Consumo na Argentina despenca mais de 20% — e a principal causa não é a crise no país.

Consumo na Argentina despenca mais de 20% — e a principal causa não é a crise no país.

by Ricardo Almeida
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A Crise do Vinho na Argentina

A Argentina enfrenta uma crise econômica prolongada, cujos reflexos são visíveis em diversos setores. Embora haja uma leve melhora em alguns indicadores macroeconômicos, essa recuperação não se reflete no consumo de vinho, um dos produtos culturais mais emblemáticos do país.

Queda no Consumo de Vinho

De acordo com dados do Instituto Nacional de Vitivinicultura (INV), o consumo per capita de vinho na Argentina despencou para 15,77 litros ao ano, o que representa o mais baixo índice em várias décadas de medições históricas. Para se ter uma ideia, em 1970 esse número era expressivamente maior, atingindo 90 litros por pessoa anualmente.

Nos últimos cinco anos, o consumo de vinho no país apresentou uma queda de 22,6%. O último ano em que houve uma leve recuperação foi em 2020, quando a pandemia e o isolamento social forçaram muitos argentinos a permanecer em casa, instigando o retorno a prazeres como beber vinho. Entretanto, desde então, essa tendência de queda não só continuou, como se intensificou. Em 2025, a comercialização recuou 2,7%, seguindo uma sequência de quedas: 1,2% em 2024, 6,3% em 2023, 1,3% em 2022 e 11,1% em 2021.

Fatores que Contribuem para a Crise

A dificuldade enfrentada pelo setor vitivinícola ocorre em um contexto onde o principal inimigo não é somente a instabilidade cambial, a inflação ou o elevado custo de produção argentino. Na verdade, o que tem se mostrado mais problemático é a mudança nas preferências de consumo, com a crescente valorização de um estilo de vida saudável que resulta na rejeição ao álcool, um ponto amplamente reconhecido por produtores de vinho e especialistas em consumo de massa.

Esse padrão de consumo, que se intensificou nos últimos cinco anos, é uma tendência global e provocou um excesso de estoque, queda nos preços e dificuldades financeiras para as vinícolas.

Além disso, existem fatores conjunturais que também exercem influência, como a crescente intolerância ao álcool ao dirigir. Embora a maioria das províncias tenha adotado a lei nacional de “álcool zero”, a Cidade Autônoma de Buenos Aires (CABA) e Mendoza têm mantido uma tolerância de 0,5 grama de álcool por litro de sangue.

Motivos para a Queda do Consumo de Vinho

Os especialistas apontam cinco razões principais para a redução do consumo de vinho na Argentina:

1. Queda do Consumo Mundial

O consumo global de vinho alcançou em 2025 o menor nível desde 1961, conforme relatado pela OIV, com 214 milhões de hectolitros. Essa diminuição é resultado de quedas sucessivas nos anos anteriores, com mercados relevantes como os Estados Unidos e a China mostrando retrações, influenciadas tanto por questões econômicas quanto por transformações culturais, especialmente entre os jovens. Na Europa, o cenário é ainda mais alarmante: o consumo caiu cerca de 25% desde 2000, revelando uma tendência estrutural de diminuição do espaço do vinho nas práticas alimentares e de lazer.

2. Cuidado com a Saúde

A consciência crescente sobre saúde e bem-estar, intensificada após a pandemia, tem levado os consumidores a restringirem voluntariamente o consumo de álcool. Há uma tendência crescente de priorizar atividades físicas, alimentação saudável e escolhas mais moderadas, uma mudança que está conectada ao novo perfil do “consumidor estoico”, que valoriza a moderação e a qualidade. Esse consumidor rejeita bebidas com alto teor alcoólico e muitas calorias, reafirmando alterações duradouras nos hábitos.

3. Álcool Zero e Multas Elevadas

A promulgação da Lei de Álcool Zero, já implementada em 18 jurisdições do país, restringiu fortemente o consumo de bebidas alcoólicas por motoristas. Enquanto CABA e Mendoza ainda permitem a tolerância de 0,5 g de álcool por litro de sangue, em outras províncias, como Buenos Aires, a proibição é total. As multas elevadas, que podem chegar a milhões de pesos, e a intensificação da fiscalização têm resultado na redução constante das taxas de alcoolemia positiva, reforçando um efeito dissuasor no consumo de bebidas alcoólicas.

4. Menores Vendas e Crise nas Vinícolas

A venda de vinho despencou em 2,5% em 2025, acentuando a crise no setor, que enfrenta preços pressionados, estoques elevados e uma diminuição da área cultivada. A perda de rentabilidade tem levado muitos produtores a abandonarem vinhedos menos produtivos, uma tendência observada desde 2010. O cenário é ainda mais complicado devido ao aumento constante dos custos de produção, à desvalorização do peso e à queda nas exportações, que recuaram 7,2%, atingindo seu menor nível em duas décadas. Como resultado, diversas vinícolas estão enfrentando dificuldades financeiras significativas, levando à venda de ativos e à entrada de investidores estrangeiros no mercado.

5. Restrição e Prioridades de Gasto

A estrutura de gastos das famílias argentinas também mudou drasticamente, pressionada por aumentos em tarifas, combustíveis e serviços essenciais, além de um incentivo para compras no exterior. Em meio a esse cenário, categorias consideradas não prioritárias, como bebidas alcoólicas, doces e cosméticos, foram as mais afetadas. O vinho, em particular, não é visto como uma prioridade em tempos de contenção financeira. Entretanto, surgem sinais de adaptação, como formatos de consumo mais informais, misturas com outras bebidas e uma maior presença entre jovens e mulheres em encontros sociais, que podem indicar possíveis caminhos de resiliência para o setor.

Com informações do Clarín.

Fonte: www.moneytimes.com.br

As informações apresentadas neste artigo têm caráter educativo e informativo. Não constituem recomendação de compra, venda ou manutenção de ativos financeiros. O mercado de capitais envolve riscos e cada investidor deve avaliar cuidadosamente seus objetivos, perfil e tolerância ao risco antes de tomar decisões. Sempre consulte profissionais qualificados antes de realizar qualquer investimento.

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