Venda de minas de níquel para empresa chinesa pode ser incluída na investigação de Trump sobre o Brasil

Alerta nos Estados Unidos sobre o Níquel Brasileiro

Os Estados Unidos estão em alerta devido à possibilidade de a China assumir uma parte significativa das reservas de níquel do Brasil. A entidade representativa do setor siderúrgico dos EUA notificou o governo Trump após a mineradora Anglo American negociar suas minas de níquel no Brasil com a MMG, controlada pela estatal chinesa Minmetals.

Comunicado do Instituto Americano do Ferro e Aço

Em uma carta enviada no dia 18 de agosto ao Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos (USTR), em resposta a um pedido de investigação da Seção 301, o Instituto Americano do Ferro e Aço (AISI) indicou que essa transação pode fortalecer o controle da China sobre um insumo considerado estratégico para a indústria global.

O AISI destacou que, se a venda for finalizada, a China terá influência direta sobre aproximadamente 40 mil toneladas de níquel produzidas no Brasil, além de consolidar sua já dominante posição na Indonésia, que é o maior produtor deste metal no mundo. Para os produtores de aço inoxidável nos Estados Unidos, isso representaria mais um movimento de Pequim para centralizar a oferta de minerais críticos, aumentando as vulnerabilidades americanas na cadeia de suprimento.

Importância do Níquel e Reservas Globais

O níquel é um dos principais elementos na produção de aço inoxidável, sendo a siderurgia responsável por 65% da demanda mundial dessa matéria-prima. O Brasil, a Indonésia e a Austrália concentram as maiores reservas conhecidas. Juntas, Brasil e Indonésia possuem quase metade dos recursos globais — um cenário que, de acordo com a avaliação americana, torna urgente a discussão sobre o futuro dos ativos brasileiros.

O professor de geopolítica da Escola Superior de Guerra e especialista do CEBRI, Ronaldo Carmona, explicou que a disputa deve ser vista em um contexto mais amplo: “Os minerais críticos não são definidos apenas pelas forças de mercado. Eles são essenciais para a transição energética e para a nova economia global. Há uma corrida das grandes potências pelo controle dessas cadeias de suprimento, e o Brasil, com a terceira maior reserva de níquel, está no centro desse jogo.”

Carmona observou ainda que a Indonésia, maior produtora mundial, restringiu exportações de níquel e condicionou sua exploração a investimentos locais em industrialização. Ele sugeriu que “esse é o caminho que o Brasil também deve considerar, ao invés de se limitar à exportação de commodities brutas. É um recurso estratégico que pode ser usado para atrair cadeias produtivas e gerar valor agregado”.

Alerta em Washington e a Corrida pelo Níquel

Marcello Marin, administrador e mestre em Governança Corporativa, avaliou que essa movimentação acendeu um sinal de alerta em Washington. Segundo ele, a carta do AISI reforça a percepção de que a China está ampliando seu poder sobre as cadeias globais de minerais estratégicos. “O níquel é um caso emblemático: além de essencial para o aço, é insumo-chave para baterias de veículos elétricos. O risco para os americanos é que, mesmo sem um monopólio formal, Pequim consiga exercer um controle velado, ditando preços e restringindo acessos, utilizando o fornecimento como uma ferramenta política e econômica”, afirmou.

Na mesma linha, a CFO da SAS Brasil, Adriana Melo, destacou que a disputa pelo níquel transcende a indústria do aço. “Brasil e Indonésia concentram quase metade das reservas do mundo. Esse metal está no centro da transição energética. Sem níquel, não há veículos elétricos de longa autonomia, sistemas de armazenamento para energia renovável ou hidrogênio verde”, afirmou.

Adriana observou que a venda evidencia a corrida tecnológica entre China e Estados Unidos, além de expor a falta de atuação proativa do Brasil. “O país continua exportando commodities sem agregar valor, desperdiçando a oportunidade de transformar suas reservas em liderança industrial”, concluiu.

Detalhes do Negócio

Em fevereiro deste ano, a Anglo American anunciou a venda de todo seu negócio de níquel no Brasil para a MMG por US$ 500 milhões. O negócio envolve duas operações de ferroníquel em Goiás (Barro Alto e Codemin, em Niquelândia), além de dois projetos de expansão: Jacaré, no Pará, e Morro Sem Boné, no Mato Grosso.

O acordo prevê um pagamento inicial de US$ 350 milhões, seguido de parcelas condicionadas ao preço de venda do níquel e ao desenvolvimento futuro dos projetos minerais. As minas brasileiras produziram 39,4 mil toneladas do metal em 2024 e são consideradas ativos estratégicos para a companhia. A unidade de Barro Alto, por exemplo, é a única mina de níquel no mundo certificada pelo padrão internacional IRMA 75 de mineração responsável.

A Anglo American justificou a venda como parte de sua estratégia global de simplificação do portfólio, que se concentrará em cobre, minério de ferro premium e fertilizantes agrícolas. Por sua vez, a MMG destacou que a aquisição aumenta sua presença na América Latina, diversifica sua atuação em metais e reafirma seu compromisso com padrões de sustentabilidade.

A conclusão do negócio está programada para o terceiro trimestre de 2025, sujeita à aprovação regulatória.

Reestruturação da Anglo American

Em maio deste ano, a Anglo American anunciou uma reestruturação de seu portfólio, um dia após recusar uma segunda proposta de aquisição da BHP Billiton, maior mineradora do mundo, no valor de US$ 43 bilhões — que superou os US$ 39 bilhões propostos em abril e também foi rejeitada.

O plano apresentado incluía a venda dos ativos de níquel, além do desmembramento da Anglo American Platinum, unidade de platina, da venda da De Beers, unidade de diamantes, e da alienação dos ativos de carvão metalúrgico.

O CEO Duncan Wanblad afirmou que o objetivo é simplificar a estrutura e tornar a mineradora mais enxuta e focada em setores com maior demanda futura, especialmente aqueles relacionados à transição energética. A expectativa é de uma redução de custos da ordem de US$ 1,7 bilhão, resultando em maior eficiência operacional e previsibilidade no desempenho.

Investigação da Seção 301

Em 15 de julho, o USTR abriu uma investigação contra o Brasil com base na Seção 301 da Lei de Comércio de 1974. O objetivo é avaliar se atos, políticas e práticas do governo brasileiro em áreas como comércio digital, serviços de pagamento eletrônico, tarifas preferenciais, combate à corrupção, propriedade intelectual, acesso ao mercado de etanol e desmatamento ilegal são nocivos e impõem restrições ao comércio com os Estados Unidos.

Segundo o embaixador Greer, a decisão seguiu a orientação do presidente Trump. Ele indicou que empresas de tecnologia e outros setores nos Estados Unidos enfrentam barreiras tarifárias e não tarifárias que limitam o acesso ao mercado brasileiro. O processo prevê consultas formais entre Washington e Brasília, além de uma audiência pública agendada para 3 de setembro de 2025.

Criada para responder a práticas comerciais desleais de governos estrangeiros, a Seção 301 permite que os Estados Unidos adotem medidas corretivas quando identificam restrições injustificadas. O USTR solicitou que interessados enviem comentários até 18 de agosto, como parte do processo de coleta de informações que sustentará a investigação, da mesma forma que fez o AISI.

Related posts

Caiado afirma que EUA “não ditam as regras no Brasil” e se compromete a dialogar.

Zema promete fiscalizar despesas e aplicar “três medidas impactantes” na campanha

Campanha 2026: Indústria, Segurança e Investimentos em Destaque

Utilizamos cookies para melhorar sua experiência de navegação, personalizar conteúdo e analisar o tráfego do site. Ao continuar navegando em nosso site, você concorda com o uso de cookies conforme descrito em nossa Política de Privacidade. Você pode alterar suas preferências a qualquer momento nas configurações do seu navegador. Leia Mais