Novas Formas de Utilizar Pontos em Compras
Integração com o Varejo
"Estamos transformando os pontos em uma nova forma de pagamento, integrada à rotina de consumo e à operação dos varejistas", afirma Ricardo Magalhães, Vice-presidente de Loyalty da Dotz. Essa inovação visa ampliar a conveniência para os consumidores. No entanto, surge a questão se o uso de pontos no caixa realmente proporciona uma melhoria no orçamento das famílias ou se apenas altera a maneira como elas consomem.
Economia com o Uso de Pontos
Impacto Financeiro e Contexto
Thaisa Durso, educadora financeira da Rico, destaca que o impacto no orçamento familiar depende do contexto. "Transformar pontos em pagamento no caixa pode gerar economia pontual, especialmente quando os pontos têm bom valor de troca e o desconto é aplicado em despesas que já fazem parte do orçamento", explica. De acordo com Durso, usar o benefício para reduzir gastos recorrentes, como em supermercados ou farmácias, pode ser uma ferramenta eficaz para melhorar a eficiência financeira, permitindo que recursos sejam direcionados para outras prioridades, como a reserva de emergência ou investimentos.
Dicas para Utilizar Pontos de Forma Eficiente
Cuidado com a Percepção de Valor
Entretanto, há um risco associado ao uso direto de pontos, que é a possibilidade de o consumidor não perceber o valor real dos pontos. "O uso direto no caixa aumenta a probabilidade de perder a noção do valor real, pois o desconto aparece como ‘pontos abatidos’ em vez de dinheiro saindo da conta", alerta Durso. Para evitar a armadilha chamada "dinheiro invisível", a educadora recomenda que os consumidores conversem seu saldo em reais antes de decidir pelo uso e que comparem com outras alternativas disponíveis. Se o retorno ao resgatar os pontos for inferior a 1% sobre o gasto inicial que gerou os pontos, talvez o resgate não justifique financeiramente.
Alteração na Percepção de Gasto
Wanessa Guimarães, planejadora financeira CFP, observa que a praticidade do uso de pontos altera a percepção de gasto. "Como não há uma etapa consciente de resgate nem a saída de dinheiro da conta, a transação não é percebida como uma troca financeira clara", explica. Isso pode levar os consumidores a deixar de comparar preços adequadamente, estimulando consumos menos refletidos.
Variação no Valor dos Pontos
Guimarães ressalta que o valor dos pontos varia dependendo da forma como serão utilizados. No varejo físico, o retorno costuma ficar entre R$ 0,007 e R$ 0,01 por ponto. Em casos de cashback, o retorno se situa entre R$ 0,01 e R$ 0,012 por ponto, enquanto milhas bem utilizadas podem alcançar valores de até R$ 0,02 ou R$ 0,03 por ponto, especialmente durante promoções que oferecem bônus de transferência. "O principal critério deve ser entender quanto vale cada ponto em reais em cada tipo de uso", afirma.
Considerações sobre a Utilização de Pontos
Retorno das Milhas e Cashbacks
Para aqueles que viajam com frequência e aproveitam campanhas promocionais, as milhas podem oferecer um retorno maior. Por outro lado, para consumidores que buscam mais previsibilidade, o cashback pode ser mais transparente. O uso de pontos em varejos geralmente faz mais sentido quando os pontos estão próximos do vencimento ou quando o consumidor não possui uma estratégia estruturada.
Pontos Como Benefício e Planejamento Financeiro
Rafael Carelli, diretor de Negócios na Unicred do Brasil, enfatiza que pontos não devem ser considerados como "dinheiro extra". Segundo ele, a verdadeira economia ocorre quando o uso de pontos substitui um gasto já planejado, e não quando se cria um novo gasto. A decisão de como utilizar os pontos deve levar em conta os objetivos financeiros de cada consumidor. Se houver a possibilidade de converter pontos em algo que contribua para fortalecer o patrimônio no longo prazo, como um aporte em previdência, essa opção pode ser mais alinhada ao planejamento econômico do indivíduo.
Importância de Verificar os Custos do Programa
Custo dos Programas de Fidelidade
Outro aspecto frequentemente negligenciado é o custo dos programas de fidelidade. Cartões com anuidades elevadas podem consumir uma parte significativa do retorno obtido com pontos ou cashback, especialmente se não houver critérios claros para isenção. Essa análise é crucial, pois, sem ela, o benefício aparente pode ser reduzido ou até anulado.
Avaliação de Comparações e Oportunidades
Carlos Castro, planejador financeiro CFP pela Planejar, explica que "os pontos funcionam como uma moeda". Para ele, quanto menor a fricção no uso, como no pagamento direto no caixa, maior é o risco de gastos impulsivos se tornar um problema. "É preciso fazer comparações, acompanhar desvalorizações e avaliar custos de oportunidade", diz. Em algumas situações, pode ser mais vantajoso acumular pontos para uma viagem planejada do que utilizá-los imediatamente em compras no varejo.
Acompanhamento da Conta ao Longo do Tempo
Desvalorização de Programas de Fidelidade
Os especialistas também alertam para o fenômeno da desvalorização dos programas de fidelidade, onde, ao longo do tempo, pode ser necessário acumular mais pontos para os mesmos resgates. Nesse sentido, acumular pontos indefinidamente pode não ser a melhor estratégia, enquanto utilizá-los sem critério também não é recomendável.
Impacto Estrutural no Orçamento
O consenso entre os especialistas é de que os benefícios existem, mas são complementares. Para famílias que apresentam um alto volume de gastos no cartão, o retorno anual pode representar algumas centenas de reais ou pouco mais de R$ 1.000, dependendo da estratégia adotada. Entretanto, o que realmente faz diferença estrutural é o controle dos gastos, a definição de metas e um consumo que esteja alinhado à renda.
A integração entre Dotz e Livelo amplia as opções de uso dos pontos e reforça a tendência de incluí-los nas transações cotidianas. No entanto, o resultado final irá depender menos da tecnologia disponível nos caixas e mais da habilidade do consumidor em tratar cada ponto como um ativo, e não como um bônus sem custo.
Fonte: einvestidor.estadao.com.br


