (BoJ, sigla em inglês) em relação à normalização da política monetária, após um período de uma década de forte estímulo econômico.

Chris Turner, diretor global de Mercados e de Pesquisa para o Reino Unido e Europa, destacou que intervenções mais frequentes — mais de três eventos em um intervalo de seis meses — poderiam levar à reclassificação do regime cambial japonês de “livre flutuação” para um tipo somente “flutuante”, alinhando-se mais aos regimes de países como Brasil e Chile, em vez de seus pares do G7.

Tendência no Curto Prazo

O relatório do ING enfatiza que, a menos que o Banco do Japão consiga, de maneira eficaz, “se antecipar à curva” e elevar os juros reais, é complicado esperar uma mudança significativa na dinâmica da taxa de câmbio USD/JPY nos próximos meses.

O banco prevê uma elevação nas taxas de juros pela BoJ na próxima decisão sobre política monetária, marcada para o dia 16 de junho, corroborando com as expectativas de mercado — que indicam 78% de probabilidade de uma alta nas taxas. Atualmente, as taxas de juros no Japão estão em 0,75% ao ano.

Para o ING, o BoJ precisará realizar um aumento de cunho bastante hawkish para reverter a recente deterioração dos diferenciais de juros reais face ao iene.

Isso exigiria que o banco central japonês fizesse o mercado esperar uma taxa de juros acima de 1,50% para o próximo ano, o que pode ser difícil considerando o atual ambiente político, segundo a avaliação do diretor global, Chris Turner.

Além disso, o relatório assinala que “o mercado especulativo está muito menos vendido em iene”. Um dos fatores que influenciam essa situação é a mudança de perspectiva do mercado, que passou a considerar que o próximo movimento do Federal Reserve (Fed) pode ser um aumento nas taxas de juros, em vez de um corte.

“Em 2024, a intervenção foi bem-sucedida porque o mercado especulativo estava fortemente posicionado contra o iene e as taxas de juros dos Estados Unidos estavam em queda antes de iniciarmos o ciclo de corte pelo Federal Reserve, que começou naquele setembro”, recorda o diretor do ING.

Cabe também mencionar a relação entre as intervenções e o mercado de títulos do Tesouro norte-americano, conhecidos como Treasuries. De acordo com Turner, as autoridades do Japão aparentemente recorrem à venda de Treasuries para financiar suas operações de suporte ao iene.

“As posições do Japão em Treasuries diminuíram em cerca de US$ 100 bilhões em 2024, o que está aproximadamente alinhado com os valores das intervenções daquele ano”, destaca Turner.

É importante observar que as operações de venda de reservas cambiais são limitadas e finitas, dependendo do tamanho das reservas internacionais disponíveis. O Japão mantém reservas internas elevadas, que superam US$ 1 trilhão, mas não estaria disposto a perder entre 20% e 30% desse montante, como ressalta o diretor.

Possibilidade de Novas Intervenções

Considerando o cenário atual, o ING acredita que o Banco Central japonês provavelmente será chamado a agir novamente no mercado cambial nos próximos meses, à medida que o USD/JPY retorne a níveis superiores a 160. Segundo as análises do banco, a taxa de câmbio pode progredir para a faixa de 162 a 163 ienes por dólar nos curto prazo.

“A menos que haja uma queda significativa nos preços do petróleo ou nas taxas de juros dos Estados Unidos, o USD/JPY continuará sob pressão ascendente”, declarou Turner.

A previsão do banco aponta para uma cotação de 155 ienes por dólar até o fim deste ano, condicionada a uma forte desaceleração no consumo nos EUA e à possibilidade de que o Fed volte a considerar cortes de juros.

“Isso parece cada vez mais uma narrativa para ser discutida mais adiante neste ano, enquanto o foco de curto prazo será a intensificação da postura hawkish do Fed”, acrescenta o relatório dirigido aos clientes.

Fonte: www.moneytimes.com.br

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