O recente aumento de tarifas, anunciado pelos Estados Unidos em relação aos produtos brasileiros nesta terça-feira (2), foi interpretado pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) como uma ação resultante de um conluio entre a família de Jair Bolsonaro (PL) e o governo de Donald Trump, com objetivos eleitorais. Durante sua fala na inauguração do campus Catalão do Instituto Federal Goiano, Lula criticou a política comercial americana, que, segundo ele, se baseia em informações enganosas, como a alegação de que o Brasil apresenta superávit em relação aos EUA e adota práticas comerciais desleais.
O presidente destacou que, no que diz respeito ao comércio de bens e serviços entre os dois países ao longo dos últimos 15 anos, o saldo foi favorável aos Estados Unidos, superando US$ 415 bilhões. Lula afirmou: “Quem deveria aumentar a taxação éramos nós, não eles.”
De acordo com Lula, a resposta do governo brasileiro ao primeiro aumento de tarifas, ocorrido em agosto de 2025, foi a promoção de negociações e a apresentação de dados técnicos às autoridades dos Estados Unidos. Ele declarou ter enviado documentos relacionados ao comércio bilateral para apoiar a argumentação de que os principais produtos exportados pelos EUA para o Brasil já desfrutam de tarifas reduzidas ou inexistentes.
O presidente também se referiu ao senador e pré-candidato à presidência, Flávio Bolsonaro (PL), como responsável pela implementação das novas tarifas. “Ele não percebe que está prejudicando o Lula. Na verdade, está prejudicando o povo brasileiro, os empresários do Brasil e o agronegócio nacional”, afirmou.
“Como eu não disponho de um navio para travar as guerras que Trump aprecia, não possuo armamento nuclear, e meu poder bélico é nulo, minha defesa é baseada na luta pela verdade contra a mentira. O embate é uma batalha de narrativas”, complementou.
Interesses Contrários
No decorrer de seu discurso, o presidente fez críticas a manifestações públicas que apoiam as barreiras comerciais, alegando que essas iniciativas vão contra os interesses nacionais. Lula acusou membros da oposição de tentarem angariar apoio de autoridades americanas para pressionar o governo brasileiro durante as tratativas comerciais e a campanha eleitoral que se aproxima.
“O que quero dizer é que esses filhos do Bolsonaro são piores do que ele. Eles são, na verdade, traidores da pátria. Foram solicitar que uma nação estrangeira interferisse nas decisões brasileiras”, afirmou.
Para o presidente, a recente taxação de 25% foi aplicada em um período de diálogo diplomático e teve sua origem diretamente ligada a interesses eleitorais da família Bolsonaro.
“Aquela fotografia que eles tiraram com Trump, na qual ele está sentado e eles de pé, foi uma fotografia de campanha”, opinou. Em seguida, reforçou sua crítica ao dizer: “Por muito menos do que isso, Joaquim Silvério dos Reis, que delatou Tiradentes, ficou marcado na história como traidor. O que merecem aqueles que solicitam a intervenção de um país estrangeiro no nosso?”, disse, aludindo à Conjuração Mineira, que se insurgiu contra o colonialismo português.
Como parte de uma estratégia para diversificar parceiros comerciais, Lula ressaltou o reconhecimento por parte da China da condição sanitária brasileira no que diz respeito à febre aftosa. Essa iniciativa, segundo ele, permitirá um aumento significativo na exportação de carne brasileira para o mercado chinês.
Minerais Críticos
O presidente também se referiu à sua reunião realizada em maio na Casa Branca, onde apresentou ao presidente americano informações sobre minerais críticos e terras raras, ressaltando o potencial do Brasil nesse setor. Lula afirmou que o país abriga uma das maiores reservas mundiais desses recursos.
“Para que vocês, jovens, compreendam: o Brasil é o segundo país do mundo em reservas de terras raras e minerais críticos. Entretanto, temos apenas cerca de 30% do nosso território pesquisado. Não conhecemos integralmente as riquezas presentes em nosso território, pois apenas uma fração foi estudada”, explicou.
De acordo com o presidente, o governo criou uma estrutura vinculada à Presidência da República para lidar com essa temática. Ele enfatizou a necessidade de considerar os minerais críticos e as terras raras como ativos estratégicos para a soberania nacional. Lula ainda destacou que o Brasil precisa aumentar sua capacidade de pesquisa, processamento e industrialização desses recursos, a fim de agregar valor à produção interna e evitar a simples exportação de matérias-primas sem beneficiamento.
Ao comentar sua visita ao laboratório do instituto, Lula abordou as contribuições que isso pode trazer para o avanço tecnológico brasileiro em um setor atualmente dominado pela China.
“Exportamos milhões de toneladas de minério de ferro a preços muito baixos e, em seguida, adquirimos produtos industrializados por preços muito superiores. Nossa intenção é converter os minerais críticos e as terras raras em uma questão de soberania nacional. Trata-se de uma questão de Estado”, afirmou.
Crime Organizado
O presidente também abordou a classificação do Primeiro Comando da Capital (PCC) e do Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas. Lula mencionou que apresentou às autoridades americanas documentos e dados referentes a pessoas investigadas por crimes financeiros e lavagem de dinheiro que residem no território americano.
O presidente expressou a disposição do governo brasileiro em intensificar a cooperação internacional nesta área e solicitou a deportação de Ricardo Magro, um empresário ligado à Refit e ao escândalo da operação Carbono Oculto.
“Quer combater o tráfico? Deseja enfrentar o crime organizado? Comece me entregando aqueles que estão lá. Entregue-os para nós. Inclusive, aquele cidadão envolvido no esquema da Refit, do qual apreendemos 250 milhões de litros de combustível contrabandeado e devolvemos à Petrobras. Esse cidadão reside em Miami. Esse indivíduo está na lista vermelha da Interpol. E, se Deus quiser, a Interpol, que agora conta com um brasileiro como secretário-geral, irá prendê-lo”, concluiu.
Fonte: timesbrasil.com.br

