O Fenômeno do Offline entre os Jovens
O gerente de contas Matt Richards, 23 anos, excluiu todos os aplicativos de mídia social de seu telefone no ano passado e ficou surpreso ao perceber que sua vida melhorou consideravelmente. Desde que começou a usar um smartphone aos 11 anos, Richards, como muitos da Geração Z e millennials, cresceu imerso na tecnologia. Contudo, nos últimos anos, ele notou que as redes sociais deixaram de ser divertidas, com conteúdos gerados por inteligência artificial dominando seu feed, influencers promovendo marcas e comparações constantes de estilos de vida.
“Acredito que, antigamente, as pessoas costumavam se desconectar do mundo real ao usar o celular, mas agora estão se desconectando do celular para aproveitar melhor a vida real”, afirmou Richards em entrevista ao CNBC Make It. Ao perceber que muitos de seus amigos compartilharam essa percepção, ele notou benefícios imediatos, que iam desde a conexão mais profunda com as pessoas ao seu redor até um aumento na sua autoconfiança.
Essa tendência de se afastar das redes sociais, que muitos jovens estão adotando, está se tornando viral de forma irônica nas mesmas plataformas que estão sendo prontamente deixadas de lado. Um aumento significativo no número de vídeos no TikTok apresenta jovens fazendo votos de eliminar os aplicativos de mídia social até 2026, ao mesmo tempo em que se dedicam a hobbies analógicos e atividades presenciais.
A Resposta ao Offline
Ao descobrir essa tendência, decidi fazer uma postagem no LinkedIn para ver se havia jovens dispostos a compartilhar suas experiências sobre desligar-se do mundo digital. Para minha surpresa, recebi quase 100 respostas de integrantes da Geração Z e millennials, que compartilharam suas histórias sobre desintoxicações de mídias sociais e o esgotamento digital. Eles relataram ter trocado seus smartphones por celulares tipo ‘flip’, visitar lojas de discos para comprar vinil, embarcar em hobbies analógicos como tricô e, mais importante, interagir com amigos pessoalmente.
Uma pesquisa de tendências de consumo da Deloitte, realizada com mais de 4.000 britânicos, revelou que quase um quarto dos consumidores havia eliminado um aplicativo de mídia social nos últimos 12 meses, número que chega a quase um terço entre os membros da Geração Z. Paralelamente, o uso de redes sociais tem mostrado uma queda constante, com o tempo gasto nas plataformas atingindo seu auge em 2022, conforme análises sobre os hábitos online de 250.000 adultos em mais de 50 países realizadas pelo Financial Times e pela empresa de insights digitais GWI. Globalmente, adultos com 16 anos ou mais passaram, em média, duas horas e 20 minutos por dia em plataformas sociais ao final de 2024, o que representa uma redução de quase 10% desde 2022, sendo a diminuição ainda mais acentuada entre adolescentes e jovens adultos.
Jason Dorsey, presidente do Center for Generational Kinetics, mencionou que o aumento do “descontentamento e da divisibilidade” online, incluindo ações de líderes e políticos, está afastando os jovens das redes sociais, que buscam um maior controle sobre suas vidas. “Estamos observando um grupo da Geração Z [e millennials] escolhendo deixar completamente as mídias sociais, e provavelmente um grupo ainda maior que está optando por limitar seu uso dessas plataformas, buscando recuperar um pouco do que estão tentando encontrar: equilíbrio, segurança e proteção em suas vidas”, afirmou Dorsey em conversa com o CNBC Make It.
Apressão das Redes Sociais
Os jovens que têm excluído suas plataformas de socialização digital citam as crescentes pressões de estar online, além dos danos à saúde mental, como motivos principais. A pesquisa da Deloitte destacou que quase um quarto dos entrevistados que apagaram suas contas nas mídias sociais afirmou que a experiência teve impacto negativo em sua saúde mental e consumia muito tempo.
“Sinto que as mídias sociais hoje em dia se tornaram uma plataforma de pressão… você está sendo vendido a todo momento”, declarou Richards, acrescentando que sentia não ter coisas suficientes ou ter realizado conquistas relevantes em sua carreira.
“Estamos definitivamente vendo uma tendência onde as pessoas que estão offline, inatingíveis, possuem uma espécie de apelo cool… essa pessoa não precisa de validação”, comentou Matt Richards.
Da mesma forma, a empreendedora millennial Lucy Stace, 36 anos, compartilhou com a CNBC Make It que está restringindo seu uso das redes sociais porque isso “diminui” sua saúde mental, apesar de as plataformas serem essenciais para seu negócio. “Estamos sempre sendo bombardeados com informações… nossos cérebros não são capazes de lidar com tanta informação. Estamos, na verdade, diminuindo a capacidade de olhar para dentro e ouvir a nós mesmos, enquanto etiquetamos com valor coisas que não são, de fato, importantes para nós”, disse Stace.
De acordo com Dorsey, os gigantes da tecnologia enfrentam “tremenda pressão” para monetizar tudo e impulsionar receitas e lucros, o que é repulsivo para as gerações mais jovens. “O resultado disso é que a Geração Z, que já é sensível a publicidades — sendo a geração mais exposta a anúncios na história — agora enfrenta uma avalanche ainda maior de propagandas, fazendo seus feeds parecerem um contínuo comercial”, comentou Dorsey.
O Novo Cool é Ser Offline
Com a mudança de cenário em relação às mídias sociais, Matt Richards notou que aqueles que optaram por se desligar tornaram-se mais interessantes. No passado, ter um grande número de seguidores era visto como algo atrativo, mas essa percepção começou a perder seu encanto. “Definitivamente, estamos observando uma tendência onde pessoas que estão offline e são inalcançáveis possuem uma espécie de apelo cool, pois não precisam de validação por conta de quantas curtidas ou seguidores possuem… e estão vivendo como se estivessem nos anos 80”, acrescentou.
A gerente de mídias sociais Julianna Salguero, 31 anos, afirmou que as redes sociais deixaram de ser interessantes quando políticos e marcas passaram a utilizar essas plataformas. “Quanto mais vemos marcas e oficiais governamentais engajando-se nesse ambiente, mais se torna desejável se afastar e mudar o foco”, disse. À medida que a geração digital enfrenta desafios para fazer amizades e encontrar parceiros, eles estão buscando eventos presenciais, que vão de encontros rápidos a redes de relacionamento profissional, citando altos níveis de solidão e isolamento como fatores chave para essa mudança.
A docente de mídia digital da Universidade de Sheffield, Ysabel Gerrard, mencionou que sair das redes sociais é uma maneira para os jovens retomarem o controle de suas vidas. As mídias sociais forçam os usuários a passarem por um “processo extremamente exaustivo” de construção de identidade e edição de si mesmos. “Há uma quantidade impressionante de literatura agora que aponta que a pessoa que somos nas redes sociais não é, e não pode ser, a mesma que somos em interações presenciais”, explicou Gerrard à CNBC Make It. “É muito mais do que uma simples tendência”.
Entretanto, o analista da GWI, Chris Beer, declarou que não está tão convencido de que os achados do FT e da GWI reflitam uma mudança estrutural, mas sim uma “correção legítima pós-pandêmica”, com as pessoas passando menos tempo em casa e, consequentemente, menos tempo nas redes sociais. Ele observou que essa mudança se deve “em grande parte à alocação estrutural de tempo”, especialmente entre os usuários mais jovens, ao invés de uma ampla rejeição das mídias digitais como um todo, dado que as redes sociais ainda fazem parte da vida das pessoas em aspectos como compras, notícias e educação.
A Volta ao Analógico
Em uma postagem no Substack em setembro, a gerente de mídias sociais Salguero expressou saudades de viver na década de 1990, quando aplicativos de namoro e o ‘scrolling’ infinito não eram requisitos essenciais da vida jovem. O artigo intitulado “Como ter um outono analógico” não falava sobre realizar desintoxicações digitais ou estabelecer temporizadores para limitar o uso de redes sociais. Pelo contrário, Salguero delineou uma variedade de hobbies que podem ser explorados fora do ambiente digital, como escrever cartas à mão, sair para almoçar com amigos ou optar por mídias físicas como jornais.
Essa postagem recebeu 5.000 curtidas, e Salguero revelou à CNBC que sua busca pelo analógico representa uma “revolução silenciosa” contra o excesso de mídias sociais, transmissões e conteúdo. Quando se passa muito tempo nesse mundo digital, o cérebro começa a perceber as coisas de forma algorítmica. Para ela, “ir para o analógico” não se trata apenas de descartar o celular, mas de entender “como redefinir meu relacionamento com a tecnologia”.
De fato, um número crescente de jovens está investindo em mídias físicas, como a compra de discos de vinil e toca-discos, ao buscarem uma pausa da vida digital. Alguns estão também investindo em celulares ‘flip’, um relicário do início dos anos 2000. Atualmente, a empreendedora Stace e seu namorado começaram a construir uma coleção de discos e costumam visitar lojas de discos sempre que possível. Paralelamente, após excluir todos os aplicativos de redes sociais de seu smartphone, Richards afirmou que a sua conversa com a CNBC Make It o motivou a também adquirir um celular mais simples.
Fonte: www.cnbc.com


