Perspectivas para a Taxa Selic no Brasil
O economista-chefe do BTG Pactual e ex-secretário do Tesouro Nacional, Mansueto Almeida, afirmou que existe potencial técnico para o início do ciclo de cortes na taxa Selic em março. Entretanto, ele alertou que, na ausência de um plano fiscal credível, o Brasil continuará enfrentando juros reais elevados.
Análise do Evento no BTG Pactual
Durante um evento realizado na sede da B3, em São Paulo, Almeida avaliou que o Banco Central poderia ter iniciado o afrouxamento monetário já na última reunião, ocorrida na quarta-feira (28). No entanto, a decisão foi adiada em razão de uma comunicação mais rigorosa adotada ao longo de 2025.
“O corte já poderia ter ocorrido, mas essa foi a escolha do Banco Central. Como não houve uma sinalização clara indicando que o processo se iniciaria em janeiro, optou-se por seguir a percepção do mercado, que agora acredita que o ciclo começará apenas em março,” disse o economista.
Expectativa de Juros Altos
Embora o afrouxamento monetário pareça iminente, Almeida advertiu que o país deve encerrar 2026 com taxas de juros ainda consideravelmente elevadas, especialmente ao se considerar a taxa real.
“É importante ser claro a esse respeito. Independentemente de cortes, devemos terminar este ano com uma Selic muito alta. Se tivermos uma expectativa otimista, podemos estimar uma taxa de 12% em dezembro. Com uma inflação projetada em 4%, isso resultaria em um juro real de 8%,” afirmou.
Desafios Fiscais no Brasil
Segundo Mannueto, o principal obstáculo não reside propriamente na política monetária, mas na trajetória fiscal do país.
Ele destacou que os juros reais de longo prazo estão atualmente em torno de 7,5% ao ano nas NTN-Bs (títulos do Tesouro Direto vinculados ao IPCA), comparados a cerca de 5,3% no início de 2024.
“Nenhum país consegue estabilizar a dívida pública mantendo juros reais de curto prazo próximos a 10% e de longo prazo superiores a 7%,” ressaltou. “Quem quer que seja o presidente a partir de 2027 terá de enfrentar a questão fiscal. Caso contrário, os juros a longo prazo não recuarão.”
Comparação com a Crise de 2015
Ao comparar a situação atual com a crise econômica de 2015 e 2016, Mansueto sugeriu que o Brasil vive, nesse momento, um cenário bastante diferente.
No período mencionado, o Brasil atravessava uma profunda recessão, com uma queda acumulada de 7% no PIB, um colapso nos investimentos, taxas de desemprego superiores a 10% e problemas estruturais em setores-chave, como petróleo, energia e mercado imobiliário. “Nada disso existe hoje,” afirmou.
De acordo com o economista, o mercado de trabalho apresenta sinais de aquecimento, com uma taxa de desemprego de 5,1%, a menor registrada na série histórica. Não há grandes desequilíbrios setoriais que comprometam a estabilidade econômica do país.
“A Petrobras está ajustada, a Eletrobras foi privatizada e o setor imobiliário apresenta resultados positivos há vários anos. O problema central é de natureza fiscal,” acrescentou.
Ajustes Necessários para a Dívida Pública
Mansueto estimou que, para estabilizar a dívida pública, será necessário realizar um ajuste da ordem de R$ 250 bilhões, algo que, em sua análise, não pode ser implementado de maneira brusca.
Ele também reconheceu os avanços recentes no resultado primário, mas observou que essa melhoria se deu, principalmente, em virtude do aumento da arrecadação tributária, enquanto as despesas continuam a crescer de forma acelerada.
Dados do Tesouro Nacional citados pelo economista indicam que, entre 2014 e 2022, o aumento real acumulado dos gastos públicos federais não financeiros foi de 9%. Já entre 2023 e 2026, esse crescimento deve chegar a 20%.
“Não faz sentido, em nenhum país do mundo, ter um crescimento real de despesas dessa magnitude com a economia próxima ao pleno emprego,” concluiu.
Proposta para um Plano Crível
Mansueto também defendeu a necessidade de revisar regras de indexação automática. Ele recordou a experiência do governo Temer, entre 2016 e 2018, quando o controle das despesas contribuiu para uma queda rápida na inflação e na Selic. “Em dois anos, a taxa de juros caiu de 14,25% para 6,5%,” destacou.
O economista explicou que, se o próximo presidente apresentar um plano credível para o controle das despesas, ainda que a dívida continue a aumentar em curto prazo, o mercado tenderá a antecipar esse ajuste.
“Se houver clareza sobre a intenção de que a dívida vai parar de crescer e começar a diminuir ao longo do mandato, é plausível que, já em 2027, possamos vislumbrar um cenário de queda significativa nas taxas de juros,” projetou.
Fonte: www.moneytimes.com.br