Custo do Crédito no Brasil: Uma Análise Detalhada
A percepção de que o crédito no Brasil continua caro, mesmo durante períodos de alívio na taxa básica de juros, não é apenas uma impressão do consumidor. Uma análise dos dados do Banco Central (BC) confirma essa perspectiva. Essa situação é explicada menos por causas conhecidas, como o desequilíbrio das contas públicas, e mais pelo patamar estrutural aleatório da taxa Selic, além das distorções que isso provoca na economia.
O Indicador de Custo de Crédito (ICC)
A avaliação se baseia em um dado calculado pelo Banco Central, conhecido como Indicador de Custo de Crédito (ICC). Este indicador representa o custo médio efetivo de todo o estoque de crédito do Sistema Financeiro Nacional, refletindo não apenas as novas concessões, mas também todos os contratos já existentes. Isso o torna diferente da taxa média das novas contratações.
O que o ICC representa?
O ICC indica a margem média que os bancos e financeiras obtêm sobre o custo de captação no estoque total de crédito. Ele reflete, entre outros aspectos:
- Inadimplência esperada e realizada
- Custos administrativos e operacionais
- Impostos e encargos sobre as operações
- Lucro (margem líquida) das instituições financeiras
- Compulsórios e custos regulatórios
Devido a essa abrangência, o ICC é um dos indicadores mais utilizados para avaliar a eficiência e a competitividade do mercado de crédito brasileiro, que historicamente apresenta spreads elevados em comparação a outros países. O Banco Central acompanha a evolução desse indicador como parte da agenda de competitividade bancária.
Análise dos Números do ICC
Analisando a série histórica do ICC disponível no BC, que abrange de janeiro de 2013 até fevereiro de 2026, podemos observar que a política monetária do Banco Central passou por diversas variações. As mudanças vão desde uma abordagem francamente expansionista na primeira metade da década de 2010, durante o segundo mandato de Dilma Rousseff, até uma política fortemente contracionista a partir de 2024.
Três Pontos Interessantes sobre o ICC
É possível perceber três pontos relevantes:
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A maior variância ocorre no ICC das pessoas físicas, que oscilou de um mínimo de 16,5 pontos percentuais em dezembro de 2020 até um máximo de 21,21 pontos percentuais em fevereiro de 2017.
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Para as empresas, a variância é menor, com picos e vales que coincidem temporalmente com os do ICC das pessoas físicas. O máximo registrado foi de 8,09 pontos percentuais em fevereiro de 2017, enquanto o mínimo foi de 5,90 pontos percentuais no fim de 2020.
- De forma geral, o ICC apresenta um piso claro, não recuando abaixo de 6 pontos percentuais, o que evidencia um spread estruturalmente alto.
Concentração no Sistema Financeiro
Uma parte significativa da explicação para esses dados reside na concentração do sistema financeiro. Com um número reduzido de instituições financeiras operando no mercado de crédito, o consumidor enfrenta uma situação de oligopólio, que garante preços elevados para os empréstimos. Contudo, a maior parte da explicação está relacionada ao custo elevado do dinheiro, indicado pela taxa Selic.
A queda do spread entre 2020 e 2021 foi dominada pela redução da Selic, um fator macroeconômico, e não por ganhos estruturais de competitividade. A alta subsequente refletiu ciclos de aperto monetário, inadimplência e riscos associados. O ambiente bancário mantém uma concentração em que cerca de 80% dos ativos estão nas mãos dos cinco maiores bancos.
Impactos do Open Finance e Fintechs
O sistema de open finance e as fintechs têm gerado pressões competitivas em nichos específicos. No entanto, estudos acadêmicos realizados por instituições como a FGV, UFRJ/IE e IBRE, indicam que os grandes bancos têm reagido de maneira proativa para manter sua posição dominante no mercado.
A queda do spread no período de 2020 a 2021 não deve ser atribuída exclusivamente ao aumento da competição. Essa redução reflete, em grande medida, a diminuição da taxa Selic, que atingiu o valor mínimo histórico de 2% ao ano em agosto de 2020. O spread ICC, sendo calculado sobre o estoque de contratos vigentes, absorve essas variações de forma gradual.
Analisando os Juros
Uma análise das séries do Banco Central permite decompor o processo de formação das taxas de juros em três elementos principais: o custo de captação dos bancos, a taxa efetivamente cobrada nas operações de crédito e o spread, que é a diferença entre esses dois pontos.
Tomando o mês de fevereiro de 2026 como referência, observa-se que a taxa média de juros cobrada nas operações de crédito chegou a 32,96% ao ano, enquanto o custo de captação dos bancos era de 24,88%. O spread, no período, foi de 1% ao mês.
Esse cenário pode parecer inicialmente incompatível com o spread informado, mas a explicação está na base de cálculo, uma vez que o spread é apresentado em termos mensais, equivalente a cerca de 12% ao ano quando convertido.
Demanda Inelástica
Um aspecto importante a ser destacado sobre o mercado de crédito no Brasil é a demanda por crédito, que se demonstra elevada e relativamente insensível a fatores de preço. Esse conceito econômico pode ser sintetizado na afirmação de que tomadores de crédito, especialmente pessoas físicas, não avaliam minuciosamente as taxas de juros. Desde que a parcela mensal caiba no orçamento, o crédito é adquirido.
Para pessoas jurídicas, a dinâmica é um pouco diferente. À medida que o porte da empresa (e seu potencial financeiro) aumenta, pode haver uma maior seletividade em relação ao crédito. Por isso, o spread para empresas tende a ser menor que o para pessoas físicas.
Trajetória dos Juros
A análise histórica de 2015 a 2026 revela que o comportamento do crédito no Brasil acompanha os ciclos da política monetária, mas não de forma simétrica. Entre 2016 e 2020, o Brasil viveu um ciclo de queda na taxa Selic, que passou de mais de 14% ao ano para níveis próximos de 2%, reduzindo assim significativamente o custo básico do dinheiro.
Nesse contexto, o custo de captação dos bancos também diminuiu, caindo de níveis próximos a 20% ao ano para cerca de 18%. Embora as taxas de crédito tenham acompanhado essa tendência, o movimento se deu de maneira mais moderada, permanecendo acima de 22% ao ano em várias ocasiões.
Alta dos Juros e Repasse Quase Imediato
Com a reversão da tendência em 2021, iniciou-se um ciclo de aumento da Selic no pós-pandemia, que atingiu novamente níveis de dois dígitos, chegando a 15% ao ano, a maior taxa vigente desde 2006.
Nesse cenário, o custo de captação dos bancos subiu de maneira consistente, oscilando entre 20% e 22% ao ano, enquanto as taxas de crédito se elevaram praticamente na mesma proporção, ultrapassando 30% ao ano. Isso indica uma transmissão rápida da alta de custos para os tomadores finais, um reflexo da dominação do mercado por grandes instituições financeiras.
Queda Recente da Selic e Resistência do Crédito
O aspecto mais relevante nos dados mais recentes mostra que, a partir de 2024, iniciou-se um novo ciclo de redução da Selic, provocando queda no custo do dinheiro. Entretanto, as taxas de crédito permanecem elevadas, variando entre 28% e 32% ao ano.
O exemplo de fevereiro de 2026 ilustra esse comportamento: mesmo com uma captação em 24,88%, a taxa média de crédito seguia próxima a 33%.
O Papel do Spread e as Implicações para a Economia
A análise conjunta dos períodos demonstra um padrão consistente: os bancos tendem a repassar o aumento do custo do dinheiro com maior velocidade do que a redução. Essa assimetria ajuda a explicar por que o crédito permanece caro, mesmo durante quedas na taxa Selic. O ajuste nas taxas finais acontece, mas de forma mais lenta e incompleta.
Uma parte significativa dessa dinâmica está associada à natureza do spread, que abrange não apenas a margem de lucro, mas também inadimplência, custos operacionais, tributos e exigências regulatórias. Mesmo assim, o spread se mantém elevado ao longo do período analisado, contribuindo para taxas finais que permanecem consideravelmente acima do custo de captação.
Na prática, essa configuração impacta diretamente o custo do crédito para famílias e empresas, limitando o efeito positivo dos ciclos de flexibilização monetária sobre o consumo e o investimento.
Fonte: www.moneytimes.com.br