Qual das opções tem maior impacto no mercado e nos seus investimentos?

Impacto do Cenário Externo e Geopolítico na Economia Brasileira

Nos últimos meses, o contexto externo e geopolítico tem se tornado um fator de destaque na análise das carteiras de investimentos. Um dos principais aspectos desse cenário é a imposição de tarifas pelos Estados Unidos sobre produtos brasileiros, que podem alcançar uma sobretaxa acumulada de 37,5%. Em contraponto, a guerra no Oriente Médio elevou o preço do barril de petróleo do tipo Brent, que subiu de US$ 70 para um pico de US$ 120.

Entender qual desses fatores exerce um peso mais significativo sobre a bolsa de valores e sobre os investimentos é uma questão que gera divisões de opiniões entre os especialistas consultados. Eles consideram questões como câmbio, inflação e taxa de juros nessa análise.

Tarifas: Efeito no Câmbio, Inflação e Juros

Rafael Dadoorian, assessor de investimentos e sócio-fundador da Convexa Investimentos, destaca que a dificuldade em prever a duração do choque tarifário se deve à natureza variável das tarifas. Ele menciona que, desde o “Dia da Libertação”, em 2 de abril de 2025, as alíquotas impostas pelo governo americano têm mudado consideravelmente. Em um cenário conservador, ele estima que a sobretaxa de 37,5% permaneça por pelo menos 12 meses.

Segundo Dadoorian, o efeito geral das tarifas é negativo para setores fundamentais da economia brasileira, o que pode impactar o fluxo de dólares provenientes das exportações. A apreciação do dólar tende a pressionar a inflação, dificultando a redução da taxa Selic, que atualmente está em 14,25%. O especialista ainda observa que o governo poderia ser pressionado a adotar medidas compensatórias para os setores afetados, amplificando o desequilíbrio das contas públicas.

Milene Dellatore, especialista em investimentos do Grupo Mide, também considera que as tarifas terão um impacto prolongado. Ela aponta que essas medidas afetam cerca de 23,1% das exportações brasileiras destinadas ao mercado dos EUA. No médio prazo, que varia de seis meses a dois anos, o impacto se torna mais evidente nas margens, volumes exportados, investimentos e empregos.

Arthur Müller, sócio da Cordier Investimentos, vê a indefinição das tarifas como o principal desafio. Ele argumenta que a incerteza causada pelas flutuações nas alíquotas gera um risco maior que os investidores precisam considerar.

Os especialistas concordam que os títulos de renda fixa prefixados com prazos mais longos são os mais afetados. Dadoorian explica que esses títulos já levavam em conta uma queda nas taxas de juros em 2027 e 2028, o que pode não acontecer na medida esperada, comprometendo a rentabilidade dos papéis. Dellatore acrescenta que, em um cenário de tarifas, títulos atrelados ao IPCA oferecem proteção contra a inflação, enquanto os pós-fixados, como Tesouro Selic e CDBs atrelados ao CDI, seguem o nível dos juros.

Dentro da bolsa de valores, Dadoorian observa que os setores de papel e celulose e siderurgia são os mais afetados, uma vez que as tarifas não incidiram sobre carne, café e peças de aeronaves. No entanto, é necessário fazer uma análise individualizada, pois algumas empresas têm operações nos EUA que podem reduzir o impacto. Se as barreiras tarifárias persistirem, as exportadoras podem estabelecer operações triangulares com países que enfrentam tarifas menores.

Müller inclui na lista de setores afetados vestuário, calçados, máquinas e equipamentos, móveis e autopeças. Dellatore menciona algumas empresas listadas na bolsa que, embora impactadas, têm opções para minimizar os efeitos. Exemplos incluem WEG, com uma parte entre 8% e 10% de sua receita originada dos EUA; Randoncorp, Marcopolo e Tupy, todas com entre 25% e 30% de sua receita ligada ao mercado americano. Proporções similares também se aplicam à Kepler Weber, que já possui produção fora do Brasil.

Conflito no Oriente Médio: O Petróleo em Foco

Enquanto as tarifas influenciam o câmbio, a guerra no Oriente Médio afeta diretamente o preço do petróleo. Dadoorian observa que a resolução do conflito tomou um rumo inesperado, já que as previsões inicialmente indicavam uma resolução rápida. O Irã, ao interromper as exportações pelo Estreito de Ormuz, ganhou vantagem militar. O preço do Brent, que era de US$ 70 antes da guerra, saltou para US$ 120 e atualmente oscila entre US$ 80 e US$ 90. Ele observa que não se espera uma solução rápida ou fácil para esse conflito.

Müller reforça que enquanto houver risco relacionado ao Estreito de Ormuz, a principal rota de petróleo do mundo, o mercado permanecerá nervoso, criando um ambiente desfavorável para investimentos.

De acordo com Dellatore, cerca de 20 milhões de barris de petróleo são movimentados pelo Estreito de Ormuz diariamente. Mesmo com um cesse-fogo, a normalização pode levar de dois a três meses. Em cenários prolongados, os efeitos podem durar anos.

A guerra também gera preocupação em relação à inflação, dado o aumento nos custos de combustíveis e petróleos. Com isso, as expectativas do mercado são prejudicadas, levando o Banco Central a manter taxas de juros elevadas por um período prolongado, o que penaliza novamente os títulos prefixados a longo prazo.

No mercado de ações, a alta do petróleo beneficia principalmente as empresas do setor, com destaque para Petrobras, Prio, Brava Energia e Petrorecôncavo. Contudo, Dellatore alerta que existem fatores políticos que também podem influenciar principalmente as estatais, como a Petrobras. Na contramão, as companhias aéreas como Azul e Gol enfrentam dificuldades em função do aumento dos custos de combustível, enquanto outros setores, como logística e construção, também são afetados pelos juros altos.

Avaliação sobre a Prevalência Entre Guerra e Tarifas

Os especialistas consultados apresentam visões divergentes. Dadoorian argumenta que as tarifas têm um impacto mais significativo sobre a economia brasileira, pois afetam diversos setores, exercendo influência direta na taxa de câmbio, na inflação e nos juros. Ele menciona que, embora a guerra tenha consequências, seus efeitos são mais localizados, principalmente no setor de petróleo, e o Brasil não depende fortemente do Oriente Médio.

Por outro lado, Dellatore defende que a guerra apresenta um impacto superior sobre os investimentos, afetando a energia, a inflação e as taxas de juros, bem como o crescimento da economia global. Ela destaca que, embora as tarifas atinjam uma fração das exportações destinadas aos EUA, o Brasil tem a possibilidade de redirecionar suas vendas para mercados alternativos, como China e Europa.

Müller apresenta uma visão intermediária. Ele acredita que a guerra afeta mais os investidores, já que altera o custo do dinheiro para a economia como um todo, enquanto as tarifas têm um impacto mais restrito em setores que dependem do mercado americano. No entanto, ele observa que ambos os fatores causam danos, mas de maneiras distintas.

Estratégias para Proteger a Carteira de Investimentos

A despeito das diferenças entre tarifas e guerra, alguns pontos convergem na proteção da carteira do investidor. No curto prazo, Dadoorian recomenda a alocação em renda fixa pós-fixada, visando se proteger contra uma possível alta da inflação e dos juros. Para um horizonte mais longo, ele sugere a diversificação em termos de países e moedas, possibilitando investimentos no exterior a fim de preservar o patrimônio em face de uma potencial valorização do dólar frente ao real.

Müller defende a valorização de títulos atrelados ao IPCA como uma forma de proteção contra pressões inflacionárias, além de títulos pós-fixados enquanto a taxa Selic se mantiver elevada. Ele preconiza cautela em relação a títulos prefixados de longo prazo e sugere que o investidor foque em setores menos vulneráveis na bolsa, como saúde, infraestrutura e alimentação, que tendem a ser menos impactados pela volatilidade do câmbio e das taxas de juros.

Por sua vez, Dellatore enfatiza que a diversificação continua a ser a principal estratégia de proteção, combinando ativos de renda fixa, renda variável e investimentos internacionais. Ela ressalta que, em um cenário de incerteza e volatilidade, é fundamental que os investidores mantenham liquidez, evitem concentração excessiva de ativos, respeitem seus perfis de risco e realizem investimentos com clareza sobre as razões que fundamentam cada decisão tomada, uma vez que agir por impulso pode ser prejudicial.

Fonte: borainvestir.b3.com.br

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