O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) descreveu o tarifaço imposto pelos Estados Unidos ao Brasil como “um desafio inédito” em um pronunciamento realizado na véspera de Natal, no dia 24 de dezembro. O Brasil e seus parceiros comerciais foram afetados pelas tarifas de importação estabelecidas pelo presidente norte-americano Donald Trump.
Promessa de campanha
Durante sua campanha presidencial, Donald Trump expressou um forte apreço pela palavra “tarifas”. Essa promessa foi uma parte fundamental de sua estratégia para revitalizar a economia norte-americana em dois aspectos principais:
- Impulsionar a fabricação de produtos manufaturados nos Estados Unidos;
- Diminuição do déficit da balança comercial dos EUA.
Trump argumentava que a indústria do país estava em declínio, levando os Estados Unidos a dependerem cada vez mais das importações. Ele afirmava que os EUA deixaram de ser uma nação exportadora, passando a consumir mais do que produzir.
Em 2024, o déficit comercial alcançou US$ 918,4 bilhões, aumentando US$ 133,5 bilhões (ou 17%) em relação a 2023, conforme dados do BEA (Departamento de Análise Econômica) e do Departamento do Censo dos Estados Unidos.
Após reassumir o cargo, Trump mandou que fossem realizados estudos para investigar o que ele chamava de desequilíbrio comercial e práticas comerciais injustas entre os EUA e seus parceiros. Desde o início, o Brasil foi um alvo do governo republicano, primeiramente devido a barreiras comerciais impostas pelo país no setor de etanol.
Começa o tarifaço
No dia 2 de abril, denominado por Trump como “Dia da Libertação”, os países começaram a sofrer as chamadas “tarifas recíprocas”, e a alíquota imposta ao Brasil foi fixada em 10%.
Posteriormente, em julho, Trump voltou a criticar o Brasil, alegando que o país estava sendo “muito ruim” para os norte-americanos e atacando o que considerava a censura e uma “caça às bruxas” promovida pelo STF (Supremo Tribunal Federal) contra o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL). O presidente anunciou que a tarifa sobre produtos brasileiros seria elevada a 50% a partir de agosto.
Desde então, o comércio entre Brasil e Estados Unidos sofreu uma retração e uma crescente tensão política surgia a respeito do impasse comercial, já que não existiam canais efetivos de diálogo entre as duas nações.
As exportações mensais do Brasil para os EUA tiveram uma recuperação gradual após a pandemia, atingindo um pico de US$ 4 bilhões em junho de 2022, mas se mantiveram em torno de US$ 2,5 bilhões a US$ 3,5 bilhões, conforme os meses passavam.
Neste ano de 2025, após um pico de US$ 3,8 bilhões em julho, as exportações brasileiras para os EUA caíram para US$ 2,2 bilhões em outubro. Em novembro, houve uma leve recuperação, chegando a US$ 2,6 bilhões.
Dados do Cecafé (Conselho dos Exportadores de Café do Brasil) mostram que as compras de café brasileiro pelos EUA caíram mais de 50% entre agosto e novembro, se comparadas ao mesmo período de 2024. Apesar disso, os Estados Unidos continuaram a ser o principal destino do café exportado pelo Brasil nos primeiros 11 meses de 2025.
Da mesma forma, as exportações de produtos madeireiros do Brasil para os EUA apresentaram uma queda de 55% durante o período em que as tarifas de Trump estiveram em vigor, de acordo com uma análise da Abimci (Associação Brasileira da Indústria de Madeira Processada Mecanicamente), com base em dados da Secretaria de Comércio Exterior do MDIC (Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços).
Pauta exportadora
Os principais produtos exportados pelo Brasil para os Estados Unidos incluem:
- Óleos brutos de petróleo ou de minerais betuminosos, não refinados: correspondem a 12,4% das exportações brasileiras para os norte-americanos no período de janeiro a novembro de 2025;
- Produtos semi-acabados, lingotes e outras formas primárias de ferro ou aço: 9,1%;
- Aeronaves e outros equipamentos, incluindo suas partes: 7%;
- Café não torrado: 5,2%;
- Ferro-gusa, espelho, ferro-esponja, grânulos e pó de ferro ou aço, além de ferro-ligas: 4,8%;
- Óleos combustíveis oriundos de petróleo ou de minerais betuminosos (exceto óleos brutos): 4,4%;
- Sucos de frutas ou vegetais: 3,9%;
- Instalações e equipamentos voltados para a engenharia civil: 3,6%;
- Celulose: 3,6%;
- Carne bovina fresca, refrigerada ou congelada: 3,1%.
Além desses, existem setores menores que, apesar de não possuírem volumes significativos de exportação, dedicam quase toda sua produção ao mercado norte-americano. Exemplos incluem indústrias de pescados, frutas, madeira e calçados.
Tensão
A introdução da tarifa de 50% em agosto trouxe também uma politização ao debate sobre o tarifaço. Ao mencionar em seu discurso a oposição ao STF, Trump armou tanto a oposição quanto a base aliada.
Eduardo Bolsonaro, filho do ex-presidente Jair Bolsonaro, que esteve nos EUA desde o início do ano buscando articulação com a direita internacional em apoio ao pai, afirmou que o tarifaço foi uma resposta às ações do ministro Alexandre de Moraes. Ele e o jornalista Paulo Figueiredo alegaram que as tarifas foram discutidas em reuniões com autoridades do governo norte-americano.
Enquanto isso, o governo Lula adotou um discurso de defesa da soberania nacional, promovendo a manutenção das instituições e da indústria nacional. Apesar de sua popularidade estar em queda, o presidente encontrou um novo impulso após se opor aos Estados Unidos.
Contudo, para responder ao tarifaço, foi proposta uma “separação entre Igreja e Estado”. As negociações buscavam enfatizar argumentos técnicos, visando despolitizar a questão para evitar um confronto ideológico com o governo Trump.
Com o apoio do setor privado, o vice-presidente e ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, Geraldo Alckmin (PSB), assumiu a liderança do diálogo.
O setor privado ganhou maior acesso ao diálogo com seus homólogos norte-americanos, incluindo a Casa Branca, como demonstrado pelo empresário Joesley Batista, do grupo J&F. Entretanto, a comunicação direta entre os governos por canais de alto nível ainda apresentava desafios, com os diálogos entre os presidentes parecendo distantes.
Abraço, química e virada na maré
Quando Lula viajou aos Estados Unidos em setembro para a Assembleia Geral da ONU (Organização das Nações Unidas), não houve nenhuma previsão de encontro com Donald Trump.
Contudo, nos corredores da ONU, os dois se encontraram de forma inesperada, e o diálogo começou com um abraço.
Trump descreveu a breve conversa: “Nós não tivemos muito tempo, cerca de 20 segundos, mas conversamos, foi uma boa conversa e combinamos de nos encontrar na semana seguinte, se ele estiver interessado. Ele parecia ser uma pessoa muito legal, de fato, ele gostava de mim, e eu também gostava dele. E eu só faço negócios com pessoas de quem gosto”.
Ele acrescentou: “Tivemos uma química excelente, e isso foi um bom sinal.”
A partir desse momento, os dois tiveram reuniões presenciais e trocaram telefonemas, tratando de assuntos que incluíam questões comerciais e a colaboração entre os dois países no combate ao crime organizado.
Alívio do tarifaço
No dia 14 de novembro, Trump anunciou a revogação das tarifas recíprocas que haviam sido implementadas em abril sobre uma série de produtos agrícolas importados pelos EUA. Esta ação ocorreu em meio às repercussões que o tarifaço gerou nos preços dos produtos nos supermercados norte-americanos.
Em seguida, em 20 de novembro, o presidente dos EUA assinou uma ordem executiva que eliminou a tarifa extra de 40% aplicada a uma parte dos produtos agrícolas brasileiros, com efeito retroativo a 13 de novembro.
Conforme informações do Itamaraty, mais de 200 produtos brasileiros tiveram sua cobrança adicional cancelada. Essa decisão abrangeu produtos como carne bovina, café, frutas e recursos naturais, como petróleo.
O economista e professor de Relações Internacionais na ESPM, Roberto Uebel, avaliou que o Brasil respondeu de forma pragmática e firme ao tarifaço. “Foi possível também abrir um canal de diálogo entre os dois governos, entre os presidentes Lula e Trump, e parece haver um restabelecimento das relações e um entendimento positivo entre os dois líderes”, comentou.
Nesse contexto, o especialista em direito econômico internacional Emanuel Pessoa enfatizou a importância da articulação com o setor privado.
Ele afirmou: “O vice-presidente Alckmin mobilizou empresas americanas com operações no Brasil, criando uma articulação empresarial que pressionou Washington a rever as tarifas. Essa estratégia foi inteligente e evidenciou que as medidas prejudicavam também os interesses norte-americanos”.
Contudo, Pessoa destacou que, apesar de o tarifaço estar quase em seu término, os efeitos expuseram riscos e vulnerabilidades do país.
Ele destacou que o mercado brasileiro enfrentou três ondas de impacto: primeiro, o aumento da aversão ao risco nos ativos locais; segundo, pressão sobre a moeda; e terceiro, a reprecificação de setores específicos.
De acordo com Pessoa, os efeitos que restaram para o Brasil foram predominantemente conjunturais, embora tenham deixado lições estruturais importantes.
Uebel observa que mudanças estruturais notáveis ocorreram em setores específicos, como o de calçados, especialmente na região Sul do Brasil.
“Em particular, o Vale dos Sinos, no Rio Grande do Sul, ainda não reverteu os impactos, podendo resultar em fechamento de indústrias, demissões, aumento do desemprego e diminuição do poder de compra na economia local”, analisou Uebel.
Um estudo da Amcham Brasil (Câmara Americana de Comércio para o Brasil) divulgado em 19 de dezembro apontou que, entre agosto e novembro, 21 setores registraram uma queda nas vendas para os Estados Unidos em comparação ao mesmo período de 2024. Desses, apenas seis conseguiram compensar as perdas decorrentes das sobretaxas impostas pelos EUA.
Os analistas indicaram que a lição aprendida com o tarifaço é a importância da abertura comercial.
“Simultaneamente, o governo mapeou mercados alternativos: Arábia Saudita, Vietnã e Singapura para carne bovina; China e Índia para café; além de acelerar as negociações do Mercosul com a União Europeia. Contudo, a resposta apresentou limitações – o Brasil ainda carece de uma política industrial sólida e de mecanismos mais ágeis para diversificação. A reação foi efetiva a curto prazo, mas tornou evidente a necessidade de estratégias comerciais mais proativas no futuro”, concluiu Pessoa.
Uebel acredita que, nos próximos meses, é possível que se estabeleçam caminhos para a normalização das relações comerciais entre Brasil e Estados Unidos.
No entanto, o economista e professor de Relações Internacionais da ESPM ressaltou a importância de o Brasil buscar novos mercados alternativos, não apenas aos Estados Unidos, mas também à China, almejando parcerias comerciais estratégicas.
“Minha expectativa é positiva em relação à Índia e Indonésia, que devem se posicionar entre as quatro maiores economias do mundo até 2050, segundo recentes estudos do Fórum Econômico Mundial e do Banco Mundial. Esses são mercados emergentes significativos”, argumentou.
Durante seu pronunciamento, Lula avaliou o ano como “difícil e repleto de desafios”, destacando que “todos aqueles que torceram ou trabalharam contra o Brasil acabaram perdendo”.
“Um ano em que o povo brasileiro saiu como o grande vencedor”.
Entretanto, o tarifaço não terminou. Nem todos os setores foram isentos da alíquota de 50%, incluindo aqueles que dependem significativamente dos Estados Unidos. Esses setores continuam lutando para encontrar sua sobrevivência.
Fonte: www.cnnbrasil.com.br

