Potencial dos Carros Voadores
O conceito de carros voadores está presente na imaginação popular há muitas décadas, como exemplificado no desenho animado “Os Jetsons”, que desde a década de 1960 abordava essa ideia. Agora, o eVTOL (que significa veículo elétrico de decolagem e pouso vertical, em tradução livre), da Eve Air Mobility, pode transformar essa possibilidade em realidade, com previsão de implementação ainda para o próximo ano.
Testes e Certificação em Andamento
Com o objetivo de promover a mobilidade aérea urbana por meio dos denominados “carros voadores”, o próximo ano, 2026, será reservado para a realização de testes de voo do protótipo e para avançar no processo de certificação junto à Anac (Agência Nacional de Aviação Civil). Essa informação foi confirmada por Eduardo Couto, CFO da Eve.
“Em 2027, esperamos adicionar outros seis protótipos à campanha de ensaios para a obtenção da certificação de tipo e as primeiras entregas”, afirmou o executivo durante entrevista ao Money Times.
A História da Eve Air Mobility
A Eve é uma subsidiária da Embraer (EMBJ3) e teve sua origem em 2017 como parte do projeto Embraer-X, um acelerador de mercado da fabricante brasileira de aeronaves. Em 2020, o projeto desvinculou-se da incubadora para estabelecer-se como uma empresa independente. A fusão com a Zanite Acquisition Corp. em 2021 possibilitou que a Eve estreasse na Bolsa de Valores de Nova York (NYSE) em maio de 2022.
Características dos eVTOLs
Os eVTOLs podem ser descritos como táxis aéreos elétricos, projetados para realizar viagens curtas tanto dentro das regiões metropolitanas quanto entre elas. Eles são direcionados a indivíduos que necessitam de deslocamentos rápidos entre pontos estratégicos nas cidades, como centros financeiros, aeroportos e áreas urbanas de grande movimentação”, explica o CFO da Eve.
É importante destacar que, apesar da denominação que sugere uma realidade futurista, o eVTOL é, essencialmente, uma aeronave que cumpre todos os requisitos da aviação civil. Isso inclui a certificação necessária, a presença de pilotos treinados e habilitados, manutenção certificada, assim como a infraestrutura apropriada para pouso, decolagem e recarga, além da integração com sistemas de controle e gestão de tráfego aéreo. Por essa razão, não se vislumbra, pelo menos no curto prazo, a possibilidade de carros voadores ocupando garagens ou substituindo o tráfego nas ruas das grandes cidades.
Voos Rápidos e Complementares
Eduardo Couto destaca que a aeronave proporcionará uma experiência de voo curta, entre 10 e 20 minutos, caracterizando-se pela operação silenciosa e pela integração com os sistemas de mobilidade urbana já existentes.
“Por exemplo, uma viagem de carro de Jundiaí ao aeroporto de Congonhas, que abrange uma distância de aproximadamente 70 km, pode levar de 1h20 a 2h. No entanto, uma viagem de eVTOL nesta mesma rota cobre 57 km e deve ter uma duração de apenas 20 minutos. Além disso, outra rota pretende ligar a zona sul de São Paulo ao aeroporto internacional de Guarulhos, que, de carro, pode levar até 2h30, enquanto o eVTOL completaria essa jornada em apenas 12 minutos”, explicou Couto durante entrevista ao Money Times.
A proposta de voos rápidos e conectividade em grandes centros urbanos é semelhante à oferta de serviços de helicópteros. A iniciativa da Eve Air Mobility com os eVTOLs propõe-se a complementar e expandir as opções de mobilidade aérea já disponíveis, dialogando com esse mercado existente.
“Por serem elétricos, mais silenciosos e dotados de tecnologias altamente redundantes, os eVTOLs poderão operar em novas rotas, incluindo áreas onde helicópteros de motor único enfrentam restrições de segurança ou limitações ambientais. Isso cria espaço para aplicações que vão desde rotas urbanas de alta frequência até setores atualmente pouco explorados, como turismo em regiões sensíveis ao ruído e às emissões”, ponderou Couto. Para ele, os eVTOLs ampliaram o acesso à mobilidade aérea, oferecendo soluções mais adequadas ao uso diário, enquanto os helicópteros continuariam a atender demandas específicas.
O modelo inicial é direcionado para operações comerciais realizadas por operadoras especializadas, incluindo empresas focadas na mobilidade aérea urbana, como a Revo, além de companhias aéreas.
“A longo prazo, à medida que a tecnologia e a regulamentação evoluírem, novos modelos de operação poderão ser considerados, mas a prioridade atual está no mercado de transporte urbano como serviço”, concluiu o CFO.
Atual Estado do Desenvolvimento do eVTOL
As expectativas em relação ao “carro voador” têm gerado especulações por um período significativo. Neste momento, a Eve está avançando com a campanha de testes em voo, utilizando um protótipo. Segundo Eduardo Couto, estão programados centenas de voos ao longo de 2026 com o intuito de adquirir conhecimento.
“Planejamos produzir seis protótipos certificáveis para realizar a campanha de testes com foco na certificação da aeronave. Continuamos a trabalhar em estreita colaboração com a Anac para desenvolver a regulamentação e o processo de certificação”, afirmou.
Desenvolvimento da Infraestrutura Necessária
A infraestrutura exigida para a operação dos eVTOLs está em desenvolvimento e, de acordo com o executivo, varia consideravelmente conforme as características de cada cidade.
Até 2027, Couto enfatiza que será essencial avançar com a construção de vertiportos, adaptar helipontos existentes para integrar-se adequadamente à rede elétrica para recarga, estabelecer procedimentos operacionais, além de amadurecer os sistemas de gestão de tráfego aéreo urbano.
Nesse aspecto, a Eve está implementando iniciativas como o lançamento de um guia de infraestrutura específico para os eVTOLs e mantém um diálogo contínuo com a Secretaria do Governo Municipal de São Paulo, que, em 2025, criou um Grupo de Trabalho Intersecretarial para viabilizar a operação dos eVTOLs na cidade.
Desafios Econômicos e Geopolíticos
O eVTOL desenvolvido pela Eve visa agregar um novo modal de mobilidade aérea urbana, conforme declarado pelo CFO. Contudo, o desenvolvimento do projeto ocorre em um contexto de conflitos geopolíticos, mudanças nas tarifas impostas pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump — que afetaram a Embraer — e crises nas cadeias de suprimentos.
“Incertezas podem gerar perturbações no curto prazo, especialmente em temas relacionados a regulamentação, comércio internacional e cadeias globais de suprimentos. Para mitigar esses impactos, adotamos uma estratégia baseada na diversificação, mantendo um diálogo contínuo com as autoridades reguladoras e realizando um planejamento disciplinado”, afirmou o CFO.
Segundo Couto, tarifas e barreiras comerciais integram a análise em um projeto global como o da Eve. Embora esses fatores possam impactar custos e logística, a empresa não considera, atualmente, essa situação como um risco que comprometa o cronograma do projeto.
Fonte: www.moneytimes.com.br