O cenário atual do investimento
De acordo com um executivo de uma instituição financeira, a crescente insatisfação com os Estados Unidos tem levado muitos investidores a explorar alternativas em outras regiões globais.
“A guerra não vai reverter a tendência anterior de diversificação de investimentos para além dos Estados Unidos, muito pelo contrário, esse desconforto só aumentou”, declarou o executivo durante uma apresentação no BTG Pactual Asset Management, na última terça-feira, dia 31.
Esteves observa que essa movimentação já pode ser percebida no comportamento dos mercados emergentes. Embora as moedas dessas economias tenham enfrentado uma significativa volatilidade nas últimas semanas, o real brasileiro tem se mantido relativamente estável em relação ao dólar, o que, segundo Esteves, sugere que o fluxo de capital para fora dos Estados Unidos continua em andamento.
“As moedas emergentes estão voláteis, mas a cotação do dólar em relação ao real tem permanecido praticamente inalterada. Isso indica que a tendência de diversificação de ativos continua”, afirmou.
O Brasil como ator relevante na economia global
O banqueiro acredita que o conflito atual terá repercussões limitadas e transitórias. “Vejo essa guerra como temporária. Não imagino os Estados Unidos pretendendo realizar ocupações em países como o Irã”, explicou, sugerindo que, embora o impacto geopolítico do conflito seja relevante a curto prazo, é improvável que isso altere de maneira duradoura a alocação global de capital.
Nesse contexto, a América Latina destaca-se como uma das regiões que podem se beneficiar, especialmente o Brasil. Para o executivo, existem razões estruturais que sustentam essa avaliação. “Estou bastante otimista com a América Latina, especialmente com o Brasil”, compartilhou Esteves, ao mencionar um diferencial competitivo que é difícil de replicar em outras partes do mundo.
O ponto crucial está na posição da região como produtora de baixo custo em diversas frentes relevantes de commodities. “Quando analisamos o que representa o Brasil e a América Latina, observamos que somos ‘low-cost producers’ em quase todas as commodities”, ressaltou.
Setores em destaque
No setor agrícola, essa condição abrange grãos, açúcar, café e suco de laranja. Por sua vez, no setor de mineração e metais, a região se destaca na produção de minério de ferro, cobre, prata e lítio, além de concentrar reservas de terras raras que podem servir como alternativa à dependência global em relação à China.
A vantagem competitiva também se estende ao setor energético. “Mesmo no campo energético, somos ‘low-cost producers’ de energias renováveis no mundo e nos posicionamos como exportadores líquidos de petróleo”, enfatizou. Esteves destacou que, até 2025, o Brasil chegou a exportar o dobro do volume de petróleo embarcado pelo Irã, um dos principais exportadores da atualidade.
Diversificação da pauta exportadora
Além disso, o executivo chamou a atenção para a diversificação da pauta exportadora brasileira, apesar de ainda ser predominantemente composta por recursos naturais. “Nós diversificamos nossa pauta. Hoje, aproximadamente um terço refere-se a produtos agropecuários, um terço a petróleo e um terço a metais e mineração, com petróleo na dianteira, agro em segundo lugar e metais em terceiro”, esclareceu.
A análise do banqueiro indica que esse conjunto de fatores adquire maior relevância em um ambiente de preços elevados de commodities, especialmente do petróleo.
“Em suma, essa guerra pode até representar uma oportunidade para o Brasil. Um preço do petróleo acima de US$ 100 colabora para a redução do débito em conta corrente e do débito fiscal”, ponderou, sublinhando que o impacto dependerá da condução da política econômica no país.
O Brasil no contexto da segurança alimentar
Esteves também enfatizou a importância crescente do Brasil na segurança alimentar global. “Se examinarmos o crescimento do consumo de alimentos no mundo nos próximos 20 anos, cerca de 80% desse aumento será suprido pelo Brasil. Essa é uma estimativa bastante impressionante”, afirmou. Para ele, essa posição confere ao Brasil um relevante “soft power”, que até agora tem sido pouco explorado.
“Quando conversamos com autoridades na China ou no Oriente Médio, todos demonstram preocupação com a segurança alimentar. Esse é um ativo significativo para a América Latina”, comentou. Nesse cenário, a região combina ainda outras vantagens competitivas, como estabilidade relativa, falta de conflitos e uma postura de neutralidade geopolítica.
Por fim, na análise do banqueiro, o Brasil aparece como elemento central nesse novo arranjo global, não apenas devido à abundância de recursos naturais, mas também por sua capacidade de se afirmar como fornecedor estratégico em energia, alimentos e minerais em um mundo cada vez mais sensível a choques de oferta.
Fonte: www.moneytimes.com.br


