O impacto do conflito no Oriente Médio sobre os frigoríficos brasileiros

Impactos do Conflito no Oriente Médio nos Frigoríficos Brasileiros

Atualmente, os frigoríficos brasileiros enfrentam um cenário de dificuldades. O Estreito de Ormuz, vital para o comércio global de petróleo, desempenha um papel significativo também nas exportações de carne de frango e bovina do Brasil.

O fechamento dessa rota pode não apenas elevar o custo do frete — que já incorpora uma taxa adicional devido ao risco de guerra —, mas também resultar em multas diárias para as empresas exportadoras.

Exportações Brasileiras de Carne e a Região do Oriente Médio

A região do Oriente Médio representa entre 10% e 15% das exportações brasileiras de carne bovina e 24% das exportações de carne de frango. O Brasil é reconhecido como o maior exportador mundial de carne bovina e o líder no fornecimento de carne halal, que é amplamente procurada nesse mercado.

Adicionalmente, de acordo com dados da Abiec (Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carne), cerca de 30% a 40% das exportações de carne bovina de algumas empresas transitam logisticamente pela região, com destino que abrange o Sudeste Asiático e outros mercados da Ásia. No último ano, as exportações de carne bovina para o Oriente Médio totalizaram R$ 2 bilhões. Se considerarmos as cargas que utilizam esse hub logístico, o volume potencialmente afetado pode chegar até US$ 6 bilhões.

Custos Elevados do Frete Marítimo

O custo do frete está significativamente mais alto em virtude do conflito na região. Uma taxa adicional conhecida como “taxa de guerra” tem sido cobrada pelos armadores, que já exigem até US$ 4 mil a mais por contêiner para cargas que têm como destino ou que transitam pela área afetada, conforme informações da Abiec.

A alta nos preços do petróleo também impacta o custo do querosene utilizado como combustível para os navios. No segmento de comércio de proteínas, o valor dos contêineres refrigerados já é maior, considerando que eles precisam de energia para manter a carne congelada.

Como consequência imediata, algumas companhias marítimas suspenderam novas reservas de contêineres para essas cargas. No entanto, existem carregamentos de carne bovina que já estão em trânsito, aguardando uma definição sobre onde atracar. Cada dia de atraso implica um custo elevado.

Essa multa pelo atraso, conhecida como demurrage, é cobrada do embarcador quando a embarcação permanece atracada além do prazo acordado. Segundo Olivier Girard, sócio-diretor da Macroinfra, uma consultoria especializada em infraestrutura e logística de transporte, essa taxa varia entre US$ 325 e US$ 475 por contêiner refrigerado. Os navios que operam nos portos brasileiros podem carregar entre 800 e 1.200 contêineres refrigerados. Assim, o custo por navio pode variar entre US$ 260 mil e US$ 570 mil por dia de atraso, sendo que esse encargo geralmente recai sobre o embarcador.

Girard ressalta que os navios que estão parados à espera de passagem pelo Estreito de Ormuz contribuem para a redução da capacidade de comércio mundial, o que eleva ainda mais os custos.

Além disso, navios que transitem pela região enfrentam outro risco, que são os ataques de Houthis, um grupo rebelde apoiado pelo Irã que controla parte do Iémen. Desde o início do conflito em Gaza, este grupo tem atacado embarcações que navegam pelo Mar Vermelho, afetando principalmente o comércio entre a Ásia e a Europa.

Os navios, a fim de evitar essa rota, podem ser obrigados a contornar a África, o que aumenta o tempo de navegação em cerca de 19 dias, além de gerar custos adicionais.

Embora seja possível desviar parte da carga pelo Mediterrâneo e Canal de Suez ou pelo Golfo de Omã, países como Kuwait, Bahrein, Catar e Iraque dependem exclusivamente do transporte via Estreito de Ormuz.

Os armadores de navios têm a opção de pular o porto de destino e seguir diretamente para suas próximas paradas, devolvendo a carga que não puder ser entregue ao local original, por exemplo.

Dessa forma, os frigoríficos brasileiros precisam decidir entre arcar com custos mais altos para os embarques destinados ao Oriente Médio, o que acarreta despesas adicionais, ou reduzir suas exportações para a região, impactando suas receitas. Em qualquer um dos casos, a rentabilidade das empresas poderá ser seriamente afetada.

Impacto para as Empresas Brasileiras Listadas na Bolsa

Além do fato de serem importantes compradoras de carne brasileira, a região do Oriente Médio é bastante relevante também para a produção das empresas frigoríficas brasileiras que estão listadas na bolsa de valores.

Recentemente, em fevereiro, a JBS (JBSS32) anunciou que pretende dobrar a produção em sua nova unidade de processamento de frangos localizada na cidade de Jeddah, na Arábia Saudita, até o final deste ano. Dessa instalação, ela já exporta produtos de carne para países como Kuwait, Omã e Emirados Árabes Unidos.

Em outubro do ano anterior, a concorrente MBRF (MBRF3) firmou um acordo de investimento com a Halal Products Development Company (HPDC), uma subsidiária do fundo soberano saudita, para expandir sua joint venture na região, originando a Sadia Halal.

A equipe do Seu Dinheiro entrou em contato com JBS, MBRF e Minerva em busca de declarações sobre a situação atual.

A MBRF informou que está priorizando a segurança e integridade de seus colaboradores no Oriente Médio e que suas operações não foram prejudicadas até o momento. A companhia implementou seu plano de contingência para assegurar o abastecimento.

A Minerva, por sua vez, preferiu não se pronunciar. A JBS não respondeu até o fechamento desta matéria, deixando o espaço aberto para um possível comentário futuro.

Aumento nas Exportações de Carne

A provável restrição nas exportações devido ao conflito no Oriente Médio representa uma reversão no quadro de expansão das exportações de carne brasileira, em particular a bovina.

No mês de fevereiro, observou-se um crescimento nas exportações de todas as categorias de proteína (bovina, suína e de frango), tanto em comparação anual quanto mensal, impulsionado por uma demanda internacional resiliente, conforme revelam dados da Secretaria de Comércio Exterior (Secex).

Entretanto, o desafio que persiste é a rentabilidade. No setor de carne bovina no Brasil, a margem — que representa a diferença entre o preço pago pelos frigoríficos e a receita obtida com a venda dos produtos — caiu 8% em relação ao mês anterior. Essa redução se deve a uma alta de 7% nos preços do gado, contrastando com a queda dos preços em reais.

Fonte: www.moneytimes.com.br

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