Desafios do Mercado de Proteínas no Brasil
O início do ano trouxe desafios para as empresas do mercado de proteínas no Brasil, com a implementação, por parte de Pequim, de um novo sistema de cotas para a importação de carne bovina. Este regime, que começará a vigorar a partir de 2026, estabelecerá que o volume de importações que exceder 1,1 milhão de toneladas estará sujeito a uma tarifa adicional de 55%, além da alíquota básica, que é de 12%.
Projeções sobre o Impacto das Novas Tarifas
De acordo com Igor Guedes, analista da Genial Investimentos, a expectativa é de que o limite de importação seja alcançado aproximadamente nove meses após a implementação do novo regime. Com isso, o eventual pagamento da tarifa adicional começaria a ser sentido apenas a partir desse período. Contudo, a reação do mercado foi imediata e intensa.
As ações de empresas como JBS (JBSS32) e Minerva (BEEF3) sofreram uma queda de cerca de 9% em seu valor de mercado. Por outro lado, a Marfrig (MBRF3) registrou uma desvalorização de quase 4%. Para os especialistas, essa movimentação reflete uma crescente percepção de risco associada à incerteza gerada pela nova norma. "A reação negativa do mercado é coerente com a incerteza criada pela medida", conclui Guedes.
Resiliência das Análises de Investimento
Diante desse cenário, as casas de análise mantiveram suas teses de investimento inalteradas, baseadas na expectativa de que o Brasil poderá redirecionar seus embarques para outros mercados, além do efeito retardado da nova regulamentação.
Funcionamento do Novo Sistema de Cotas
Apesar de suas consequências diretas, um relatório do Santander indica que, embora o Brasil seja o país mais afetado, a nova cota adicional impactará apenas uma fração menor das exportações de carne para a China.
Em termos anuais, a China importa aproximadamente 1,45 milhão de toneladas de carne bovina, enquanto a cota que estará sujeita à tarifa regular foi estabelecida em 1,106 milhão de toneladas. Isso gera um excedente de cerca de 344 mil toneladas que estará sujeito à sobretaxa. De acordo com a Genial Investimentos, esse volume adicional poderá ser ainda maior, na faixa de 500 mil toneladas, enquanto a Ativa projeta um excedente entre 500 mil e 600 mil toneladas.
O Santander mantém uma recomendação de compra para JBS e MBRF, enquanto atribui uma classificação neutra para a Minerva. Isso se deve a diferenças em suas exposições aos ciclos pecuários, às estruturas de custos, à alavancagem financeira e aos riscos operacionais.
Os preços-alvo projetados para o final de 2026 são de R$ 6,80 para BEEF3 (representando uma valorização de 18% em relação aos preços atuais de R$ 5,76), de US$ 17 para JBS (com uma valorização de 18% a partir dos atuais US$ 14,42) e de R$ 26 para MBRF, que representa uma valorização de 30% em relação aos atuais R$ 19,90.
Desafios para a Minerva
Os analistas destacam que a BEEF3 enfrentará os maiores desafios ao longo do ano. Lucas Barbosa, da Ativa Investimentos, ressalta que esta é a empresa que apresenta menor diversificação geográfica em sua produção. "A Minerva tem um foco grande no Brasil. Apesar de conseguir diversificar a exportação a partir de outros países, como Uruguai e Argentina, sua maior presença está no Brasil. A JBS deve ser a menos impactada nesse aspecto, pois sua maior exposição não está no Brasil em termos de exportação. A MBRF ficará em um meio-termo, conseguindo também diversificar e diluir suas exportações", explica Barbosa.
Exposição ao Risco da China
A Minerva é a empresa que gera cerca de 17% de suas receitas a partir da China, enquanto a MBRF tem 5% e a JBS apenas 3%. Além de considerar a diversificação geográfica em suas produções, as empresas devem também buscar um mix de proteínas mais equilibrado para minimizar os riscos associados ao mercado chinês. Nesse ponto, JBS e MBRF estão melhor posicionadas.
Guedes acrescenta que a análise ocorre em um contexto em que o mercado global de carne continua relativamente restrito e a demanda se mostra resiliente, o que pode diluir parte do impacto potencial das novas tarifas. O analista também menciona que há uma indicação do governo brasileiro para abordar esta questão, o que poderá atenuar riscos ao longo do ano. "O setor passa a operar com uma nuance adicional de risco regulatório e geopolítico, mas isso, por si só, não justifica revisões imediatas e significativas nos preços-alvo", finaliza.
Vantagens e Desvantagens Relativas
Na avaliação do Santander, JBS e MBRF ainda possuem uma vantagem em relação ao México. O país norte-americano decidiu prorrogar o programa PACIC para todo o ano de 2026, o que concede isenção tarifária para importações de frango. Essa decisão reverte a sinalização anterior que indicava que a medida seria válida apenas até o primeiro semestre.
O México é um dos principais destinos para as exportações de frango brasileiro, especialmente para cortes de maior valor agregado. Portanto, a extensão do programa remove um risco significativo para as duas empresas mencionadas.
Ao mesmo tempo, o México anunciou um aumento nas tarifas para carne bovina e suína, mas o impacto esperado será limitado, visto que apenas cerca de 4% das exportações brasileiras de carne bovina têm o país como destino.
Dividendos e Perspectivas Futuras
O Santander enfatiza que as mudanças promovidas por China e México não constituem uma ruptura estrutural no setor, mas sim um ajuste no ambiente comercial que deve ter um impacto limitado no curto prazo nas companhias brasileiras de proteínas.
Entre os principais riscos identificados pelos analistas estão a evolução dos ciclos do gado no Brasil, Estados Unidos e Austrália, a ocorrência de "eventos sanitários", variações nos preços dos grãos, oscilações cambiais e níveis de endividamento, especialmente em um cenário de juros elevados.
Barbosa, da Ativa, observa ainda que a BEEF também encontra-se em desvantagem devido à sua alavancagem elevada, resultado da aquisição das plantas da Marfrig. Essa situação poderá exercer ainda mais pressão sobre os dividendos da Minerva. A empresa já reduziu sua payout (proporção do lucro destinada a remuneração de acionistas), o que poderá aumentar essa pressão.
De modo geral, a Genial não prevê que a restrição chinesa afete a capacidade de pagamento de proventos do setor durante 2026-27, já que o risco de um impacto financeiro está condicionado a eventos como a efetiva cobrança da sobretaxa de 55% e a possibilidade de realocação dos fluxos de embarque para outros mercados.
Para o BDR (título que representa uma ação de uma empresa estrangeira negociado no Brasil) JBSS32, o dividend yield atual — considerando os últimos 12 meses — está em cerca de 7,69%. A Minerva apresenta um dividend yield de 3,2% e a Marfrig um de 8,7%. "Não prevê-se mudanças significativas no pagamento de proventos no curto prazo", conclui Max Bohm, estrategista de ações da Nomos.
Fonte: einvestidor.estadao.com.br


