Por que a "fragilidade" econômica é, na verdade, uma oportunidade para conquistar a autonomia tecnológica

Por que a “fragilidade” econômica é, na verdade, uma oportunidade para conquistar a autonomia tecnológica

by Ricardo Almeida
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Meta de Crescimento Econômico da China

A meta de crescimento econômico entre 4,5% e 5%, recentemente anunciada pela China, tem gerado interpretações variadas entre analistas internacionais. Para especialistas que estão habituados às taxas de crescimento de dois dígitos que caracterizaram a economia chinesa nas últimas décadas, esse intervalo pode parecer modesto.

Algumas análises mais pessimistas interpretam esse objetivo como um sinal de perda estrutural de dinamismo, ou até mesmo como um indício de um possível declínio econômico. No entanto, essa percepção desconsidera um aspecto fundamental: a economia chinesa contemporânea é profundamente diferente da economia chinesa de duas décadas atrás.

Com um PIB superior a US$ 17,7 trilhões, a China representa cerca de 18% da economia mundial. Portanto, crescer entre 4,5% e 5% ao ano implica adicionar aproximadamente entre US$ 800 bilhões e US$ 900 bilhões em nova produção econômica anualmente. Esse incremento anual equivale ao tamanho de economias inteiras como a Suíça ou a Arábia Saudita. Em resumo, mesmo com taxas de crescimento mais moderadas do que as registradas no passado, a China continua a ser um dos principais motores da expansão econômica global.

Transformação Estrutural do Modelo Econômico

A nova meta deve ser entendida dentro de uma transformação estrutural do modelo econômico chinês, conduzida nos últimos anos. Durante mais de 30 anos, o crescimento do país foi impulsionado principalmente por exportações manufatureiras e investimentos intensivos em infraestrutura e construção imobiliária. Esse modelo demonstrou ser altamente eficaz para acelerar a industrialização e integrar a China às cadeias globais de produção.

Nos últimos cinco anos, a política econômica chinesa passou a enfatizar um novo equilíbrio. O objetivo é fortalecer o mercado interno, distribuir renda de forma mais equitativa, expandir o consumo das famílias e aumentar o peso da inovação tecnológica no crescimento econômico. Essa transição exige, necessariamente, um ritmo de crescimento mais moderado, que permita ajustes estruturais fundamentais no mercado sem gerar instabilidade econômica.

Nesse contexto, o intervalo de crescimento entre 4,5% e 5% funciona como uma espécie de zona de estabilidade macroeconômica, permitindo à economia chinesa consolidar seu novo modelo de desenvolvimento no primeiro ano do 15º plano quinquenal.

Fortalecimento do Mercado Interno

Um dos aspectos centrais dessa transformação é a redução gradual da dependência externa da economia chinesa. Em meados dos anos 2000, as exportações representavam mais de 36% do PIB da China; hoje, essa participação caiu para cerca de 19% do PIB, refletindo uma economia muito mais orientada para o mercado doméstico.

Esse processo é fortalecido pelo tamanho do mercado interno chinês. Atualmente, o país possui mais de 400 milhões de consumidores de classe média, constituindo um dos maiores mercados consumidores do mundo. O aumento da renda média, a erradicação da pobreza, a urbanização contínua e a expansão da economia digital têm ampliado o papel do consumo interno na dinâmica econômica do país.

Essa mudança estrutural também reduz significativamente a vulnerabilidade da China a choques externos. Recentes análises argumentam que tensões geopolíticas envolvendo rotas energéticas ou conflitos em regiões produtoras de petróleo poderiam fragilizar a economia chinesa. Contudo, a evolução da estrutura energética e industrial do país sugere uma realidade diferente.

Presença nas Cadeias de Economia Verde

A China tornou-se uma líder global em energias renováveis, respondendo atualmente por cerca de 50% da capacidade global instalada de energia solar e eólica. No setor de energia solar, empresas chinesas produzem mais de 80% dos painéis fotovoltaicos do mundo. Essa liderança reduz gradualmente a dependência energética externa e fortalece a posição do país na transição energética global.

Além disso, a economia chinesa consolidou uma posição dominante em diversos ecossistemas e cadeias industriais estratégicas. As empresas chinesas respondem por mais de 60% das vendas globais de veículos elétricos e controlam a maior parte da cadeia mundial de produção de baterias de lítio. Em 2025, a China alcançou um avanço significativo na indústria de semicondutores, dominando a produção e exportação de chips de 7 nanômetros com tecnologia própria, evidenciando uma transformação da estrutura produtiva que passa a competir com base em tecnologia e inovação.

Investimentos em Pesquisa e Desenvolvimento

Essa transformação tecnológica é sustentada por investimentos crescentes em pesquisa e desenvolvimento. Em 2023, os gastos chineses em P&D ultrapassaram 3 trilhões de yuans, equivalentes a aproximadamente US$ 420 bilhões, o que representa cerca de 2,6% do PIB. Em termos absolutos, a China já é o segundo maior investidor mundial em inovação, atrás apenas dos Estados Unidos.

Internacionalização do Renminbi (RMB)

Outro elemento frequentemente subestimado nas análises sobre o futuro da economia chinesa é a crescente internacionalização do renminbi (RMB). Nos últimos anos, o uso internacional da moeda chinesa progrediu de forma gradual, mas consistente. Atualmente, o RMB já representa aproximadamente 4% a 5% dos pagamentos globais, tornando-se uma das moedas mais utilizadas no comércio internacional.

O crescimento do uso do renminbi no comércio bilateral entre países emergentes e em acordos financeiros regionais é particularmente relevante. A China estabeleceu acordos de swap cambial com dezenas de bancos centrais e tem incentivado a liquidação de comércio exterior diretamente em RMB, reduzindo a dependência de moedas intermediárias e ampliando a autonomia financeira do país.

A expansão do sistema de pagamentos internacional chinês, o CIPS, e o desenvolvimento de centros financeiros offshore em renminbi também contribuem para fortalecer o papel internacional da moeda chinesa. Esse avanço não indica a substituição do dólar no curto prazo, mas sinaliza uma tendência de maior diversificação no sistema monetário internacional.

Inteligência Artificial e Envelhecimento da População

Críticos frequentemente citam o envelhecimento da população chinesa como um fator preocupante. De fato, a China enfrenta transformações demográficas significativas nas próximas décadas, mas esse fenômeno também é observado em diversas economias avançadas. No entanto, no caso chinês, os efeitos demográficos estão sendo, em parte, compensados por ganhos expressivos de produtividade advindos da aplicação de inteligência artificial (IA) na manufatura e nos produtos do cotidiano.

A China tem se tornado o maior mercado mundial de robótica industrial, respondendo por mais da metade das novas instalações globais de robôs industriais nos últimos anos. Simultaneamente, o país forma anualmente milhões de graduados em engenharia, ciência e tecnologia, fortalecendo sua base de capital humano e sua capacidade de inovação.

Nível de Endividamento Sustentável

Outro aspecto que frequentemente gera críticas é o nível de endividamento da economia chinesa, que supera 100% do PIB. Embora esse número possa parecer elevado à primeira vista, é importante ressaltar que a maior parte dessa dívida é interna e denominava em moeda local. Ademais, a China apresenta uma taxa de poupança extremamente alta, próxima a 44% do PIB, oferecendo uma base robusta de financiamento interno.

A posição financeira agregada do país continua sólida quando se observar outros indicadores macroeconômicos. A China possui reservas internacionais superiores a US$ 3 trilhões, um sistema bancário majoritariamente doméstico e uma forte capacidade de coordenação estatal do crédito. Ao contrário de muitas economias emergentes, a dívida externa representa apenas uma fração limitada do total, diminuindo os riscos cambiais e de fuga de capitais.

Paralelamente, o novo modelo de crescimento baseado em indústrias de alta tecnologia, como semicondutores, veículos elétricos, inteligência artificial e energias renováveis, amplia a base produtiva e gera novas receitas tributárias, fortalecendo a capacidade fiscal do Estado.

Nesse cenário, o alto nível de poupança interna e a profundidade do sistema financeiro permitem que o endividamento funcione predominantemente como instrumento de investimento produtivo, e não como um fator estrutural de instabilidade econômica.

Fonte: www.moneytimes.com.br

As informações apresentadas neste artigo têm caráter educativo e informativo. Não constituem recomendação de compra, venda ou manutenção de ativos financeiros. O mercado de capitais envolve riscos e cada investidor deve avaliar cuidadosamente seus objetivos, perfil e tolerância ao risco antes de tomar decisões. Sempre consulte profissionais qualificados antes de realizar qualquer investimento.

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