Indicação de Kevin Warsh ao Federal Reserve
O indicado pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, para o comando do Federal Reserve, Kevin Warsh, pode buscar uma redução significativa do balanço patrimonial multibilionário da instituição. Contudo, especialistas concordam que a realidade financeira atual indica que alcançar este objetivo será um processo complicado e prolongado, se é que será possível.
Dificuldades em Reduzir o Balanço Patrimonial
A complexidade em reduzir as reservas do Fed e o sistema que foi desenvolvido para a gestão das taxas de juros, em um contexto caracterizado por um excesso de liquidez, não é simples. A manutenção da estabilidade do mercado e o cumprimento das metas de política monetária foram considerados como fatores que complicam ainda mais essa tarefa. Tal situação se torna ainda mais desafiadora para um presidente do Fed que possivelmente buscará a redução das taxas de juros de curto prazo, uma vez que qualquer redução significativa nas reservas de títulos do banco central tende a restringir as condições financeiras.
Warsh, que atuou como membro do Conselho do Fed de 2006 a 2011, defende que as extensas reservas do Fed distorcem as finanças da economia. Ele acredita que os ativos atualmente mantidos pela instituição deveriam ser drasticamente diminuídos.
Em um artigo de opinião publicado no Wall Street Journal em novembro, Warsh expressou que “o balanço patrimonial inflado do Fed, que foi concebido para sustentar as maiores empresas em épocas de crises passadas, pode ser reduzido significativamente”. Ele sugeriu que esses recursos fossem redistribuídos, “na forma de taxas de juros mais baixas para apoiar famílias e pequenas e médias empresas”.
Aumento do Balanço durante a Pandemia
A proposta de Warsh para a diminuição das reservas do Fed surgiu em um momento em que o banco central se aproximava do término de um esforço de três anos destinado a reduzir o número de títulos adquiridos através de compras agressivas que ocorreram durante a pandemia de Covid-19.
Nas fases iniciais da crise sanitária, o Fed comprou títulos do Tesouro e títulos hipotecários para estabilizar os mercados que se mostravam fragilizados. Essas aquisições acabaram se configurando como um estímulo econômico. Em consequência, as compras emergenciais resultaram em um doublamento do tamanho das reservas do Fed, que atingiu um pico de US$ 9 trilhões durante o verão de 2022, especificamente entre os meses de junho a setembro, antes que um processo de contração, conhecido como aperto quantitativo (QT, na sigla em inglês), reduzisse as reservas totais para US$ 6,6 trilhões ao final de 2025.
Ações e Estrategias do Fed
No mês de dezembro, o Fed começou a aumentar novamente o montante de títulos que detinha, através de compras técnicas de papéis do Tesouro. Essa medida visou garantir liquidez suficiente no sistema financeiro, mantendo um controle rigoroso sobre a sua meta de taxa de juros.
De maneira mais ampla, a utilização do balanço patrimonial como uma ferramenta se tornou uma parte essencial do conjunto de instrumentos de política monetária e uma peça chave, especialmente considerando as crescentes probabilidades de cortes nas taxas de juros de curto prazo, que poderiam se aproximar de níveis próximos a zero em situações de crise.
Enquanto isso, o Fed elaborou todo um sistema de ferramentas para adequadamente gerenciar as taxas. Portanto, a redução drástica das reservas de ativos seria uma tarefa extremamente complexa, sem que necessariamente isso não resultasse em desordens no mercado financeiro.
Desafios e Limitações
Joe Abate, estrategista de taxas de juros dos EUA da SMBC Capital Markets, Inc., comenta que Warsh “pode querer um balanço patrimonial mais enxuto e uma presença menor do Fed nos mercados financeiros”. No entanto, ele ressalta que “reduzir o tamanho do balanço patrimonial está fora de questão, uma vez que os bancos demandam esse nível de reservas”.
Abate se referia ao fato de que, quando as reservas do sistema bancário caem para aproximadamente US$ 3 trilhões, surgem flutuações significativas nas taxas do mercado monetário, o que compromete a capacidade do Fed em gerir sua meta de taxa de juros. Esse fato restringe consideravelmente a possibilidade de redução das reservas por parte do Fed.
Além das condições do mercado, qualquer mudança substantiva precisará da aprovação de outros integrantes do Fed, que até agora têm concordado com a estratégia geral de utilizar o balanço patrimonial como um instrumento de política monetária. Esses membros poderiam se opor a tentativas de reestruturar essa parte do conjunto de ferramentas disponíveis.
Propostas para Ajustes
Com relação a como Warsh poderia promover a redução das reservas do Fed, considerando a realidade do que o mercado é capaz de suportar, analistas sugerem que aliviar parte da carga regulatória sobre a gestão da liquidez pelos bancos, bem como implementar medidas que tornem as linhas de crédito do Fed, como a Janela de Desconto e as operações de recompra em andamento, mais atrativas poderia contribuir para uma diminuição do apetite por manter reservas, permitindo uma presença menor do Fed ao longo do tempo.
David Beckworth, pesquisador sênior do Mercatus Center da Universidade George Mason, comentou que, além dessas medidas, Warsh poderia incluir ações para reconsiderar a utilização do balanço patrimonial do Fed, como parte da revisão periódica existente. Além disso, poderia ocorrer uma colaboração entre o Fed e o Tesouro, através de trocas de títulos, segundo o especialista.
Embora mudanças significativas possam não estar previstas, existem maneiras nas quais o Fed pode ajustar suas ferramentas de forma a reduzir a necessidade de manter um elevado nível de liquidez.
“O Fed é como um navio que se vira lentamente, e provavelmente isso é algo positivo, pois você não deseja causar grandes perturbações no sistema financeiro”, concluiu Beckworth.
Aperfeiçoamento das Políticas
Analistas da Evercore ISI também verbalizaram o entendimento de que quaisquer ações que Warsh venha a tomar em relação ao balanço patrimonial do Fed serão realizadas de forma lenta e cuidadosa, sempre levando em consideração os riscos de uma abordagem mais agressiva. De acordo com a pesquisa da empresa, acreditam que ele será mais pragmático do que muitos esperam, assegurando que não ocorram mudanças drásticas na política de balanço do Fed, ao mesmo tempo em que poderá haver um entendimento entre o Fed e o Tesouro para estabelecer uma estrutura que possibilite uma cooperação mais estreita.
Os analistas ainda destacaram que “o mercado interpretará isso como uma concessão ao secretário do Tesouro, uma vez que (Scott) Bessent exerce um veto tácito sobre quaisquer planos de aperto quantitativo (QT) e Warsh ficará satisfeito com essa realidade.”
Fonte: www.moneytimes.com.br