Abertura da Safra de Balanços de 2026
A primeira safra de balanços referentes ao ano de 2026 já iniciou, com a divulgação de resultados de diversos nomes do varejo programada para a primeira quinzena de maio. As expectativas para o desempenho do setor permanecem cautelosas, em virtude da pressão provocada pelo atual cenário macroeconômico identificado por analistas do mercado.
Cenário Atual do Varejo
A alta persistente da taxa básica de juros (Selic) tem impactado a renda disponível da população, somada ao elevado nível de endividamento das famílias, definindo um cenário de restrição no poder de compra. Segundo análises realizadas pelo BTG Pactual, essa situação é ainda mais complicada pela inflação acumulada ao longo dos últimos anos, que resultou em um aumento estrutural dos preços e na diminuição da acessibilidade real. Além disso, a desaceleração econômica é uma preocupação expressada pelo Santander, que observa que diversos segmentos do varejo estão sendo afetados por esse panorama.
Em termos de opiniões dos bancos, existe um consenso sobre a resiliência do segmento farmacêutico. Por outro lado, alertas foram emitidos em relação ao varejo alimentício, que pode enfrentar maiores dificuldades.
Selic a 14,50%
Em uma decisão recente, o Comitê de Política Monetária (Copom) reduziu a taxa Selic para 14,50%. Esse nível elevado de juros já vem afetando o setor varejista há um período considerável. Em junho do ano anterior, a taxa básica de juros alcançou a marca de 15%, onde permaneceu até a reunião do Copom em março deste ano, quando foi iniciado o ciclo de redução da taxa — um movimento gradual, por sinal, que caminhou de modo mais lento do que inicialmente projetado.
O mercado já antecipava um corte de 0,25 ponto percentual na mais recente reunião, considerando ainda o tom cauteloso diante das projeções de pressão inflacionária global devido aos elevados preços do petróleo, que têm sido influenciados por conflitos no Oriente Médio.
Gabriel Mollo, analista da Daycoval Corretora, afirma que a política monetária ainda está afetando os balanços das empresas. “Não é possível notar imediatamente os efeitos do ciclo de cortes, visto que foram marginais até o momento. Cortes significativos ainda não ocorreram, dificultando a concretização dos efeitos nos balanços das empresas,” explica Mollo.
Ainda segundo o analista, a taxa de juros permanece elevada, as famílias estão enfrentando altos níveis de endividamento e as margens de lucro do varejo não mostraram grandes melhorias nos resultados mais recentes. Para Mollo, essa situação deve persistir por algum tempo.
“Neste momento, não vejo motivo para investir no varejo. Precisamos aguardar mais sinais de recuperação e, especialmente, uma melhora nas margens antes de considerar investimentos. No atual cenário, acredito que seja muito arriscado investir, especialmente se a guerra no Oriente Médio continuar e acarretar um adiamento mais longo no controle das taxas de juros pelos bancos centrais,” opina o analista.
Expectativas para os Resultados do Varejo
No que diz respeito às previsões, o BTG Pactual indica que o varejo de alimentos, por sua natureza inelástica, apresentou sinais de fraqueza nos últimos trimestres, tendência que provavelmente se refletirá no primeiro trimestre deste ano. Para o setor farmacêutico, o banco projeta que os resultados da Raia Drogasil devem se manter sólidos, alinhados aos dados positivos da Sindusfarma — impulsionados, em grande parte, pela demanda elevada por medicamentos GLP-1 — embora se observe uma desaceleração em relação ao final de 2025.
O setor de vestuário, que havia demonstrado um desempenho inferior, especialmente no que diz respeito à receita, está apresentando os primeiros indícios de uma recuperação gradual, de acordo com a análise do banco.
No âmbito do comércio eletrônico, persiste uma grande discussão sobre o equilíbrio entre crescimento e lucratividade. O Mercado Livre é esperado para se destacar em termos de volume bruto de mercadorias movimentadas.
Os analistas enfatizam que, nos últimos três anos, o setor se transformou de uma abordagem focada em crescimento a qualquer custo para um modelo que prioriza a monetização. “Entretanto, essa dinâmica evoluiu novamente desde meados do ano passado. A intensificação da concorrência de plataformas como Shopee, Amazon e TikTok Shop, bem como a competição proveniente de agregadores como iFood e Rappi, sinaliza a necessidade de investimentos contínuos em logística, atração de clientes e precificação, todos fatores que pressionam a rentabilidade,” afirmam.
Como consequência, o primeiro trimestre, assim como os dois trimestres anteriores, deverá refletir o impacto dos subsídios de frete e das iniciativas para adquirir novos clientes.
Preferências dos Analistas
Os analistas do BTG mostram preferência por empresas de alta qualidade, que apresentem crescimento de maneira consistente, com direções claras de expansão e um histórico robusto de execução, como varejistas farmacêuticos, SmartFit e marcas discricionárias premium, como Track & Field e C&A. Em contrapartida, o BTG adota uma postura mais cautelosa em relação a empresas cíclicas e altamente alavancadas, onde a visibilidade sobre o desempenho futuro ainda é limitada.
Do ponto de vista do Santander, destaca-se que os resultados da C&A (CEAB3), Riachuelo (RIAA3) e Arcos Dourados (ARCO) devem ser considerados os pontos positivos deste período, enquanto os balanços do Grupo Mateus (GMAT3) e Azzas 2154 (AZZA3) tendem a ser mais fracos.
Adicionalmente, os analistas do banco sugerem a observação de três empresas durante essa temporada de divulgação de resultados: Mercado Livre (MELI34), Smart Fit (SMFT3) e Vivara (VIVA3).
Fonte: www.moneytimes.com.br

