Diante da frustração com o adiamento do acordo entre o Mercosul e a União Europeia
Diante da frustração com mais um adiamento do acordo entre o Mercosul e a União Europeia (UE), integrantes do governo brasileiro passaram a defender que o bloco concentre esforços para avançar de maneira mais ágil nas demais negociações comerciais. Atualmente, existem pelo menos 11 novos países em conversação com o Mercosul, em distintos estágios, além da revisão de pactos já vigentes.
Adiado mais uma vez
O adiamento da análise no Conselho Europeu, resultante da formação de uma minoria de bloqueio, gerou descontentamento no governo brasileiro. Após quase 25 anos de negociações, a expectativa era que o acordo de livre comércio fosse assinado no último sábado (20). No entanto, essa expectativa foi frustrada após a Itália se aliar à França na exigência de adiamento para janeiro, com o objetivo de buscar maior proteção para os agricultores locais.
Culpas e estratégias
Diplomatas do Itamaraty afirmam que, novamente, o progresso foi postergado por iniciativa europeia e que a responsabilidade política recai sobre os europeus. Em 2019, o argumento utilizado foi a proteção ambiental, e, agora, a exigência de medidas adicionais de proteção ao agronegócio europeu.
Nos bastidores, embaixadores defendiam uma nova estratégia, sugerindo que o Mercosul deve focar em quem realmente está interessado em firmar acordos comerciais, enquanto os europeus deveriam ficar para o fim da fila.
Acordos em andamento
Além do bloqueio da UE, o acordo comercial mais próximo de conclusão é com os Emirados Árabes Unidos, coordenado pelo Paraguai. Na cúpula anterior, em Buenos Aires, os presidentes mencionaram o acordo como “prioritário” para o Mercosul, com o objetivo de concluir as rodadas de negociação até 2025.
A embaixadora Gisela Padovan, secretária de América Latina e Caribe, destacou que o acordo está “muito próximo da conclusão”, embora tenha ressaltado que “o diabo está nos detalhes”. Ela ainda apontou que atualmente não há negociações avançadas devido à falta de equipe para atender à demanda de trabalho.
Apesar da múltipla quantidade de frentes negociadoras, não existe outro acordo com a mesma magnitude do negociado com a UE, que abrange 720 milhões de pessoas e um PIB de US$ 22 trilhões.
Prazos e afirmações
Nesta sexta-feira (19), a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, afirmou que o acordo será analisado pelos 27 países do bloco em janeiro, conforme veiculado pelas agências Reuters e AFP. Ela destacou a importância econômica, diplomática e geopolítica do acordo para a Europa, apontando que todas as proteções necessárias para agricultores e consumidores europeus foram implementadas.
Os europeus consideram “tolerável” o adiamento de um tratado que está em negociação há 26 anos por um período de três semanas. No entanto, o Itamaraty informou que já negociou “tudo que era possível” e que a continuidade do processo depende exclusivamente dos europeus. O novo revés foi provocado pela adesão da Itália à objeção já apresentada por França, Polônia e outros países menores, como Áustria, Irlanda e Hungria.
Consequências políticas
A nova delonga ofuscou a Cúpula de Líderes do Mercosul e frustrou os planos do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. O governo brasileiro liderou as negociações em nome do Mercosul e o presidente tinha a intenção de celebrar uma vitória e registrar a assinatura do acordo em Foz do Iguaçu (PR), neste último sábado.
“Há uma lista considerável de outros países, muitos deles grandes economias, incluindo três membros do G-20. Precisamos iniciar conversas com eles. Nossa equipe negociadora se concentrará em outras áreas”, declarou o ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, durante o programa “Bom dia, ministro”, da EBC.
Relatos nas cúpulas
O chanceler também informou que a Cúpula de Líderes do Mercosul incluirá um relato aos demais países sobre o estado atual de todas as iniciativas de acordos comerciais em desenvolvimento. O relatório do governo brasileiro abrange negociações regionais e extrarregionais que devem ser priorizadas a partir de agora.
Acordos recentes e futuros
Neste ano, o Mercosul assinou um acordo com a Associação Europeia de Livre Comércio, o EFTA, composta por Suíça, Noruega, Islândia e Liechtenstein. Em 2024, está prevista a assinatura de um acordo com o Panamá e, em 2023, com Singapura.
Ainda há possibilidades de atualização e ampliação de outros acordos antigos, com alterações nas regras de origem, nomenclaturas e até inclusão de novos produtos, como já ocorre com acordos existentes com a Índia, Egito, Equador e Colômbia.
Além disso, novas negociações estão programadas para o Reino Unido e Malásia, enquanto no continente americano e caribenho, há discussões já em andamento com El Salvador, sob a coordenação do governo de Javier Milei, e um diálogo exploratório liderado pelo governo Lula com a República Dominicana.
Após o “tarifaço” de Donald Trump, o Brasil retomou, em outubro, como coordenador do Mercosul, as rodadas de negociação com o Canadá.
O governo brasileiro também defende estabelecer uma parceria com o Japão e iniciar formalmente as negociações de um acordo de livre comércio que já estão sendo discutidas há alguns anos. Os governos negociam uma declaração conjunta que servirá como base entre o Mercosul e Tóquio.
Interesse de novos parceiros
Na Ásia, novos membros da ASEAN, como Vietnã e Indonésia, demonstraram interesse em estabelecer parcerias. O Uruguai, representando o bloco, está buscando organizar uma nova videoconferência para atualizar as negociações com a Coreia do Sul, prevista para o início de 2026.
Além disso, o país tem pressionado por avanços no “Mecanismo de Diálogo” com a China. O governo de Yamandú Orsi apresentou uma proposta que contêm a ideia de realizar negociações externas em “distintas velocidades”.
O governo uruguaio está em busca de um acordo que avance em fases diversas entre os países membros do Mercosul, com o apoio da Argentina, para obter maior liberdade nas negociações bilaterais.
Entretanto, Brasil e Paraguai estão resistindo e defendendo a manutenção das negociações em bloco, conforme as diretrizes fundacionais do Mercosul. A Assunção também exige que não haja “condicionantes políticas” da parte da China, visto que mantém relações diplomáticas com Taiwan, região disputada pela China.
Lista de acordos comerciais do Mercosul vigentes e em negociação
América Latina e Caribe
- Equador (vigente)
- Colômbia (vigente)
- Panamá (vigente)
- El Salvador
- República Dominicana
Europa e América do Norte
- Canadá
- Reino Unido
- União Europeia (negociação concluída)
- EFTA (assinado)
Oriente Médio, Ásia e África
- Emirados Árabes Unidos
- Japão
- Singapura (em internalização)
- Egito (vigente)
- China
- Indonésia
- Malásia
- Vietnã
- Coreia do Sul
- Índia (vigente)
Fonte: www.cnnbrasil.com.br


