Situação do Mercado Automotivo na China
Queda Nas Vendas de Veículos
O mercado automobilístico da China parece estar caminhando para seu pior ano desde 2021, com uma queda acentuada na demanda dos consumidores por veículos de passageiros. Esta situação ocorre após um ano recorde em 2025, onde as vendas alcançaram níveis históricos.
Os dados revelam que as vendas de veículos de passageiros caíram 20,2% no primeiro semestre de 2026. Em resposta a esse declínio, a Associação de Automóveis de Passageiros da China (CPCA) revisou sua projeção de vendas de varejo para o ano de 2026, prevendo uma queda anual de 14%, em vez de uma estabilidade nas vendas.
A previsão atual é de um volume total de entregas de 20,4 milhões de unidades ao final de 2026, uma diminuição em comparação com as 23,7 milhões de unidades vendidas no ano anterior. As vendas cumulativas para o primeiro semestre de 2026 somam 8,7 milhões de unidades.
Expectativas de Vendas
Xiao Feng, responsável pela pesquisa de indústrias na Citic CLSA, apresenta uma perspectiva ainda mais sombria do que a CPCA, prevendo uma queda nas vendas automobilísticas cumulativas de 20% em relação ao ano anterior, em contraste com a previsão de redução de 14% da CPCA. No entanto, Feng mantém uma expectativa ligeiramente otimista em relação aos veículos de nova energia (NEVs), como carros e vans elétricas e híbridas, prevendo uma diminuição nas vendas de 5% a 6% em base anual.
Desafios do Setor Automotivo
O ano de 2026 continua sendo extremamente desafiador, conforme destacado por Tu Le, fundador da Sino Auto Insights, em entrevista à CNBC. Ele atribui a dificuldades dos fabricantes de automóveis em parte ao aumento da concorrência, em meio a uma demanda em declínio.
Custos crescentes de combustíveis e a redução de subsídios para veículos elétricos estão dificultando ainda mais a situação dos fabricantes chineses. De acordo com dados do Escritório Nacional de Estatísticas da China, os custos de energia para transportes aumentaram 15,3% em comparação ao ano anterior em junho. Isso resultou em uma queda de 39% nas vendas de veículos com motores de combustão interna (ICE) no mesmo mês, com os modelos de gasolina pura apresentando uma redução de 42%. Esses veículos representaram 78% da queda total nas vendas de veículos de passageiros naquele mês.
A redução de subsídios para NEVs, que anteriormente estimulavam o apetite do consumidor, também impactou negativamente a demanda por automóveis em 2026. Feng ressalta que “a política apenas muda a demanda” e sugere que as vendas decepcionantes até o momento poderiam ser uma compensação pela demanda aquecida do ano anterior.
Custos de Materiais e Margens de Lucro
Os fabricantes chineses estão sendo pressionados por aumentos nos custos de materiais e componentes. Custos relacionados a baterias, incluindo aqueles de lítio e chips de memória, estão crescendo de forma acentuada. Isso resultou em uma queda nas margens de lucro das vendas, que atingiram 3,4% entre janeiro e maio de 2026, enquanto os lucros da indústria caíram 20% em comparação ao ano anterior, segundo o Secretário-Geral da CPCA, Cui Dongshu. No mesmo período, os preços dos veículos de passageiros diminuíram em mais de 1% em relação ao ano anterior, o que estreitou ainda mais as margens de lucro que já eram bem reduzidas.
Feng prevê que essas margens extremamente reduzidas podem levar a uma reestruturação no mercado, resultando na consolidação do mercado de veículos elétricos na China em sete ou oito fabricantes principais até 2030. Ele acredita que os fabricantes de automóveis americanos não conseguirão sobreviver ao feroz mercado automobilístico chinês, deixando à frente fabricantes locais como BYD, Geely e Leapmotor, além de empresas estrangeiras como a Volkswagen, da Alemanha, e a Toyota, do Japão.
Desempenho das Montadoras
Embora a Volkswagen esteja se adaptando para produzir carros elétricos na China, os números de entregas reportados pela montadora indicam uma queda de 25,9% em relação ao ano anterior para o primeiro semestre de 2026. A manutenção das vendas em grande escala é considerada crucial para a sobrevivência neste momento da corrida por veículos elétricos, segundo análise de especialistas.
Feng estima que, para um fabricante de automóveis na China alcançar o ponto de equilíbrio, é necessário vender anualmente 500.000 unidades; para obter lucros sustentáveis, é necessário atingir 1 milhão de unidades, e para alcançar total economia de escala, 2 milhões de unidades. Fabricantes menores que não alcançarem esses números devem ser “largamente excluídos do mercado”.
Vendas das Montadoras Domésticas e Estrangeiras
Dentre os principais fabricantes nacionais, a BYD reportou 1,8 milhão de vendas no primeiro semestre de 2026, enquanto a Geely e a Leapmotor ficaram para trás, contabilizando 1,4 milhão e 356.000 entregas, respectivamente. No lado das montadoras estrangeiras, o Grupo Volkswagen reportou 973.000 entregas durante o mesmo período, enquanto a Toyota contabilizou 579.000 entregas entre janeiro e maio.
Expectativas para 2027
Possível Recuperação em 2027
Embora especialistas permaneçam céticos quanto às perspectivas da indústria no segundo semestre de 2026, Feng acredita que o declínio dará lugar a uma recuperação em 2027. Ele afirma que espera uma demanda muito melhor no próximo ano, descrevendo o mercado automotivo da China como inerentemente cíclico; conforme as frotas de veículos envelhecem e os proprietários procuram substituições, as vendas devem se recuperar.
Feng também comenta que uma perspectiva econômica aprimorada pode fomentar um crescimento ainda melhor no mercado de veículos elétricos, reforçando sua confiança em um retorno do mercado no próximo ano.
Incremento Através das Exportações
Essa recuperação pode ser impulsionada por um aumento das exportações, já que os fabricantes de automóveis chineses aproveitam o aumento dos custos de combustíveis nos mercados internacionais.
No mês de junho, as exportações de veículos de passageiros cresceram 11,5% em relação ao mês anterior e dispararam 82,3% em relação ao ano anterior, alcançando um total de 877.000 unidades, conforme reportado pela CPCA.
Os consumidores no exterior estão mudando sua atenção para os veículos elétricos fabricados na China devido aos custos operacionais. Lu Fengming, professor assistente no Departamento de Mudança Política e Social da Universidade Nacional da Austrália, acrescenta que a guerra no Oriente Médio, que resultou em interrupções no transporte e no aumento dos preços dos combustíveis em todo o mundo, é uma das principais motivações para a migração dos compradores em direção aos veículos elétricos.
Fonte: www.cnbc.com