Crédito Consignado Privado: Evolução e Desafios
Um ano após a reformulação do crédito consignado privado, esse produto se destaca como uma opção bem avaliada no setor financeiro, mesmo que ainda necessite de melhorias. Embora exista desde 2003, o produto passou por várias mudanças implementadas pelo Governo Federal no ano anterior, com o propósito de torná-lo mais democrático e acessível, além de proporcionar um legado ao presidente Lula, que sempre defendeu a busca de alternativas para estimular o crescimento econômico.
Para viabilizar essas mudanças, o governo lançou uma plataforma destinada a centralizar a concessão de crédito. A partir desse momento, os bancos passaram a competir entre si pelos clientes, com as taxas de juros se tornando o principal diferencial. Essa nova abordagem se assemelhou a um leilão, onde o menor juro atrai o maior número de consumidores. Uma mudança significativa foi a inclusão de todos os trabalhadores com carteira registrada (CLTs) no programa, sem considerar a empresa onde trabalham ou o tempo que estão empregados. Anteriormente, os convênios eram estabelecidos diretamente entre as empresas e os bancos.
Na segunda fase da implantação do programa, o governo ampliou o acesso ao crédito, incluindo empregados domésticos, trabalhadores rurais, pequenos e médios empresários, além de motoristas e entregadores de aplicativos. O resultado dessa ampliação foi impressionante. Conforme dados do Ministério do Trabalho e Emprego, foram liberados R$ 110 bilhões em crédito consignado, um volume seis vezes maior do que o registrado em 2024.
Em janeiro de 2026, o saldo de empréstimos consignados destinados a pessoas físicas dobrou, atingindo R$ 83 bilhões, representando 2,6% do crédito ao consumidor, excluindo hipotecas. De acordo com informações do Banco Central, o crescimento desse mercado ainda apresenta um enorme potencial a ser explorado. Especialistas da Fitch, consultados pelo Money Times, estimam que, ao considerar todos os trabalhadores com carteira assinada, o mercado pode alcançar um potencial de crédito entre R$ 200 bilhões e R$ 400 bilhões, correspondente a um PIB do Uruguai.
Quem Se Destaca e Quais os Riscos Envolvidos
Segundo o Bank of America, o Itaú (ITUB4) é o líder em concessão de empréstimos consignados, com 18% de participação de mercado. Essa liderança é resultado da transição do produto tradicional, no qual já ocupava uma posição de destaque. O Banco do Brasil (BBAS3) segue em segundo lugar, com 13% de participação. O banco estatal tem se empenhado para diversificar sua carteira de crédito para pessoas físicas, já que anteriormente não operava com esse tipo de produto. A lista continua com o Santander (SANB11), que possui 10% de participação, seguido da Parati e da Caixa, ambas com 8%. O Bradesco (BBDC4) tem se tornado mais ativo nesse mercado recentemente, alcançando 6% de participação.
As instituições financeiras mencionadas foram contatadas para comentar sobre o assunto, mas não forneceram respostas até o fechamento da matéria.
De acordo com Pedro Carvalho, diretor da Fitch, existe uma variedade de comportamentos entre os bancos nesse novo cenário: alguns estão adotando uma postura mais agressiva, buscando ampliar sua participação de mercado, enquanto outros ainda estão em fase piloto, operando com um número limitado de empresas ou com clientes já conhecidos. Essa cautela é uma estratégia para gerenciar riscos à medida que o programa ganha força.
Carvalho ainda ressalta que é fundamental compreender o funcionamento do produto. Há desafios operacionais significativos; muitas empresas não estão familiarizadas com o processo e os departamentos de RH podem não saber como efetuar os descontos corretamente. Isso é especialmente comum em empresas de médio e pequeno porte, levando a problemas que podem resultar em inadimplência, frequentemente causados por falhas operacionais, e não necessariamente por falta de pagamento.
Portanto, é um equívoco pensar que o empréstimo consignado esteja isento de riscos, mesmo com o desconto automático na folha de pagamento. Segundo Carvalho, o principal obstáculo atualmente é a questão operacional: a verbação do desconto depende do RH das empresas. Se esse registro falha, o crédito pode acabar atrasando.
Outro ponto crítico é a demissão do trabalhador. A falta de regulamentação sobre o uso do FGTS torna essa garantia insuficiente para os bancos. Adicionalmente, existem desafios quando o trabalhador muda de emprego, levantando a questão de como garantir a continuidade dos descontos. “Ainda estamos em um processo de aprendizado para os bancos. Por essa razão, as taxas iniciais tendem a ser mais altas, refletindo a precificação do risco”, explica Carvalho.
Com intuito de mitigar esses desafios, o Governo Federal está apressando a implementação de garantias. O ministro do Trabalho e Emprego, Luiz Marinho, já anunciou que em maio será formalizada a regulamentação do uso do FGTS como garantia em empréstimos consignados privados, com expectativa de que as novas regras entrem em vigor em junho.
“A regulamentação do FGTS será muito benéfica. Atualmente, a maior fonte de inadimplência está exatamente na saída do trabalhador da empresa. Essa garantia pode atenuar consideravelmente esse risco, incentivando os bancos a aumentarem a oferta, embora haja um período de adaptação necessário”, ressalta o especialista da Fitch.
Entretanto, é importante notar que nem todos os trabalhadores dispõem de saldo suficiente no FGTS para oferecer uma garantia robusta, o que pode limitar o impacto da medida, especialmente entre as faixas de renda mais baixa.
Teto de Juros: Uma Possível Solução?
Outra preocupação do governo em relação ao crédito consignado diz respeito às taxas de juros praticadas. Uma pesquisa realizada pelo Procon revelou que as taxas de juros para esse crédito variaram em mais de 100% entre as instituições financeiras analisadas. Para prazos de 12 meses, a menor taxa encontrada foi de 3,19% ao mês, enquanto a maior atingiu 6,61%.
O levantamento abrangeu seis grandes instituições em São Paulo: Banco do Brasil, Bradesco, Caixa Econômica Federal, Itaú, Safra e Santander.
Em resposta a essa disparidade, o governo estaria avaliando a possibilidade de adotar um teto para os juros, embora o ministro Luiz Marinho tenha negado essa proposta. Contudo, os especialistas alertam que experiências passadas, como a do crédito consignado do INSS, indicam que essa medida pode resultar na redução da oferta de crédito. Quando o teto é estabelecido em um nível muito baixo, a viabilidade do produto para os bancos é comprometida.
No ano passado, o Banco do Brasil, um banco estatal, suspendeu as contratações de empréstimos consignados para beneficiários do INSS em decorrência da implementação de um teto e do aumento das taxas de juros. “O sucesso desse produto depende mais da melhoria operacional e da consolidação das garantias do que de intervenções diretas nas taxas”, destaca o especialista da Fitch.
Flavio Queijo, diretor de crédito consignado e imobiliário do Inter (INBR32), reitera essa preocupação. A ampla variação das taxas, que oscila de cerca de 2% a mais de 6%, reflete o risco associado a cada cliente, sua empresa e o vínculo empregatício. “Esse cenário é comparável a um sistema de classificação de riscos. Um teto muito baixo poderá restringir a oferta, como já observado em outras modalidades”, adverte.
Potencial de Crescimento no Setor
Independentemente dessas questões, os bancos de menor porte estão se mobilizando para capitalizar o potencial do crédito consignado. No Inter, esse produto se tornou uma prioridade interna, contribuindo para um aumento significativo na carteira de crédito, que cresceu 36% no quarto trimestre de 2025.
Ao iniciar o ano, o banco registrou cerca de R$ 2 bilhões em originação, um número expressivo considerando que se trata de um produto novo para a instituição, sem carteira legada. A maior parte desse valor corresponde a originação nova, com 500 mil clientes contratando o crédito, incluindo correntistas ativos, inativos e novos clientes que abriram contas.
Para reduzir os riscos de inadimplência, o Inter se utiliza intensivamente de dados, empregando modelos de crédito próprios e soluções de inteligência artificial. Queijo acrescenta que a melhoria da experiência do cliente é uma prioridade, buscando uma liberação de crédito ágil e prática. “A velocidade se tornou um indicador-chave de desempenho”, destaca.
A interrogação maior é até que ponto os bancos de menor porte conseguirão manter esse crescimento diante da concorrência acirrada com os grandes bancos. Na visão do executivo do Inter, os grandes bancos, que já atuam com folhas de pagamento e possuem dados extensos, têm uma vantagem inicial. Contudo, o mercado não é restrito. “Com a implementação do Open Finance e portabilidade de crédito, a competição tende a ser bastante acirrada. Bancos digitais, com estruturas mais leves e custos menores, conseguirão competir tanto em preços quanto na experiência fornecida”, observa.
O mercado ainda é jovem. Após saltar de cerca de R$ 40 bilhões para mais de R$ 100 bilhões em pouco mais de um ano, ainda há espaço considerável para crescimento e redistribuição de participação nesse setor.
PicPay: Uma Apostando em Novo Mercado
O crédito consignado privado, recém-chegado ao mercado acionário, está entre as principais prioridades do PicPay (PICS), que aspira se tornar um dos líderes nesse setor recém-reformulado.
Conforme André Cazotto, executivo de relações com investidores, fusões e aquisições, e estratégia da fintech, até recentemente, o consignado privado era visto como um mercado cativo para os grandes bancos. A reformulação realizada pelo governo, ao desenvolver uma plataforma para facilitar o acesso ao crédito, abriu novas oportunidades para agentes não tradicionais, como o próprio PicPay.
A entrada no mercado, no entanto, não foi descomplicada. Nas primeiras etapas, durante 2025, a fintech enfrentou dificuldades operacionais, algo comum em um produto em início de desenvolvimento. Com o tempo, essas questões foram sendo solucionadas, restaurando a confiança na fintech.
Atualmente, a situação mudou. O PicPay está originando aproximadamente R$ 600 milhões por mês em crédito consignado privado e já alcançou cerca de 4% de participação de mercado nas novas concessões, segundo os dados mais recentes disponíveis.
“Com o passar do tempo, conseguimos identificar que as falhas foram abordadas e solucionadas. O produto se tornou mais robusto, e estamos obtendo um retorno muito interessante, com unit economics saudáveis, além de um mercado amplo e acessível”, afirma Cazotto.
Movimentação na Bolsa e Oportunidades de Crescimento
Na bolsa de valores, tanto o PicPay quanto o Inter não são os únicos atentos ao potencial do mercado de crédito consignado. O Agibank, que também estreou recentemente na bolsa, e o Pine (PINE4) são considerados bem posicionados para crescer nesse setor. O Pine, por exemplo, viu suas ações subirem 244% nos últimos 12 meses, refletindo uma melhora significativa de seus resultados financeiros.
Em um relatório recente do Itaú BBA, a corretora destaca que o Pine saiu de um modelo de carteira concentrado em crédito corporativo para uma estratégia que se foca no consumidor. A instituição tem se direcionado especialmente ao crédito consignado, tendo já originado mais de R$ 5 bilhões desde a reformulação do produto, o que a coloca entre os players mais relevantes desse segmento.
Inclusive, o BTG Pactual, através do Banco Pan, que foi recentemente incorporado ao grupo, também poderá se beneficiar do crescimento do crédito consignado. O BBA considera esse produto um “trunfo”, que poderá oferecer uma nova e importante fonte de receita para uma instituição com foco tradicionalmente em crédito corporativo.
Os analistas estimate que o Banco Pan está exposto a mais de R$ 11 bilhões nesse segmento, seja diretamente, através da atuação do Banco Pan, ou via FIDCs (Fundos de Investimento em Direitos Creditórios).
Além disso, a aquisição recente de 48% da fintech MeuTudo ampliará ainda mais essa exposição, tendo a empresa originado cerca de R$ 13 bilhões apenas nesse nicho específico.
Com taxas de juros próximas de 4% ao mês, as projeções sugerem que uma carteira média de R$ 15 bilhões pode gerar um ROE (retorno sobre patrimônio líquido) de aproximadamente 50% para o banco, resultando em mais de R$ 1 bilhão em lucros adicionais já neste ano.
Embora os rendimentos deste produto possam normalizar-se ao longo do tempo, o Itaú destaca que o BTG é um dos players que melhor aproveitam esse potencial, reiterando a abordagem ágil do banco.
Fonte: www.moneytimes.com.br