Análise do MP-SP sobre Conexões entre o Banco Master e Privatizações
A Promotoria de Justiça do Patrimônio Público do Ministério Público do Estado de São Paulo (MP-SP) está avaliando uma representação que sugere ligações entre o escândalo do Banco Master e as privatizações da Empresa Metropolitana de Águas e Energia (EMAE) e da Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo (Sabesp). Estas privatizações ocorreram entre abril e julho de 2024 e, segundo a denúncia, favoreceram a Equatorial Energia, que adquiriu a Sabesp com um deságio estimado em 44% abaixo do preço de mercado, em um processo que teve pouca concorrência.
O documento foi apresentado em 20 de março de 2026 pelo deputado estadual Antônio Donato (PT-SP), que é o líder da oposição na Assembleia Legislativa do Estado. A representação está sendo analisada para identificar possíveis semelhanças com outro procedimento que já está sob a responsabilidade da 5ª Promotoria de Patrimônio Público.
Equatorial Sob Suspeita
Um dos principais nomes mencionados na representação é Carlos Piani. De acordo com o documento, Piani presidiu o Conselho de Administração da Ambipar entre março de 2023 e setembro de 2024, período em que as ações da empresa aumentaram mais de 800%. Esse aumento acentuado levou a Ambipar a ser utilizada como lastro do Fundo Phoenix no leilão da EMAE. De junho a julho de 2024, Piani também assumiu a presidência da Equatorial, justamente durante a venda do controle da Sabesp pelo governo estadual. Em outubro de 2024, ele se tornou presidente da Sabesp, agora privatizada.
Durante sua gestão na Sabesp, a empresa adquiriu o controle da EMAE em outubro de 2025, encerrando uma fase em que o ativo foi reintegrado a um agente que havia participado da estruturação financeira anterior, conforme indicado na representação.
Nota: A EMAE é a Empresa Metropolitana de Águas e Energia, responsável pela administração das represas Billings e Guarapiranga e pelo gerenciamento do fluxo de água do Rio Pinheiros, utilizado para gerar energia elétrica em quatro usinas, incluindo a Henry Borden.
Venda da Sabesp com Deságio de 44%
Em julho de 2024, o governo paulista decidiu abrir mão do controle acionário da Sabesp. Naquela época, a empresa estava avaliada em mais de R$ 56,2 bilhões, e suas ações eram comercializadas a R$ 82,00. O preço negociado pelo bloco de controle, que correspondia a 15% das ações, foi de R$ 67,00 por ação, totalizando R$ 6,9 bilhões, com a Equatorial participando como a única concorrente.
Especialistas do Observatório Nacional das Águas, da Agência Reguladora dos Serviços Públicos do Estado e da Associação dos Profissionais Universitários da Sabesp identificaram o desconto de 44% em relação ao preço de mercado. Em fevereiro de 2026, as ações da Sabesp estavam avaliadas em R$ 152,50. O documento também menciona que o BTG Pactual coordenou a oferta pública de outros 17% das ações, ao mesmo preço de R$ 67,00, cuja demanda ultrapassou R$ 200 bilhões, enquanto a oferta disponível era de apenas R$ 7,9 bilhões. Os bancos participantes, como Itaú BBA e Citi, aparentementew foram excluídos das decisões estratégicas. Essa análise levanta suspeitas de favorecimento a determinados clientes durante esse processo de alocação. Durante o processo de privatização, Karla Bertocco presidiu o Conselho de Administração da Sabesp enquanto também ocupava um cargo no Conselho da Equatorial, a única interessada na compra do bloco de controle.
O Papel do Banco Master e de Fabiano Zettel
O relatório descreve o Banco Master, sob o controle de Daniel Vorcaro, como uma peça central na estruturação financeira das operações citadas. O documento aponta que o banco teve um papel ativo na estruturação e financiamento de grupos empresariais interessados na compra dos ativos públicos, utilizando intermediações financeiras cruzadas e instrumentos societários para ocultar a real cadeia de comando econômico.
O pagamento pela aquisição da EMAE foi facilitado pelo Banco Master por meio da Trustee DTVM, em parceria com Nelson Tanure e Tércio Borlenghi Junior, fundador da Ambipar, por meio de uma emissão privada de debêntures da Phoenix S.A. no montante de R$ 520,15 milhões, conforme o parecer técnico da Superintendência de Registro de Emissores da Comissão de Valores Mobiliários (CVM) que foi acessado pelo deputado.
Após obter controle sobre a EMAE, o grupo liderado por Tanure investiu aproximadamente R$ 160 milhões do caixa da companhia em CDBs emitidos pelo Letsbank, que é controlado pelo Banco Master, e adquiriu cerca de R$ 300 milhões em debêntures da Light, uma empresa também sob a influência de Tanure.
Outro personagem relevante mencionado na representação é Fabiano Zettel, pastor e cunhado de Daniel Vorcaro. Zettel atua como uma das peças do Banco Master na parceria para aquisição da EMAE.
Tanure, Zettel, a gestora de fundos Reag e a Trustee DTVM estão sob investigação no âmbito das Operações Carbono Oculto e Compliance Zero, devido a suspeitas de lavagem de dinheiro e fraudes financeiras, conforme divulgação da representação.
Fundo Criado 30 Dias Antes do Leilão
O leilão da EMAE ocorreu em 19 de abril de 2024 na Bolsa de São Paulo. O Fundo Phoenix venceu a competição com uma proposta de aproximadamente R$ 1,04 bilhão, superando a oferta da EDF. Um ponto que desperta atenção na representação é a data de criação do fundo, que foi em 20 de março de 2024, menos de um mês antes do leilão.
Conforme uma investigação finalizada pela CVM em maio de 2025, a Ambipar lançou um programa de recompra de ações em março de 2024, que concentrou cerca de 70% das ações em circulação. Como resultado, fundos conectados ao Banco Master e à gestora Reag adquiriram um volume significativo dessas ações, sob administração da Trustee DTVM, em um circuito financeiro em que os recursos retornavam repetidamente a fundos que pertenciam ao mesmo núcleo empresarial.
Esse mecanismo gerou uma valorização superior a 800% nas ações da Ambipar entre abril e outubro de 2024. A representação observa que esta dinâmica possui características de formação artificial de preço e simulação de liquidez, práticas que podem ser enquadradas no artigo 27-C da Lei 6.385/76, que aborda a manipulação de mercado.
MP Analisa Conexão com Procedimento em Curso
A representação foi inicialmente encaminhada à Subprocuradoria-Geral de Justiça e remetida à Promotoria de Patrimônio Público, pois foi entendido que os envolvidos não detêm foro privilegiado estadual. O MP informou ao gabinete do deputado que o caso está sendo investigado para identificar possíveis semelhanças com outro procedimento já em curso, sob a responsabilidade da 5ª Promotoria de Patrimônio Público.
O documento solicita a instauração de inquérito civil, a apuração de eventual improbidade administrativa, o compartilhamento de informações com o Ministério Público Federal e a Polícia Federal caso sejam encontrados indícios de ilícitos de competência da União, além da possível propositura de Ação Civil Pública.
Resposta da Equatorial Energia
O Times Brasil – Licenciado Exclusivo CNBC, enviou perguntas à Equatorial Energia, que se manifestou com uma nota que esclarece:
“O Grupo Equatorial esclarece que todo o processo de desestatização da Sabesp ocorreu no âmbito de uma oferta pública estruturada e conduzida com o apoio de assessores e instituições experientes, obedecendo ampla divulgação, legalidade e transparência.”
Fonte: timesbrasil.com.br