A Intensificação dos Conflitos no Golfo Pérsico
Atos de Retaliação
Os ataques do Irã estão levando os estados do Golfo a um limite crítico, forçando-os a escolher entre a contenção e a retaliação. Os vizinhos do Golfo do Irã têm sido frequentemente alvo de drones e mísseis iranianos como parte das ações de retaliação da República Islâmica contra os bombardeios dos EUA e de Israel, que começaram no final de fevereiro.
A escalada mais recente e, possivelmente, mais significativa das hostilidades ocorreu esta semana, quando Teerã lançou ataques a mísseis contra o terminal de gás natural liquefeito (GNL) de Ras Laffan, no Qatar, como resposta ao ataque de Israel ao campo de gás South Pars, no Irã.
Os estados do Golfo — incluindo Qatar, Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos, Bahrein, Omã e Kuwait — manifestaram que os ataques iranianos à sua infraestrutura energética não podem passar em branco e que "um preço deve ser pago". No entanto, até agora, eles não tomaram medidas de retaliação.
Tensão e Paciência
Essa postura diplomática e defensiva, segundo analistas, não pode e não vai durar para sempre. Os estados do Golfo estão, provavelmente, avaliando quando, onde e como poderão mudar de uma posição neutra para uma mais ofensiva. A paciência entre os estados do Golfo parece estar se esgotando, com o ministro das Relações Exteriores da Arábia Saudita, príncipe Faisal bin Farhan Al Saud, alertando na manhã de quinta-feira passada que a tolerância para os ataques iranianos é limitada.
"É importante que os iranianos entendam que o reino, assim como seus parceiros que foram atacados e além, têm capacidades significativas que podem ser utilizadas, caso decidam fazê-lo", declarou o príncipe. "A paciência que está sendo demonstrada não é ilimitada. Eles [os iranianos] têm um dia, dois, uma semana? Não vou sinalizar isso." A CNBC solicitou um comentário adicional do ministério das Relações Exteriores.
Dilemas Estratégicos
Os líderes do Golfo enfrentam um dilema complexo enquanto o Irã continua a atacar sua infraestrutura crítica em toda a região. Apesar dos esforços diplomáticos extensivos nos últimos dois anos para permanecer neutros, os estados do Golfo se encontram no centro da linha de fogo do Irã, conforme afirma Torbjorn Soltvedt, analista sênior do Oriente Médio na empresa de inteligência de riscos Verisk Maplecroft.
"Medidas ativas para manter a neutralidade — como limitar o acesso dos EUA às bases na região — pouco ajudaram a proteger os estados do Golfo dos ataques iranianos. Mas qualquer decisão de tomar ações militares contra o Irã poderia desencadear uma retaliação iraniana ainda mais severa", observa. A decisão enfrentada pelos líderes do Golfo gira em torno de duas opções principais, ambas repletas de riscos significativos: intensificar a diplomacia e as medidas defensivas ou mudar para uma postura ofensiva para reduzir a capacidade do Irã de realizar ataques.
Respostas em Desacordo
Embora a retórica contra o Irã esteja se tornando cada vez mais assertiva, a concordância sobre uma resposta coordenada será desafiadora, uma vez que alguns estados foram mais afetados do que outros. Os Emirados Árabes Unidos relatam ter sido alvo de mais de 2.000 drones e mísseis iranianos desde o início da guerra, enquanto Omã, que tradicionalmente teve relações mais amigáveis com o Irã, foi atingido em menor escala. Por outro lado, Israel também sofreu ataques do Irã, mas suas múltiplas camadas de defesas aéreas têm proporcionado uma proteção significativa.
Envolvimento Estratégico e Provocações
Cálculos Políticos
Enquanto o ataque do Irã aos seus vizinhos pode parecer ilógico e autodestrutivo à primeira vista, especialistas afirmam que o objetivo da República Islâmica é causar o máximo de danos na região mais ampla, visando pressionar os estados do Golfo a influenciar as decisões dos EUA para que a guerra termine rapidamente.
O ex-presidente Donald Trump também buscou persuadir os estados do Golfo a se envolverem ativamente na guerra, a fim de reforçar as operações dos EUA e de Israel, mas eles têm se esforçado para manter uma postura predominantemente neutra.
O Limite da Retórica
O Irã parece estar equilibrando uma linha tênue entre provocar seus vizinhos e evitar uma escalada total. O presidente iraniano havia se desculpado com os vizinhos por ataques anteriores em março, antes dos ataques recomeçarem de forma contundente. Teerã também havia advertido Qatar, Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos sobre a necessidade de evacuar suas instalações energéticas antes do ataque a Ras Laffan.
Entretanto, as ameaças renovadas do Irã de atacar várias instalações energéticas em países vizinhos, após os ataques israelenses contra South Pars, reforçam a ideia de que danos mais severos podem estar a caminho. Os estados do Golfo terão que considerar a extensão que o Irã pode retaliar de forma mais severa e as chances de a República Islâmica sobreviver a um conflito prolongado.
Sustentabilidade da Postura Defensiva
Uma postura puramente defensiva pode se mostrar insustentável em caso de um conflito duradouro, conforme indicado por Hasan Alhasan, especialista sênior em Políticas do Oriente Médio no Instituto Internacional de Estudos Estratégicos. Isso é particularmente verdadeiro à medida que as violações das defesas aéreas e de mísseis, os estoques limitados de interceptores e "o custo exorbitante da defesa em relação ao ataque" começam a pesar sobre os estados do Golfo.
Se falharem em responder à agressão iraniana, correm o risco de perder a capacidade de estabelecer um fator de dissuasão, o que pode encorajar futuros ataques do Irã. Afinal, ciclos adicionais de conflito são altamente prováveis se o regime iraniano sobreviver a esta guerra, conforme ressaltado na análise do IISS desta semana.
Opções para os Estados do Golfo
Os estados do Golfo têm "múltiplas opções" disponíveis, incluindo permitir que os EUA tenham acesso operacional total aos seus espaços aéreos e bases para realizar operações ofensivas contra o Irã. Eles também dispõem de uma gama de capacidades de ataque de precisão que poderiam eliminar lançadores de mísseis ou drones iranianos em resposta defensiva aos ataques realizados pelo Irã.
Essas manobras, entretanto, podem se mostrar operacionalmente desafiadoras, exigindo coleta ativa de inteligência para detectar e neutralizar lançadores, muitos dos quais são móveis ou ocultos, além de coordenação com os EUA e Israel, que já estão ativos no espaço aéreo iraniano. Outra opção seria que os estados do Golfo se concentrassem em mitigar a dor econômica causada pelo conflito, podendo optar por colaborar com os EUA para garantir a segurança do transporte marítimo através do Estreito de Ormuz, tendo em vista que os estados do Golfo têm um interesse econômico vital em retomar os envios de petróleo e gás.
Riscos de Retaliação
Consequências Catástrofes
Analistas expressam preocupação de que qualquer retaliação possa ter resultados inesperados e potencialmente catastróficos, destacando que a reação do Irã poderia se estender a ataques contra infraestruturas civis críticas. "O Irã provavelmente mantém consideráveis estoques de UAVs que pode continuar a usar contra os estados do Golfo, os quais têm se mostrado caros e difíceis de interceptar. O Irã pode também escalar os ataques, instigando os Houthis, que até o momento estão fora da guerra, a retomar os ataques contra os estados do Golfo e o tráfego marítimo no Mar Vermelho, implementando um bloqueio duplo nos estreitos de Ormuz e Bab el-Mandeb", disse Alhasan.
"O Irã poderia também intensificar os ataques contra infraestruturas civis vitais, como usinas de energia ou unidades de dessalinização de água. Ao fazer isso, correria o risco de alcançar um sucesso catastrófico, causando danos tão significativos que forçariam os estados do Golfo a escolher uma ofensiva sem restrições", advertiu.
Fonte: www.cnbc.com


