Os erros e acertos do presidente do Fed

Jerome Powell e a Presidência do Federal Reserve

Jerome Powell deixa a presidência do Federal Reserve nesta sexta-feira (15), cargo que exerceu nos últimos oito anos. Após o desempenho nas suas atribuições, sua nota à frente da autoridade monetária é 8,5, segundo a avaliação de Benjamin Mandel, chefe de pesquisa e cofundador da Jubarte Capital e ex-membro do Fed.

O saldo positivo é acompanhado de ressalvas. Apesar de ter conseguido evitar uma recessão nos Estados Unidos, mesmo diante de um grande choque inflacionário que não é visto há quatro décadas, o chairman foi criticado pela demora em responder ao aumento de preços no pós-pandemia.

Powell assumiu a presidência do Fed em fevereiro de 2018, indicado por Donald Trump para suceder Janet Yellen. Desde então, enfrentou um dos períodos mais turbulentos da história recente da economia americana, que se caracterizou por guerra comercial, pandemia, inflação recorde e embates públicos sobre a independência do banco central, uma situação anteriormente considerada impensável para o BC mais confiável do mundo.

Agora, Powell deixa o comando da instituição ao final de seu mandato, abrindo espaço para a entrada de Kevin Warsh, ex-diretor do Fed e visto como próximo de Trump. Contudo, Powell deve continuar na instituição até 2028 como membro do board, uma decisão considerada fora do convencional para ex-presidentes da autoridade monetária.

O “Powell Pivot” e os primeiros choques de Trump

Ao assumir o Fed em 2018, Powell se deparou com uma economia americana ainda em recuperação após a crise de 2008. O desemprego se mantinha em mínimas históricas, abaixo de 4%, enquanto o crescimento do PIB norte-americano estava próximo de 3% ao ano. Ao mesmo tempo, os juros ainda estavam em processo gradual de normalização, após um prolongado período com taxas próximas de zero.

“O Fed estava respondendo a fundamentos construtivos da economia, que apresentava crescimento resiliente e inflação em elevação moderada”, afirmou Mandel.

Contudo, em 2018, a situação mudou quando as primeiras tarifas impostas por Donald Trump a produtos chineses começaram a impactar a atividade econômica global, aumentando a incerteza nos mercados. No final daquele ano, o índice S&P 500 sofreu uma queda significativa no último trimestre, ampliando os temores sobre uma possível desaceleração da economia dos Estados Unidos.

Mandel aponta que Powell rapidamente reconheceu o risco de que as tarifas poderiam elevar preços ao mesmo tempo em que prejudicavam o crescimento econômico.

A resposta a essa situação ocorreu no movimento conhecido nos mercados como “Powell Pivot”: após elevar os juros para a faixa de 2,25% a 2,50% no final de 2018, o Fed interrompeu o ciclo de aperto monetário e iniciou cortes nas taxas em 2019.

“Ele reagiu de forma extremamente ágil. A economia desacelerou, mas não chegou a entrar em recessão e a inflação não teve uma explosão incontrolável”, disse o ex-membro do Fed, que atribui “nota A” ao desempenho de Powell nesse período.

Enzo Pacheco, analista da Empirics Research, ressalta que Powell já demonstrava, naquela ocasião, a preocupação em evitar que juros excessivamente altos comprometesse a atividade econômica.

“Ele entendia que não poderia manter os juros baixos por tempo demais, mas também percebeu rapidamente os riscos para o crescimento”, declarou.

Pandemia: reação agressiva e socorro à economia

O grande teste do mandato de Powell surgiu em 2020, com a eclosão da pandemia de Covid-19.

Diante do fechamento abrupto da economia global, o Fed reduziu as taxas de juros para perto de zero, lançou programas emergenciais de compra de ativos e instaurou linhas de liquidez visando estabilizar os mercados financeiros.

De acordo com Paula Zogbi, estrategista-chefe da Nomad, tais medidas foram fundamentais para evitar um colapso mais profundo da economia americana e impulsionaram a recuperação nos anos seguintes. “Sob sua liderança, o Fed adotou uma estratégia agressiva de cortes nas taxas de juros e criou mecanismos emergenciais para assegurar liquidez aos mercados financeiros”, destacou.

Segundo Pacheco, o trauma da crise de 2008 também influenciou a postura de Powell durante a pandemia. “Ele levou em consideração que o Fed não poderia repetir os erros gerados pela crise financeira, que foram ocasionados por atrasos na tomada de decisões”, afirmou.

O analista observa ainda que naquele momento havia grande incerteza sobre a duração da pandemia e sobre a viabilidade de desenvolvimento de vacinas dentro de um prazo razoável.

Pós-pandemia: inflação recorde e o maior erro do mandato

Caso a atuação durante a pandemia tenha sido amplamente elogiada, o período subsequente concentrou as críticas ao chairman.

Com a reabertura da economia americana, os estímulos monetários e fiscais extraordinários contribuíram para uma acentuada aceleração inflacionária. Inicialmente, Powell tratou o fenômeno como “transitório”, avaliação que precisou ser revista diante da persistência dos altos preços.

A inflação nos Estados Unidos ultrapassou a marca de 9% em 2022, alcançando o maior nível desde 1981.

“Analisando retrospectivamente, ficou evidente que ele reagiu de maneira muito lenta ao choque inflacionário”, pontuou Mandel. Para o ex-membro do Fed, esse foi o principal equívoco da gestão de Powell.

Mesmo assim, ele considera que o chairman fez uma escolha consciente de priorizar o crescimento econômico e o mercado de trabalho em detrimento do combate preventivo à inflação.

Por sua vez, Pacheco minimiza as críticas, argumentando que a ideia da inflação transitória era uma crença compartilhada por uma boa parte do mercado naquele momento.

“Muitos também acreditavam nisso. O problema ficou por conta da interpretação do mercado, que viu ‘transitório’ como algo acelerar, quando ele se referia apenas a algo temporário”, disse.

Conforme Zogbi, Powell teve que conduzir um dos ciclos de aperto monetário mais velozes das últimas décadas, após reconhecer que a inflação demandava uma resposta mais rigorosa do Fed.

O presidente do banco central norte-americano abandonou o discurso anterior e iniciou uma forte sequência de aumentos nas taxas de juros. Em pouco mais de um ano, o Fed passou de uma taxa próxima de zero para um patamar superior a 5%, adotando uma postura de aperto monetário agressiva.

“Essa mudança de postura teve como objetivo reancorar as expectativas inflacionárias e garantir a estabilidade dos preços”, destacou.

Pouso suave e defesa da independência do Fed

Apesar das críticas em relação ao combate inicial à inflação, especialistas concordam que Powell conseguiu produzir um resultado raro para bancos centrais: desacelerar a economia sem provocar uma recessão.

“Ele obteve um pouso suave, enquanto a maioria esperava por uma recessão”, mencionou Mandel. Segundo o economista, esse é um dos principais argumentos positivos sobre o legado do chairman.

“Passaram-se cinco ou seis anos com inflação acima da meta, mas, por outro lado, também sem recessão”, resumiu.

Os anos finais de Powell também foram marcados pelos embates públicos com Donald Trump sobre taxas de juros e independência institucional. Para Pacheco, o Fed foi uma das poucas instituições americanas a resistir a pressões políticas diretas do presidente.

De acordo com Zogbi, a defesa da independência do banco central deverá ser um dos principais legados deixados por Powell. “Ao invés de ceder à pressão política, manteve a postura de que as decisões do Fed devem ser guiadas por dados econômicos e pelos interesses de longo prazo da economia”, afirmou.

Ainda não é um adeus

Embora seu mandato como chairman esteja chegando ao fim, Powell pode continuar no Fed até 2028 por ocupar uma cadeira no board da instituição. Nos Estados Unidos, membros do conselho do Federal Reserve podem permanecer por até 14 anos, independentemente de sua presidência.

Na visão de Mandel, a decisão de Jerome Powell de continuar no Fed mesmo após a presidência da instituição reforça sua preocupação com a independência do banco central americano.

A parte da permanência de Powell se diferencia do padrão seguido por ex-presidentes da autoridade monetária americana, que tradicionalmente se afastam da instituição ao fim de seus mandatos. Para Mandel, essa escolha representa uma tentativa de preservar a condução técnica da política monetária em tempos de crescente pressão política sobre o Fed.

Conforme o economista, espera-se que Powell adote um perfil mais discreto nos meses seguintes para evitar conflitos na transição de comando, mas ele ainda terá um papel influente dentro do Federal Open Market Committee (FOMC), o colegiado responsável pelas decisões de juros nos Estados Unidos.

Para Pacheco, a permanência do ex-chairman também limitará o espaço para novas indicações de Donald Trump dentro do Fed.

“Ele compreendeu que, ao sair completamente da instituição, abriria espaço para mais uma indicação de Trump, o que poderia prejudicar ainda mais a percepção de independência do Fed”, comentou.

Pacheco ainda observa que a interação entre Powell e seu sucessor, Kevin Warsh, deve ser monitorada de perto pelo mercado. Embora considere Warsh um nome técnico e qualificado para o cargo, o analista acredita que investidores estarão atentos à sua capacidade de resistir às pressões políticas da Casa Branca.

“Ele conhece o funcionamento do Fed e reconhece a importância da credibilidade da instituição. Entretanto, o mercado observará se ele conseguirá manter essa independência da mesma maneira que Powell buscou preservá-la ao longo de seu mandato”, concluiu.

Fonte: www.moneytimes.com.br

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