A Iniciativa do Cinturão e Rota
Introdução
Doze anos se passaram desde que a China lançou sua Iniciativa do Cinturão e Rota (Belt and Road Initiative – BRI), com o objetivo de conectar a potência asiática ao restante da Ásia, Europa, Oriente Médio, África e América Latina. O entusiasmo em torno deste grande projeto de investimento e infraestrutura diminuiu significativamente. A proposta visava impulsionar as parcerias econômicas e comerciais da China, apresentando a BRI como um veículo de desenvolvimento, investimento estrangeiro direto, crescimento econômico e cooperação. No entanto, os dias de glória do projeto parecem pertencer a um passado distante.
Críticas e Problemas
A iniciativa começou a ser vista, cada vez mais, como uma forma de atrair países de baixa renda com promessas de altos investimentos, mas que acabam sobrecarregados com dívidas insustentáveis. Além disso, o projeto enfrenta críticas relacionadas à governança, desigualdade social, corrupção e ao impacto ambiental de grandes esquemas de infraestrutura. A China, por sua vez, afirma que a BRI contribuiu para o desenvolvimento social e econômico dos países membros, criou milhares de empregos e ajudou a combater a pobreza, além de estimular o crescimento econômico e parcerias comerciais.
Evolução da Abordagem da China
Analistas observam que o projeto evoluiu ao longo do tempo. Ilaria Mazzocco, diretora adjunta e pesquisadora sênior do Centro para Estudos Estratégicos e Internacionais, ressaltou que o contexto mundial da China mudou e que houve muito aprendizado até aqui. Ela acrescentou que o foco da China começou a se deslocar para "projetos pequenos, mas significativos". Anteriormente, a BRI era marcada por projetos de alto risco em países com sérios problemas de governança, o que gerou dívidas e dificuldades. Isso também criou problemas políticos para Pequim.
Mudança de Estratégia
Diante das críticas, a China iniciou ajustes significativos, movendo-se em direção a projetos menos arriscados, especialmente em países mais estáveis, facilitando assim a operação de empresas chinesas. A abordagem chinesa se tornou mais sutil e cuidadosa no financiamento de projetos no mundo em desenvolvimento. Mazzocco observou que a China passou de projetos altamente visíveis e prestigiados para uma abordagem mais cautelosa, que pode oferecer retornos mais altos a longo prazo.
O Lançamento da Iniciativa
Retornando ao início da BRI, o presidente Xi Jinping lançou a iniciativa em 2013 como uma "Rota da Seda" moderna, central na política externa de Beijing. O objetivo era expandir a influência econômica e geopolítica da China, oferecendo aos países parceiros empréstimos respaldados pelo governo, investimentos e a perspectiva de crescimento futuro. A iniciativa previa a criação de um cinturão econômico terrestre composto por infraestrutura rodoviária, ferroviária e energética, além de um cinturão marítimo com o desenvolvimento de portos de águas profundas.
Números do Projeto
Desde sua introdução, a BRI acumulou um engajamento chinês total de US$ 1,308 trilhões, dos quais US$ 775 bilhões correspondem a contratos de construção e US$ 533 bilhões em investimentos, conforme relatório de julho do Green Finance and Development Center, da Universidade Fudan, em Xangai. Até maio, até 150 países, representando cerca de 40% do PIB global, foram atraídos a se juntar à BRI através de Memorandos de Entendimento com a China.
Desafios e Saídas
Entretanto, as ambições do projeto têm enfrentado desafios, com acusações de que a BRI se caracteriza por modelos de financiamento insustentáveis para países em desenvolvimento, que geralmente não possuem alternativas de investimento. Itália e Panamá abandonaram a BRI em 2023 e 2025, respectivamente, refletindo insatisfação com expectativas não atendidas e preocupações geopolíticas mais amplas.
A Itália, única nação do grupo dos Sete (G7) a assinar a BRI, esperava aumentar suas vendas para a China. No entanto, as exportações italianas para a China apresentaram aumentos modestos, em comparação com os envios chineses para a Itália durante o período de associação da Itália à BRI. Por sua vez, o Panamá, primeiro país da América Latina a aderir à BRI, decidiu não renovar sua participação neste ano, motivado por pressões dos EUA que se preocupam com a expansão da influência chinesa na região.
Reações à Saída dos Países
O ministério das Relações Exteriores da China acusou os EUA de "difamação e sabotagem", enquanto o Secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, considerou a retirada do Panamá da BRI um "grande passo para frente" nas relações com a Casa Branca. Analistas afirmam que é natural que a BRI experimente tanto sucessos quanto fracassos.
Exemplos de Sucesso e Falhas
Projetos como a ferrovia China-Laos, inaugurada em 2021 e que irá se expandir para conectar-se à Tailândia e Cingapura, são vistos como positivos por melhorar a conectividade e as relações comerciais entre a China e seus vizinhos. Por outro lado, projetos ambiciosos, como a Usina Hidrelétrica Coca Codo Sinclair, da empresa estatal chinesa Sinohydro, enfrentaram problemas de má qualidade na construção, alegações de corrupção e impactos ambientais.
Mazzocco do CSIS observou que, apesar de críticas, as melhorias na infraestrutura, como ferrovias e rodovias, têm sido transformadoras. Embora o Ocidente tenha tendido a ver a BRI como "diplomacia da armadilha da dívida", ela continua a ser uma opção atraente para países que carecem de fontes de investimento alternativas.
Reflexão sobre a Iniciativa
Mark A. Green, ex-embaixador dos EUA e presidente emérito do Wilson Center, destacou que as condições que tornaram a BRI atraente ainda permanecem para os países em desenvolvimento. Ele argumentou que a melhor forma de "derrotar" a BRI é "superá-la" e ajudar os países em desenvolvimento a alcançar suas metas e aspirações nacionais.


