O Impacto da Geopolítica na Economia Internacional
O mundo experimentou uma transição significativa, passando de um ciclo caracterizado pela globalização intensa para uma fase em que a geopolítica passou a desempenhar um papel central na direção da economia internacional. Essa análise foi apresentada por Marcos Troyjo, economista, diplomata e ex-presidente do Banco dos Brics, durante o TIMES | CNBC Parlatório Talks, que é conduzido pelo jornalista e CEO do Grupo Parlatório, Carlos Marques. Neste programa, são discutidos temas relacionados à economia, geopolítica, relações internacionais, inovação e desenvolvimento institucional.
“Se utilizássemos uma linguagem da tecnologia da informação, diríamos que estamos transitando de um modo intensivo em globalização para um modo intensivo em geopolítica”, afirmou Troyjo. Ele complementou que a geopolítica é quem realmente está no comando das diretrizes econômicas globais.
Reversão da Hiperglobalização
Troyjo destacou que os últimos 20 anos representaram uma reversão em relação ao período de hiperglobalização, que foi marcado por um crescimento desenfreado no comércio, investimentos internacionais e acordos de livre comércio, sem muitas barreiras.
Ele argumentou que essa mudança se iniciou com uma série de choques globais, incluindo os ataques de 11 de setembro, a crise financeira de 2008, a crise europeia de 2011, o Brexit, a primeira eleição de Donald Trump, a pandemia de COVID-19, a guerra entre Rússia e Ucrânia e os conflitos no Oriente Médio. “Estamos vivendo a vingança da geopolítica”, afirmou.
O economista definiu a atual conjuntura como uma “policrise”, em que múltiplos choques acontecem simultaneamente, como a pandemia, a guerra entre Rússia e Ucrânia, as tensões no Oriente Médio e a disputa entre Estados Unidos e China. “Em geral, as crises ocorrem uma após a outra. Agora, elas estão ocorrendo todas ao mesmo tempo”, afirmou.
A Influência do Protecionismo Americano
O peso econômico dos Estados Unidos resulta em que as decisões do presidente Donald Trump tenham repercussões globais significativas. Troyjo observou que o país representa cerca de um quarto da economia mundial e concentra um poder financeiro e corporativo desproporcional. “Se o presidente Trump acerta, ele acerta muito. As repercussões positivas são imensas. No entanto, se ele comete erros, os efeitos negativos também são amplificados”, afirmou.
Em relação à política tarifária dos Estados Unidos, o economista destacou que o país é tido como um dos principais exemplos de economia aberta, construída sobre tarifas baixas, inovação e um mercado financeiro sofisticado. Ele observou que o aumento do protecionismo atual é resultado de uma combinação de nostalgia industrial, preocupações geopolíticas e uma percepção de dependência excessiva em cadeias externas, especialmente em setores como medicamentos, minerais essenciais, aço e defesa.
“Parece que a filosofia do presidente Trump é influenciada diretamente por questões geopolíticas”, disse Troyjo.
A Retomada do Protecionismo
O economista constatou que o protecionismo voltou a ser um tema central na economia global. “Ele se manifestou como um tsunami violento, sendo muito mais forte e crescente do que antes”, alertou.
Apesar desse retorno, Troyjo acredita que a desglobalização não implica o fim da globalização, mas sim uma desaceleração e reconfiguração dos fluxos globais. Segundo ele, quando os Estados Unidos impõem barreiras, outros países buscam novos parceiros comerciais.
“Essa abordagem protecionista de um grupo ou as forças de desglobalização em ação convocam a necessidade de uma nova globalização”, afirmou.
A Posição do Brasil no Cenário Internacional
Troyjo enfatizou que o Brasil deve direcionar sua política externa e econômica pelos interesses nacionais. O objetivo do país, segundo ele, deveria ser alcançar, em um período de 20 anos, uma renda per capita similar à de países da Europa mediterrânea, como Portugal, o que exigiria um crescimento médio de 3,5% ao ano.
“Esse deveria ser o grande projeto do Brasil: alcançar uma renda per capita equivalente à de alguns países da Europa mediterrânea durante as próximas duas décadas”, disse.
O economista realçou que o Brasil possui condições favoráveis para esse crescimento, dado que conta com vantagens na produção de alimentos, minérios, energia diversificada e um relevante mercado interno. Ele argumentou que o Brasil se posiciona como uma resposta a algumas das principais questões que envolvem a economia mundial, tais como segurança alimentar, energética e de minerais essenciais, além de ter um grande mercado consumidor interno.
Troyjo observou que o Brasil se destacou como o segundo maior destino de investimento estrangeiro direto na soma dos últimos anos, movimento que, segundo ele, vai além do ciclo político e eleitoral.
Investimentos e Desenvolvimento
O desafio para o Brasil, conforme mencionado por Troyjo, é utilizar os excedentes gerados por essas vantagens para financiar pesquisas, desenvolvimento e inovação, ao invés de apenas aumentar a carga tributária. “Se esses excedentes forem utilizados para investir em pesquisa, desenvolvimento e inovação, que são essenciais para o surgimento de novas revoluções tecnológicas, ou se forem simplesmente convertidos em aumento de carga tributária, o país perderá uma grande oportunidade”, afirmou.
Acordo Mercosul-União Europeia
Troyjo expressou otimismo em relação ao acordo entre Mercosul e União Europeia, afirmando que ele “vai acontecer” e será benéfico para ambos os blocos. Segundo ele, o acordo foi finalizado em 2019, reconcluído em dezembro do ano passado e assinado recentemente.
Este acordo adquire relevância no atual contexto geopolítico, especialmente diante da competição entre Estados Unidos e China. “Esse acordo é vantajoso para todas as partes envolvidas”, declarou.
Impactos Econômicos do Acordo
Troyjo previu que o acordo não só estimulará o comércio de bens, mas também possibilitará joint ventures, investimentos transfronteiriços e a transferência de tecnologia. Ele acredita que haverá um aumento significativo do fluxo de investimentos europeus no Brasil.
Ainda assim, ele observou que, apesar da importância da Europa, o Brasil precisa procurar alternativas e expandir sua presença no mercado norte-americano. Ele destacou que os Estados Unidos realizam importações que totalizam US$ 3,6 trilhões anualmente, porém o Brasil representa apenas US$ 40 bilhões desse total, cerca de 1,1%.
“Há um grande potencial de crescimento no mercado americano”, enfatizou. De acordo com Troyjo, o Brasil deve buscar maiores participações no mercado dos Estados Unidos, independentemente das circunstâncias políticas.
Ele classificou a relação atual entre Brasil e Estados Unidos como “improdutiva, contenciosa e deseconômica”, embora tenha observado que a demanda americana por minerais críticos ajudou a reduzir algumas tensões. "Os Estados Unidos foram motivados a buscar novas fontes de fornecimento após a China restringir voluntariamente as exportações de minerais críticos, o que acentuou a importância estratégica do Brasil", concluiu.
Momento Atual e a Evolução do ESG
Em um resumo do cenário atual, Troyjo apontou que a sigla ESG (Ambiental, Social e Governança) ganhou um novo significado. Ele mencionou que a primeira geração do ESG se concentrava nessas questões. Contudo, atualmente, vivemos uma fase denominada “ESG 2.0”.
“Estamos observando a ascensão do ESG 2.0, que representa E de Economia, S de Segurança e G de Geopolítica”, esclareceu.
Fonte: timesbrasil.com.br