Decisão do STF e Revelações sobre o Caso
A decisão do ministro do Supremo Tribunal Federal, André Mendonça, que resultou na prisão preventiva do ex-presidente do BRB, Paulo Henrique Costa, traz consigo um conjunto de mensagens de WhatsApp que revela, de maneira bastante clara, o funcionamento do esquema que está sendo investigado pela Polícia Federal. Nesses diálogos, negócios do banco público e o pagamento de propina em imóveis estão entrelaçados, como se fizessem parte de um único acordo.
As mensagens foram obtidas dos celulares dos investigados durante as fases anteriores da Operação Compliance Zero e foram utilizadas pelo ministro André Mendonça como base para as prisões que foram anunciadas na quinta-feira, dia 16.
Negócios do Banco e Apartamento para a Esposa
Em uma das conversas mais esclarecedoras, Paulo Henrique Costa informa a Daniel Vorcaro sobre o lançamento de uma operação no BRB. No mesmo texto, ele solicita que um apartamento de luxo, que seria parte do pagamento da propina, seja mostrado à sua esposa.
“Estou trabalhando para lançar a operação amanhã ou, no mais tardar, na segunda-feira”, escreve Costa a Vorcaro. Em seguida, ele pede: “Conversei com a minha esposa e estaremos em São Paulo na próxima semana. Seria interessante mostrar o apartamento para ela. Assim, ela também vai se ambientando. O dia 01/03 está logo aí.”
Vorcaro responde: “Fala, amigo, ótimo, também estou empolgado. Vou alinhar tudo com Daniel. Vou te passar uma pessoa que te mostrará o apartamento.” Costa, então, confirma: “Fechado! Obrigado.”
A Visitação dos Apartamentos pela Esposa
As mensagens também indicam que a esposa de Costa foi levada para visitar os imóveis que seriam transferidos para o casal. Em uma conversa posterior, Costa relata a Vorcaro o resultado da visita com um tom de negociação:
“Estive no outro hoje de manhã. A esposa ainda está um pouco cismada. Seria ótimo olhar outro para construir uma referência.”
Vorcaro pergunta o que está acontecendo. Costa explica que o imóvel estava com a região fechada e que seria bom ter algo para comparar. Vorcaro, então, sugere outra opção: “Esse outro é uma cobertura. Já pensando em trazer a família.”
Costa responde: “Eu vou primeiro e elas vêm depois. Boa.”
Após não conseguir visitar um dos apartamentos com a corretora indicada por Vorcaro, o banqueiro contatou diretamente a corretora. De acordo com a decisão do STF, Vorcaro disse à corretora, referindo-se a Costa: “Preciso dele feliz. Reverte isso aí.”
Cálculos Relacionados à Propina
Em um outro momento, Costa deixa claro que fez cálculos para determinar o valor acordado com Vorcaro. A mensagem é direta: “Fiz as contas para chegar no valor que combinamos. Dependendo dos valores finais, sairia o Casa Lafer, que está no contrapiso. Apagando algumas mensagens.”
A orientação para apagar mensagens, que está registrada na conversa, é considerada pela Polícia Federal como um indício de que Costa tinha plena consciência do caráter ilícito do arranjo.
Vorcaro, em resposta, questiona sobre um imóvel específico e os dois discutem qual apartamento seria o mais conveniente, como se estivessem simplesmente negociando uma compra comum.
Cobrando o Andamento das Negociações
As mensagens também documentam Costa cobrando sobre o andamento das transferências de imóveis, que são tratadas como pendências a serem resolvidas em um acordo.
“Amigo, pessoal esperando seu de acordo sobre os imóveis de São Paulo. Pode ajudar?”, escreveu Costa. Vorcaro respondeu que havia dado carta branca e perguntou onde estava o impasse. Costa identificou que o problema estava na equipe de Daniel Monteiro, mas garantiu que seria fácil de resolver.
Em seguida, Costa reafirma que estava cumprindo sua parte: “Desculpe dar trabalho. É que estou focado na agenda que combinamos e fico em cima de todos os assuntos até resolver.” Vorcaro reitera: “Nada. Isso não é trabalho. Eu sou solucionador de problemas.”
Costa complementa: “Estou tratando da carteira de outro lado.” A referência às carteiras de crédito do BRB, colocada logo após a cobrança pelos imóveis, é interpretada pela Polícia Federal como uma confirmação da troca entre as duas partes do esquema.
Interesse em Continuar os Negócios
Em um determinado momento, Vorcaro pergunta a Costa se ele ainda estava interessado no negócio e menciona a longa parceria entre ambos, identificando “um negócio de continuidade” e “centenas de ajustes ao longo da trajetória.”
Costa responde sem hesitar: “Estou com você. Continuo no modo de fechamento de negócios. Estou virando a noite e tentando resolver.”
Pausa nos Pagamentos
O fluxo de pagamentos foi abruptamente interrompido em maio de 2025. A Polícia Federal identificou que, em 30 de abril de 2025, o Ministério Público Federal instaurou um procedimento sigiloso com a intenção de investigar o pagamento de propina a Paulo Henrique Costa por meio de imóveis.
Dez dias depois, em 10 de maio de 2025, Vorcaro ordenou ao advogado Daniel Monteiro que “travasse tudo” e que não fizesse mais pagamentos nem prosseguisse com o registro formal das transações.
A hipótese em investigação é que Vorcaro teve acesso prévio ao procedimento sigiloso através de Felipe Mourão, que enviou cópias dos documentos por WhatsApp em 24 de junho de 2025. A Polícia Federal sustenta que Vorcaro provavelmente soube da investigação antes mesmo de receber as cópias formais, o que poderia explicar a mudança abrupta de comportamento em maio.
Próximos Passos
Paulo Henrique Costa e o advogado Daniel Lopes Monteiro irão passar por audiências de custódia em até 24 horas. O juiz responsável irá verificar somente os aspectos formais das prisões, sem a possibilidade de rever os fundamentos ou determinar a soltura. Qualquer liberação depende de decisão do relator André Mendonça. As prisões preventivas ainda serão submetidas à análise da Segunda Turma do STF em uma sessão virtual.
Até o momento da publicação desta reportagem, as defesas de Costa e de Monteiro não se manifestaram sobre o mérito das acusações.
Fonte: timesbrasil.com.br