O petróleo pode continuar subindo, mesmo com o maior desabastecimento de estoques de emergência.

Mercado de Petróleo e Intervenções Internacionais

O mercado de petróleo deu um sinal claro nesta semana de que a liberação maciça de petróleo estocado pelos Estados Unidos e seus aliados não é suficiente para enfrentar a interrupção sem precedentes da oferta desencadeada pela guerra no Irã.

Decisão dos Países

Mais de 30 nações da Europa, América do Norte e do Leste Asiático concordaram em inundar o mercado com 400 milhões de barris de petróleo na tentativa de controlar os preços da energia, que estão em elevação. Os Estados Unidos lideram este esforço com a liberação de 172 milhões de barris de seu Reserva Estratégica de Petróleo, o que representa 43% do total da Agência Internacional de Energia (IEA).

Esse é o maior volume de petróleo estocado liberado na história de 50 anos da IEA, uma organização responsável por garantir a segurança energética de seus membros em situações de crise global.

Reação do Mercado

No entanto, a manobra de liberar estoque não tem inspirado confiança no mercado. Os preços do petróleo bruto subiram mais de 17% desde que a IEA anunciou a liberação de estoques de emergência na quarta-feira. Os preços do petróleo Brent, que serve como referência internacional, fecharam acima de US$ 100 na sexta-feira, marcando a segunda sessão consecutiva nesse patamar.

Fatores que Influenciam os Preços

A explicação para essa situação é simples, segundo Tamas Varga, analista da corretora de petróleo PVM, com sede em Londres. Os petroleiros estão sendo atacados no Golfo Pérsico, e o estratégico Estreito de Ormuz permanece basicamente fechado. O novo líder supremo do Irã prometeu manter o corredor comercial bloqueado.

Análise da Situação

"Até que o trânsito seja reativado, esse tipo de anúncio de política terá impacto limitado", afirmou Tom Liles, vice-presidente sênior de pesquisa upstream na consultoria Rystad Energy. Antes da guerra, a Arábia Saudita, Iraque, Kuwait e Emirados Árabes Unidos exportavam cerca de 14 milhões de barris por dia (bpd). Liles comentou que aproximadamente 5 milhões a 6 milhões de bpd podem ser exportados através de oleodutos da Arábia Saudita e dos Emirados Árabes Unidos, que terminam no Mar Vermelho e no Golfo de Omã.

Isso deixa cerca de 9 milhões de bpd, ou cerca de 10% da oferta global, que só podem passar pelo Estreito e permanecerão bloqueados na região até que o trânsito seja restabelecido, conforme Liles observou. À primeira vista, os 400 milhões de barris de emergência cobrirão cerca de 40 dias dessa oferta perdida, segundo o analista.

Entretanto, a realidade é muito mais complexa, disse Liles. "A quantidade de petróleo que pode ser liberada em um dado período é limitada. Não é como se 400 milhões de barris aparecessem imediatamente no mercado", esclareceu.

Estoques Insuficientes

A oferta de petróleo prejudicada pela guerra é muito maior do que os estoques que a IEA pode liberar diariamente. Como consequência, a ação terá um impacto limitado na trajetória dos preços do petróleo, afirmaram os analistas da Bernstein em uma nota enviada a clientes na quinta-feira.

Os Estados Unidos liberarão 172 milhões de barris ao longo de um período de 120 dias, o que implica que 1,4 milhão de barris serão disponibilizados por dia, representando apenas 15% da oferta perdida devido ao fechamento do Estreito de Ormuz. Além disso, leva 13 dias para que os barris cheguem ao mercado após a autorização do presidente Donald Trump.

Liberação de Estoques e Seus Limites

A IEA não detalhou quando os outros países membros começarão a liberar barris ou em que quantidades. Cada um dos 32 países-membros decidirá com base nas circunstâncias que considerarem mais apropriadas. A última vez que a IEA liberou estoques de emergência foi em resposta à invasão da Ucrânia pela Rússia. Os membros conseguiram atingir uma média combinada de 1,3 milhão de bpd em setembro de 2022, segundo a consultoria Rapidan Energy. A IEA pode, potencialmente, aumentar a taxa de liberação para perto de 2 milhões de bpd.

“Isso ganha tempo, mas não resolve a crise”, apontaram os analistas da Bernstein. Existe a possibilidade de que os preços do petróleo subam a níveis que possam reduzir a demanda antes mesmo da liberação dos estoques se concretizar plenamente, segundo Liles. A Rystad prevê que um conflito de dois meses poderá levar os preços do petróleo Brent a US$ 110 por barril até abril, enquanto um conflito de quatro meses poderia elevar os preços a US$ 135 por barril até junho.

Risco de Depleção de Estoques

Os membros da IEA também correm o risco de esgotar seus estoques. Os 400 milhões de barris programados para liberação representam 33% dos 1,2 bilhão de barris armazenados pelos estados membros. Os 172 milhões de barris que os Estados Unidos planejam liberar equivalem a 41% dos 415 milhões atualmente mantidos na Reserva Estratégica de Petróleo.

O Secretário de Energia dos EUA, Chris Wright, anunciou na quarta-feira que a Casa Branca planeja mais do que substituir o petróleo que está liberando, com 200 milhões de barris previstos para o próximo ano, sem custo para os contribuintes.

A ação da IEA também não resolve o problema de 20% das exportações de gás natural liquefeito (GNL) que não conseguem atingir o mercado global devido ao fechamento do Estreito. O GNL é uma forma de gás natural que é resfriada até se tornar líquido e então carregada em petroleiros para exportação. O gás natural é utilizado na geração de eletricidade e aquecimento.

Os estoques ajudarão a mitigar parcialmente o choque do petróleo proveniente da guerra, conforme afirmou Tobin Marcus, chefe de políticas e políticas dos EUA na Wolfe Research. "Mas isso de forma alguma elimina a necessidade de reabrir o Estreito, e não acreditamos que muita ajuda adicional esteja a caminho após isso", concluiu.

Fonte: www.cnbc.com

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