A trajetória da inflação nos Estados Unidos
A trajetória da inflação nos Estados Unidos tem impactado diretamente a forma como Kevin Warsh, novo presidente do Federal Reserve, conduz sua gestão. O cenário, no qual a inflação se desvia da meta estipulada de 2%, levanta questionamentos sobre a maior economia do mundo e coloca em evidência a credibilidade da instituição.
Benjamin Mandel, chefe de pesquisa da Jubarte Capital, avaliou o perfil e as intenções de Warsh à frente do Fed. De acordo com Mandel, a interpretação é de que o novo presidente pretende aumentar as taxas de juros no curto prazo.
“Minha leitura sobre Kevin Warsh é de que ele quer aumentar os juros no curto prazo. Esse é um risco relevante para a taxa de juros e, por conseguinte, para as condições monetárias globais”, comentou Mandel.
Legado e reformas institucionais
Mandel destacou que Warsh busca deixar sua marca na instituição logo no início de sua gestão, com o objetivo de se diferenciar de seus antecessores, como Bernanke, Yellen e Powell.
“Ele está refletindo sobre seu legado, da mesma forma que discute sobre suas referências, Paul Volcker e Alan Greenspan”, afirmou o economista.
Para isso, Warsh teria duas direções principais: a primeira, reformas institucionais, realizadas através de grupos de trabalho dedicados ao estudo de instrumentos e metas de política monetária; a segunda, mudanças diretas na política monetária.
Conforme Mandel, as reformas institucionais tendem a apresentar um processo de implementação mais lento, o que torna a política monetária um veículo mais imediato para impactar a economia.
Credibilidade em foco
A questão da credibilidade do Federal Reserve foi central na análise de Mandel. O economista enfatizou que a inflação americana acumula cinco anos consecutivos acima da meta de 2%, com a expectativa de que esse cenário se repita para um sexto e, possivelmente, um sétimo ano.
“Essa questão da credibilidade está atualmente em destaque nas discussões dentro do Fed”, observou. Ao mesmo tempo, Mandel ressaltou que, sob a perspectiva dos fundamentos cíclicos, o nível atual da taxa de juros se mostra adequado, sem urgência para mudanças.
“Analisando os fundamentos de crescimento e inflação, considero que o nível atual da taxa dos Fed Funds é apropriado”, afirmou.
Pressão política e ancoragem das expectativas
Mandel também abordou a pressão que Donald Trump exerceu sobre o Federal Reserve e os reflexos dessa pressão na credibilidade da instituição. Para o economista, do ponto de vista dos mercados financeiros, as expectativas de inflação no médio e longo prazo permanecem bem ancoradas, mesmo diante de choques de oferta, como as tarifas e as variações nos preços do petróleo.
Entretanto, do lado do consumidor, a inflação persistente acima da meta resultou em um desvio de cerca de 10% nos preços em comparação com as tendências anteriores à pandemia, gerando um problema de poder de compra com um componente político significativo.
“A pressão que Trump exerce é uma consequência indireta da pressão política, resultado do fato de que a inflação vem se mantendo acima da meta por vários anos”, analisou Mandel.
Quanto à relação entre Warsh e Trump, o economista previu que, a curto prazo, Trump deve conceder ao novo presidente um período de relativa tranquilidade, permitindo que Warsh estabeleça sua posição dentro do comitê, sem pressão direta da Casa Branca nos próximos meses ou trimestres.
Fonte: www.cnnbrasil.com.br