Expansão do Uso de Títulos em Economias Emergentes
De acordo com a agência, as economias emergentes da América Latina estão aumentando o uso de títulos emitidos no mercado doméstico e em moeda local com o objetivo de reduzir a dependência de financiamentos externos e promover uma maior resiliência frente a choques provenientes do exterior. O fortalecimento de mercados locais mais robustos, juntamente com uma base mais ampla de investidores domésticos, tende a reduzir a volatilidade durante períodos de estresse global.
Esse fenômeno se intensificou especialmente após a pandemia, em um cenário marcado por uma maior instabilidade internacional. As necessidades médias de financiamento dos governos na região aumentaram para cerca de 7% do Produto Interno Bruto (PIB). Simultaneamente, as tensões geopolíticas e a ocorrência frequente de volatilidade tornaram mais evidentes os riscos associados à dependência de capital estrangeiro.
A Moody’s destaca que, como resultado, “a participação média da dívida pública emitida no mercado doméstico e em moeda local na América Latina aumentou aproximadamente cinco pontos percentuais, alcançando cerca de 50% e 55%, respectivamente, desde 2016”.
Exemplos de Avanço na Resiliência
Países como México e Uruguai são citados como exemplos positivos dessa evolução, apresentando ganhos claros em termos de resiliência.
Entretanto, a agência ressalta que essa progressão não é uniforme entre as economias da região. Aqueles países com maior poupança doméstica, sistemas financeiros mais desenvolvidos e políticas macroeconômicas mais confiáveis estão à frente nesse movimento. “Os países soberanos com pools de poupança internos maiores, desenvolvimento financeiro mais robusto e estruturas fiscais e monetárias confiáveis têm registrado uma participação crescente de dívida doméstica”, afirma o relatório, mencionando Chile e Costa Rica como exemplos a serem destacados.
Desafios para Economias Menos Desenvolvidas
Em contrapartida, nações que apresentam mercados menos desenvolvidos ou enfrentam limitações institucionais têm enfrentado mais dificuldades para avançar nesse sentido. Os casos de Paraguai e Argentina demonstram como a baixa profundidade do mercado e as dificuldades em formular políticas econômicas podem restringir a capacidade de financiamento interno.
Embora a dívida emitida em moeda local possa reduzir a vulnerabilidade a choques cambiais e à fuga de capital, ela pode apresentar custos mais elevados. Em muitos casos, o financiamento proveniente do exterior ainda oferece condições mais vantajosas, especialmente quando considera o crédito de organismos multilaterais com taxas de juros reduzidas.
Entraves Estruturais em Economias Menores
Além disso, existem barreiras estruturais importantes. Em economias menores ou aquelas que possuem ratings de crédito mais baixos, a capacidade de desenvolver mercados internos robustos enfrenta desafios relacionados à baixa poupança interna, uma infraestrutura financeira incompleta e a eficácia limitada das políticas públicas.
A agência observa: “Algumas economias enfrentam pools de poupança mais limitados, uma eficácia de políticas média mais baixa e uma maior dependência de financiamento externo”.
Concentração do Financiamento em Bancos Locais
Outro risco evidenciado é a concentração do financiamento em bancos locais. Embora essa dinâmica ajude a sustentar o mercado interno, ela pode fortalecer o chamado “nexo soberano-bancário” e potencialmente reduzir o crédito disponível ao setor privado, como demonstrado em países como a Guatemala.
Porém, iniciativas direcionadas a ampliar a base de investidores e aprimorar a infraestrutura de mercado têm contribuído para mitigar parte desses riscos. Exemplos de Jamaica e República Dominicana ilustram que reformas institucionais são capazes de impulsionar o desenvolvimento do financiamento interno.
Comparação com Economias Avançadas
Comparativamente, a América Latina ainda se encontra em uma fase intermediária em relação a economias avançadas. Nos países desenvolvidos, a combinação de alta poupança doméstica, sistemas financeiros sofisticados e políticas públicas eficazes permite que os governos se financiem localmente a custos mais baixos e com maior estabilidade.
Na região, alguns países começam a se aproximar desse ideal. “Chile e Trinidad e Tobago, em particular, beneficiam-se de uma sólida base de financiamento doméstico e de custos de endividamento baixos em comparação à média regional”, afirma a Moody’s, apontando que essas nações combinam um desenvolvimento financeiro robusto, uma disciplina fiscal rigorosa e uma menor carga de dívida.
Desafios Futuros para a Região
Sem um aumento significativo na credibilidade fiscal, um fortalecimento das instituições e um aprofundamento dos mercados financeiros, a estratégia de ampliação do financiamento doméstico provavelmente avançará de forma desigual na América Latina, mantendo custos elevados para diversos países da região.
Fonte: einvestidor.estadao.com.br


