‘Super demanda’ impulsiona lucros do boi, mas efeito rebote indica pressão à vista.

Mercado de Boi Gordo

O mercado do boi gordo apresenta um momento de estabilidade nos preços, impulsionado por uma combinação de uma oferta ajustada em diversas regiões e, principalmente, por uma demanda aquecida no mercado internacional, especialmente oriunda da China.

Valorização e Medidas de Preço

O indicador do boi gordo do Cepea/Esalq chegou a R$ 365,60 na última sexta-feira (10), registrando uma valorização de 14,54% em relação ao acumulado do ano de 2026.

No entanto, analistas advertiram que essa alta pode estar escondendo riscos significativos no horizonte, como um possível efeito rebote no segundo semestre. De acordo com Isabella Camargo, analista da HN Agro, o cenário atual é um reflexo de uma oferta restrita de gado terminado, que é sustentada por condições favoráveis de pastagem. Isso proporciona ao pecuarista um maior poder de negociação em relação à indústria, mesmo com os frigoríficos apresentando valores superiores ao padrão de referência.

Isabella afirma: “As escalas de abate se mantêm apertadas na maioria das regiões, o que tem sustentado a firmeza dos preços do boi gordo”. Ademais, ela enfatiza que a dinâmica positiva das exportações ajuda a diminuir a oferta interna e mantém os preços da carne bovina robustos, mesmo durante períodos de menor consumo, como a segunda quinzena do mês.

Expectativas para a Demanda

A analista prevê que a cota destinada à China deve ser completamente preenchida entre os meses de junho e julho, o que deverá sustentar a demanda no curto prazo. No entanto, ela ressalta que, após esse período, o mercado pode passar por uma fase mais tranquila, com um aumento na oferta — embora este acréscimo não seja expressivo como em anos anteriores.

Uma ‘Super Demanda’ para o Boi

De acordo com Fernando Iglesias, analista da Safras & Mercado, o aperto atual nas escalas de abate não é resultado de escassez de gado, mas sim de uma “super demanda”.

Iglesias ressalta: “O abate segue em ritmo acelerado, refletindo claramente uma super demanda. Tanto os importadores quanto os exportadores estão acelerando suas ações para garantir uma fatia maior da cota chinesa, que deverá se esgotar em meados de junho”.

Os dados reforçam essa análise. Em março, o Brasil abateu aproximadamente 3,3 milhões de cabeças de gado, o que representa um aumento de 5,76% em comparação ao ano anterior. No total do primeiro trimestre, o número de cabeças abatidas foi de 9,56 milhões, o que corresponde a um crescimento de 0,73% em relação ao mesmo período de 2025.

Segundo Iglesias, esse nível elevado de abate sugere que existe uma disponibilidade considerável de animais no mercado, o que fortalece a perspectiva de uma possível mudança no ciclo de preços. Com o término da cota chinesa, a expectativa é de uma desaceleração nos embarques durante o terceiro trimestre, período em que há um aumento na oferta de animais terminados.

“A grande quantidade de animais disponíveis indica que quando a cota se acabar, o efeito rebote pode ser significativo, implicando em uma pressão de queda nos preços”, afirma.

Impactos nos Preços Futuros

Esse cenário já começa a se refletir no mercado futuro. Os contratos de boi gordo negociados na B3 mostram a tendência de preços mais baixos no segundo semestre, com um spread negativo entre os valores de maio e os vencimentos de junho, julho e agosto.

Iglesias explica: “Nesse ambiente, a adoção de estratégias de proteção a partir de maio se torna essencial para garantir um resultado operacional em um ano que promete ser mais desafiador do que o habitual”.

Apesar desse risco, Isabella acredita que o mercado pode encontrar sustentação à frente. A reativação das compras chinesas para a cota de 2027, o aumento da demanda próximo ao final do ano e a redução estrutural na oferta de animais podem oferecer oportunidades para uma recuperação dos preços no último trimestre do ano.

Ela destaca: “Ao examinarmos o mercado futuro, notamos que o contrato programado para novembro está cerca de 3% abaixo do observado em abril. Historicamente, novembro é um mês em que os preços costumam ser mais elevados. Isso sugere que há possíveis oportunidades no segundo semestre, à medida que esperamos a retomada das compras da China, uma melhoria no consumo interno devido às festividades de fim de ano e uma diminuição na oferta de animais durante a entressafra”.

Além disso, outros mercados estão se tornando cada vez mais relevantes. Isabella salienta o aumento das compras realizada por Hong Kong, a possível abertura do Japão e uma crescente demanda dos Estados Unidos, especialmente no segundo semestre.

Ela conclui: “Quanto aos preços, não consideramos valores entre R$ 380 e R$ 390 por arroba algo fora do alcance. Em anos de retenção, esses patamares são viáveis — e já estamos nos aproximando disso, com transações pontuais na faixa de R$ 370. Para 2027, acreditamos que os preços poderão ser ainda mais altos, com o mercado mantendo sua firmeza”.

Fonte: www.moneytimes.com.br

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