Uma IA administrará suas finanças no futuro?

Imagine a situação: você abre seu aplicativo de investimentos e verifica que uma de suas ações teve uma queda de 15% no valor. Qual será a sua reação? Vender imediatamente? Comprar mais? Investigar em veículos de notícias os motivos por trás da queda? Consultar seu assessor de investimentos? Ou ainda perguntar a uma inteligência artificial qual deveria ser a sua próxima ação?

A discussão sobre a influência da inteligência artificial (IA) nos investimentos não é algo novo. Desde a popularização de modelos de conversação, como o ChatGPT, surgem debates sobre quais seriam as melhores abordagens para avaliar uma carteira de investimentos. No entanto, o assunto ganhou destaque recentemente após o lançamento de uma nova ferramenta de IA, identificada como um dos fatores que levou a uma queda significativa nos preços das ações de grandes gestoras de patrimônio, incluindo Charles Schwab, Raymond James Financial e LPL Financial.

O site Bora Investir conversou com especialistas, consultores, professores e profissionais da área de tecnologia, assim como com algumas inteligências artificiais, a fim de entender melhor os mitos e realidades que cercam essa questão, além de como o setor precisa se preparar para essas transformações.

Altruist: a IA que movimentou o mercado recentemente

A tecnologia que está gerando repercussão chama-se Hazel, desenvolvida pela Altruist. Essa ferramenta tem como foco o planejamento tributário. De acordo com informações disponíveis no site da empresa, Hazel é programada para analisar documentos como declarações de imposto de renda, holerites, extratos financeiros, anotações de reuniões e e-mails, ajudando o assessor a criar estratégias personalizadas e a apresentar um plano mais adequado aos clientes.

É importante ressaltar que a própria Altruist não promove a ideia de substituir os profissionais humanos. Sua proposta é ser uma ferramenta que torne os consultores independentes mais eficientes em seus trabalhos.

Jason Wenk, CEO da Altruist, declarou em entrevista ao site especializado Barron’s que a capacidade tributária é apenas uma das atualizações planejadas para os próximos meses. Cada uma delas terá como foco diferentes etapas do planejamento financeiro.

O mercado interpretou essa novidade como um sinal claro: a inteligência artificial pode estar se movendo do campo dos bastidores para ocupar áreas mais centrais na assessoria financeira.

De qual IA estamos falando?

Estamos então caminhando para uma fase onde um investidor se sentiría à vontade para tomar decisões financeiras unicamente com base nas orientações de uma inteligência artificial? Essa indagação gera divisões de opinião. Antes de respondê-la, é necessário entender que a tecnologia não é homogênea.

“Quando nos referimos à ‘IA’, é fundamental especificar sobre o que estamos falando. O termo abrange um vasto espectro: pode incluir um modelo simples para análises quantitativas de compra e venda de ações, ou um chatbot voltado para uso geral”, explica Diogo Cortiz, professor da PUC e especialista em IA.

O temor que surgiu no mercado não se deve às IAs generalistas, que emitem opiniões sobre investimentos, mas sim a uma inteligência artificial treinada para uma função específica.

Ferramenta, não substituta

Não é novidade que a tecnologia transforma a maneira como os profissionais trabalham, conforme observa Renato Breia, sócio fundador da Nord Investimentos. “Quando ingressei no mercado, há 20 anos, tudo era feito de forma presencial, via telefone, e com registros em papel. A tecnologia já causou várias mudanças. O que ocorre agora com a IA representa mais uma grande transformação”, afirma.

Ele acredita que a tecnologia deve ser utilizada para criar “super consultores”, que possam atender melhor às necessidades dos clientes. “Atualmente, o maior custo em empresas como a Nord não é com os profissionais em si, mas sim com o tempo mal utilizado. Administrar a carteira e manter o relacionamento demanda muitas horas de trabalho manual. Tudo que a IA puder otimizar é valioso. Em um cenário ideal, o consultor deveria ocupar o menor tempo possível na Nord e dedicar mais tempo a se relacionar com os clientes, almoçando, jantando, tomando café, visitando-os em seus negócios”, afirma Breia.

Felipe Paiva, diretor de Relacionamento com Clientes, Educação e Pessoa Física da B3, compartilha dessa visão. “A IA traz análises de dados e informações que contribuem para melhorar o entendimento do comportamento do cliente. Assim, o assessor poderá oferecer mais personalização e escala em seus serviços”, diz.

Na XP, Gabriel Santos, chefe de arquitetura e dados, aponta que o impacto já é visível na produtividade dos assessores e na evolução da satisfação dos clientes. “A diferenciação passou a depender mais da qualidade do aconselhamento, do planejamento financeiro de longo prazo e da capacidade do assessor de interpretar cenários de forma aprofundada”, destaca.

A virada geracional

Apesar das transformações, há um fator que pode alterar significativamente a dinâmica entre assessores e clientes: nas próximas duas décadas, será realizada a maior transferência de riqueza da história, com um total de US$ 84 trilhões sendo transferidos dos Baby Boomers para os Millennials.

De acordo com Guilherme Assis, da Gorila, isso pode transformar o cenário e favorecer o uso de tecnologias. Atualmente, a maior parte do patrimônio está nas mãos de indivíduos com idades entre 40 e 60 anos, um grupo que não teve contato direto com o digital e ainda valoriza as interações face a face no momento da tomada de decisão. Por outro lado, a geração que herda esse capital cresceu com uma maior confiança no mundo digital e possui familiaridade com aplicações, automações e serviços online. Essa mudança pode facilitar a aceitação da IA como parte do processo de tomada de decisão de investimentos.

O que a IA não faz?

Embora a tecnologia possa acelerar o processamento de cálculos, consolidar informações e sugerir rebalanceamentos, o verdadeiro diferencial ainda reside na capacidade humana de fornecer contexto e construir confiança.

A inteligência artificial, segundo Santos, da XP, amplia a capacidade analítica e apoia uma tomada de decisão mais estruturada. “Contudo, o profissional de investimentos é quem deve interpretar dados, contextualizar as informações e traduzir essas análises em recomendações que atinjam os objetivos pessoais de cada cliente”, explica. “A IA não substitui efeitos fundamentais, como julgamento técnico, empatia, compreensão do ciclo de vida e visão estratégica.”

“A assessoria envolve criar uma relação de confiança, credibilidade e percepção emocional, características que a IA não consegue reproduzir. É essencial um entendimento profundo das necessidades do cliente, e isso somente pode ser alcançado com a construção de um relacionamento próximo”, afirma Tatiana Guedes, gerente de produtos da InvestSmart.

Diego Ramiro, presidente da Abai, também observa que a transformação é mais uma mudança tecnológica que acaba eliminando do mercado profissionais que se restringem a desempenhar tarefas muito específicas. Ele recorda que, com a popularização de mecanismos de home broker, os assessores cuja função se resumia a executar ordens de compra e venda de ações tiveram que mudar o foco. “A IA pode até substituir aqueles que trabalham como meros alocadores de produtos, mas essa não é a realidade da maioria dos consultores”, afirma.

A função dos assessores também envolve apoio emocional em períodos de instabilidade no mercado. “Quando uma ação apresenta uma queda abrupta, você não buscará a IA para tomar uma decisão imediata. As emoções humanas são intensas quando se trata de finanças”, observa Ramiro.

Paiva, da B3, no entanto, ressalta a importância de consultores e assessores ao lidarem com as nuances comportamentais dos investidores. “Investir não é um ato solitário; muitas pessoas buscam o apoio de um profissional e uma orientação sobre qual caminho seguir”, afirma. “A IA provavelmente contribuirá para a formação de um novo perfil profissional, muito mais preparado para lidar com dinâmicas que ainda requerem a presença humana, sobretudo no que diz respeito à confiança. O profissional do futuro será aquele que estará mais bem preparado e com informações em tempo real sobre a carteira, além de entender os movimentos do mercado ao longo do tempo.”

Do outro lado, o que a IA pode proporcionar é um maior acesso a informações ao cliente. Um investidor bem informado poderá abordar a conversa de maneira diferente. “Incentivamos os clientes a utilizar IA e trazer suas dúvidas. Para bons profissionais, um cliente que chega com perguntas pertinentes é sempre bem-vindo. Isso não prejudica a relação de forma alguma, ao contrário, indica que estamos adotando as melhores práticas”, afirma Raul Sena, fundador da AUVP. “Um cliente mais bem informado exige que o profissional seja mais claro, técnico e transparente. Esse movimento enriquece o mercado.”

Embora a IA possa empoderar o investidor, também existe o risco de decisões imprecisas quando falta contextualização e criticidade. “Essa tecnologia promove a democratização do acesso a informações que antes eram restritas. Contudo, é fundamental saber fazer as perguntas certas. Poderíamos estar à frente no que diz respeito à educação financeira”, completa Raul.

Guilherme Assis, CEO da Gorila, ressaltou o poder da tecnologia em fornecer dados ao consumidor. “A IA empodera o cliente: é semelhante a levar uma ressonância ao médico já com um parecer prévio da IA. A consulta ao médico ainda é necessária, mas há mais embasamento para questionamentos. Ou discutir com um mecânico já sabendo o nome da peça que precisa ser consertada”, compara. “Isso aumenta a transparência e melhora a qualidade da conversa.”

O que dizem as ferramentas sobre o futuro do mercado?

O Bora Investir procurou obter respostas de três modelos de inteligência artificial — ChatGPT, Gemini e DeepSeek — para a seguinte pergunta: as inteligências artificiais podem substituir assessores e consultores de investimentos?

As respostas de todos os modelos convergem para um ponto: a substituição total é pouco provável, mas a transformação no setor é inevitável.

Na visão do ChatGPT 5.2, a IA pode tornar os serviços de consultoria mais acessíveis e escaláveis. “As competências humanas devem se deslocar para áreas como estratégia, interpretação de cenários, planejamento patrimonial e, especialmente, gestão comportamental e construção de confiança, onde a tecnologia ainda não consegue substituir o relacionamento humano”, afirma o modelo. As atividades mais operacionais, como a montagem de carteiras, simulações de cenários, comparação de produtos e rebalanceamentos, estão se tornando commodities.

O Gemini também aponta para uma mudança nas funções desempenhadas. “Em 2026, a IA já será imbatível no processamento de dados, mas ainda enfrentará dificuldades em compreender o ‘fator humano’ — como o medo de uma crise, o desejo por uma aposentadoria específica ou as complexidades tributárias que variam de família para família”, destaca.

Por sua vez, o DeepSeek faz uma análise mais focada no comportamento. Reconhece que a IA deve assumir funções como a análise maciça de dados e relatórios automatizados, mas enfatiza que a inteligência emocional, empatia e compreensão do contexto de vida permanecem como competências humanas imprescindíveis.

Se até as próprias inteligências artificiais concordam que a substituição total do ser humano é improvável, a questão que persiste é outra: quem será o profissional capaz de trabalhar de forma mais eficiente e sinérgica com essas novas tecnologias?

Fonte: borainvestir.b3.com.br

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