24% das empresas da B3 não conseguem cumprir os juros da dívida, gerando preocupações no mercado.

24% das empresas da B3 não conseguem cumprir os juros da dívida, gerando preocupações no mercado.

by Ricardo Almeida
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A Pressão dos Juros Elevados no Brasil

O contexto atual de juros altos no Brasil tem exercido uma pressão significativa sobre o fluxo de caixa das empresas. Um estudo realizado pela consultoria RK Partners revela que 24% das companhias listadas na B3 não conseguem gerar recursos suficientes para arcar com o pagamento dos juros de suas dívidas. A pesquisa abrangeu 282 empresas e destaca o impacto da taxa básica de juros, a Selic, que atualmente se encontra em 15% ao ano, uma taxa que não era observada há quase duas décadas.

Níveis de Alavancagem das Empresas

Os dados do levantamento indicam que 23% das empresas operam com uma alavancagem entre três e seis vezes, o que é definido pela relação entre a dívida líquida e o EBITDA. Outros 24% das empresas têm níveis de alavancagem ainda mais elevados. O EBITDA é uma métrica amplamente utilizada no mercado financeiro, servindo como um indicador da capacidade operacional das empresas para cumprir suas obrigações financeiras.

Recuperações Extrajudiciais e os Riscos

Os riscos financeiros que vinham se acumulando nos balanços contábeis das empresas ganharam forma recentemente com os pedidos de recuperação extrajudicial de grandes grupos, como o Grupo Pão de Açúcar e a Raízen. No caso da Raízen, trata-se do maior processo já registrado no país referente a esse tipo de recuperação, envolvendo a renegociação de aproximadamente R$ 65,1 bilhões em dívidas. A empresa destacou diversos fatores que contribuíram para essa situação, incluindo a queda de produtividade, a margem de lucro pressionada e o alto custo do endividamento.

Aumento nos Pedidos de Recuperação Judicial

Ricardo Knoepfelmacher, sócio da RK Partners, opina que o cenário atual reflete o impacto direto do aumento da taxa de juros. De acordo com ele, o número de grandes empresas buscando recuperação judicial ou extrajudicial dobrou, passando de uma média de 25 a cada trimestre até 2022 para cerca de 50 atualmente. Essa tendência é esperada para continuar enquanto a Selic mantiver seus níveis elevados.

Consequências do Período de Juros Baixos

Parte da vulnerabilidade das empresas pode ser atribuída ao período recente de juros baixos. Entre 2020 e 2021, quando a Selic atingiu o patamar de 2% ao ano, muitas empresas ampliaram significativamente suas captações de recursos por meio do mercado de capitais e do crédito bancário. Esse financiamento foi destinado a diversos fins, como expansão, aquisições e rolagem de passivos. Dados da Anbima indicam que, em 2025, o total captado por empresas foi de quase R$ 493 bilhões, sendo que R$ 128,9 bilhões foram direcionados somente para a quitação de dívidas anteriores, um aumento considerável em comparação a 2023.

O Impacto da Reversão do Ciclo Monetário

Com a reversão do ciclo monetário para conter a inflação, o custo desse financiamento começou a se fazer sentir. O volume de empresas enfrentando dificuldades financeiras cresceu rapidamente, contabilizando 1.987 pedidos de recuperação judicial e 112 extrajudiciais em 2025, conforme dados da plataforma NEOT. O setor do agronegócio figura entre os mais afetados, embora os problemas já tenham se espalhado por diversos segmentos da economia.

A disposição dos Credores em Negociar

Júlio Moretti, CEO da NEOT, observa que o aumento dos pedidos de recuperação extrajudicial também reflete uma maior disposição dos credores, como bancos e fundos de investimento, para negociar diante do contexto de restrição de caixa que se torna cada vez mais comum entre as empresas.

Desequilíbrios Acumulados

O professor Paulo Carnaúba destaca que o efeito da situação financeira se torna mais severo em empresas que acumularam desequilíbrios ao longo do tempo. Isso pode ocorrer tanto pelo excesso de endividamento sem correspondentes ganhos operacionais quanto pela falta de ajustes estratégicos e renegociações adequadas.

Perspectivas Futuras e a Reunião do Copom

Enquanto isso, o Comitê de Política Monetária (Copom) se reúne na expectativa de iniciar um ciclo de redução da Selic. As projeções de mercado indicam que a taxa pode chegar a 12% até o final deste ano e 10,5% em 2027. No entanto, esse alívio pode não ser suficiente para empresas que já operam em condições limites, frequentemente referidas como “empresas zumbis”.

O Cenário das Empresas Zumbis

De acordo com Haroldo da Silva, esses tipos de empresas conseguem manter suas operações, mas não conseguem gerar caixa suficiente para cobrir suas despesas financeiras. Mesmo que haja uma redução nas taxas de juros, a recuperação dessas empresas pode ser um processo lento. Estimativas da Fitch Ratings sugerem que companhias com dívidas equivalentes a três vezes sua geração de caixa comprometem cerca de 50% desse fluxo apenas com o pagamento de juros.

Juros Elevados e o Setor Corporativo

Na prática, mesmo com a previsão de um ciclo de queda nas taxas de juros, é provável que essa manutenção em patamares elevados persista por um tempo prolongado, limitando qualquer alívio imediato para o setor corporativo em geral.

Fonte: br.-.com

As informações apresentadas neste artigo têm caráter educativo e informativo. Não constituem recomendação de compra, venda ou manutenção de ativos financeiros. O mercado de capitais envolve riscos e cada investidor deve avaliar cuidadosamente seus objetivos, perfil e tolerância ao risco antes de tomar decisões. Sempre consulte profissionais qualificados antes de realizar qualquer investimento.

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