Bradesco: Queda nos Ganhos e Resultados Mistos
O Bradesco (BBDC4) está próximo de recuperar na totalidade os ganhos acumulados no ano, apresentando resultados que, apesar de considerados positivos, geraram algumas inquietações entre os analistas. No início da tarde, as ações da instituição financeira apresentavam uma queda de 3,27%, cotadas a R$ 18,64. Quando comparadas à máxima do ano, registrada em fevereiro, a desvalorização alcança 14%.
Apesar das preocupações, os números divulgados não foram suficientes para alterar as recomendações feitas pelos analistas. Alguns especialistas até interpretam a queda como exagerada, considerando o potencial de valorização das ações após a queda de hoje:
| Casa | Recomendação | Preço-alvo | Potencial* |
|---|---|---|---|
| XP Investimentos | Neutra | R$ 24 | +28,5% |
| BTG Pactual | Neutra | R$ 23 | +23,2% |
| Banco Safra | Compra | R$ 26 | +39,3% |
| Eleven | Neutra | R$ 16,5 | -8,9% |
| BB Investimentos | Compra | R$ 22 | +17,8% |
| Levante Investimentos | Compra | R$ 22 | +17,8% |
| Itaú BBA | Compra | R$ 22 | +17,8% |
*O valor considerado foi de R$ 18,68.
Bradesco: Análise dos Resultados
A XP Investimentos ressaltou que o Bradesco apresentou resultados mistos, com lucro líquido recorrente de R$ 6,8 bilhões, refletindo uma trajetória de recuperação. Entretanto, foram levantadas questões quanto à qualidade de crédito e à utilização de capital. A análise aponta que o custo do risco aumentou 3,5%, impulsionado por um caso específico no setor atacadista e pela normalização do segmento massificado. Apesar disso, os índices de inadimplência e cobertura permanecem sob controle, atendendo aos critérios estabelecidos.
Embora o lucro, a rentabilidade e as margens tenham se elevado, um aspecto que chamou a atenção foi o aumento das provisões. Esta linha de gastos cresceu 26,5% em um ano e 9,5% no trimestre, alcançando R$ 9,6 bilhões, o que acendeu um alerta em parte do mercado.
Segundo a análise do Banco Safra, as provisões tiveram um efeito significativo nos resultados da instituição. O custo do risco subiu em 20 pontos-base no trimestre, elevando em 6% as perdas esperadas com crédito (Expected Credit Loss, ECL), o que acabou por compensar o resultado positivo da receita líquida de juros (Net Interest Income, NII).
Marcelo Noronha, o CEO do Bradesco, buscou minimizar a preocupação sobre a deterioração das provisões, informando que a situação está vinculada a um caso específico no setor atacadista. “Não posso comentar individualmente sobre operações, mas trata-se de um caso em recuperação no qual, por uma postura mais conservadora, decidimos elevar o nível de provisão”, explicou Noronha.
Por outro lado, o BTG Pactual concordou que o impacto deveria ser considerado como não recorrente, mas salienta que o reconhecimento de perdas também sugere que os passivos não foram totalmente provisionados no último balanço patrimonial.
Flavio Conde, da Levante Investimentos, opina que a reação do mercado à queda foi exagerada. “Se a provisão aumentou R$ 900 milhões, houve recuperação de R$ 400 milhões. Ou seja, o montante provisionado líquido seria de R$ 450 milhões”, ponderou. Ele também ressaltou que o Bradesco conseguiu compensar o aumento das provisões através de um crescimento nas margens, em contraste com a situação observada no Itaú (ITUB4).
“Acredito que as ações deveriam subir, e não descer. O resultado foi superior ao esperado. Quando comparado aos balanços de Santander (SANB11) e do próprio Itaú, este foi o melhor”, completou Conde.
Posturas e Expectativas
O Banco Safra ainda declarou que o Bradesco adota uma abordagem mais conservadora em relação à deterioração macroeconômica, sinalizando uma postura prudencial para lidar com uma possível deterioração na qualidade dos ativos. “Embora isso traga mais segurança, pode também sugerir uma projeção mais otimista do que conservadora, o que levaria à manutenção da estimativa de consenso de lucro líquido entre R$ 27,5 bilhões e R$ 28 bilhões para 2026”, alertou.
Durante uma teleconferência com jornalistas, Noronha reafirmou que o Bradesco mantém uma orientação mais conservadora, porém isso não implica em uma paralisação das operações. “Esse viés mais conservador indica que podemos avaliar modelos específicos e concluir que não temos apetite suficiente para prosseguir em algumas modalidades”, explicou.
O CEO destacou que a situação macroeconômica se deteriorou desde a divulgação do quarto trimestre, em meio à instabilidade oriunda da guerra no Irã.
Destaques Positivos do Resultado
Além da recuperação do lucro e da rentabilidade, que se elevou para 15,8%, outros fatores positivos foram destacados. O BTG Pactual observou um desempenho robusto na receita bruta, o que pode contribuir para um crescimento adicional dos lucros nos próximos trimestres.
O impacto da reorganização da BradSaúde (SAUB3) foi superado, superando as expectativas ao adicionar 250 pontos-base ao capital. Na última segunda-feira, a empresa formada pela fusão dos ativos de saúde do Bradesco e da Odontoprev reportou um lucro de R$ 1,3 bilhão, corroborando o bom momento do grupo segurador.
Segundo a Genial, essa foi a principal boa nova do trimestre. A corretora revelou que a operação deve contribuir com aproximadamente +2,5 pontos percentuais ao capital do banco em bases pro forma, refletindo uma redução significativa na intensidade regulatória da nova estrutura societária e uma diminuição do consumo de RWA (Risk-Weighted Assets).
“A avaliação atribuiu um valuation de aproximadamente R$ 48,9 bilhões à BradSaúde, o que se compara a cerca de R$ 15 bilhões registrados no balanço do Bradesco, sugerindo um destravamento de valor relevante”, afirmaram especialistas.
Sai um bom indicador, pois a inadimplência superior a 90 dias do Bradesco aumentou apenas 10 pontos-base em comparação com o trimestre anterior (20 pontos-base quando se trata de PMEs), o que, levando em conta a sazonalidade do primeiro trimestre, é considerado uma boa notícia, segundo análise do BTG Pactual.
Conforme mencionado, aqueles que estavam com recomendação de compra mantiveram essa posição, enquanto os analistas que indicavam uma postura neutra mantiveram suas opiniões. O BB Investimentos é uma das instituições que permanecem otimistas. Os analistas reiteraram suas previsões, enfatizando que as estimativas para 2026 reforçam a confiança em um ano que deve ser marcado pela continuidade dos ajustes operacionais.
“Esse movimento, em nossa visão, já vem sendo reconhecido pelo mercado: as ações do Bradesco têm mostrado desempenho significativamente superior ao Ibovespa nos últimos 12 meses, e este relatório representa exatamente um ano desde que retomamos a recomendação de compra”, disseram os analistas.
O Safra também reafirmou sua recomendação de compra e a preferência pelo Bradesco entre os bancos tradicionais, especialmente devido ao desempenho superior em receitas e resultados positivos, aliado à robusta margem de segurança proporcionada pela operação de seguros.
Até mesmo os analistas mais céticos consideraram que os resultados foram bons. O BTG, embora tenha feito ressalvas sobre determinados itens do balanço patrimonial, destacou que existem várias variáveis a serem consideradas neste trimestre.
“Isso pode ser parcialmente explicado pela reorganização que o Bradesco está implementando em suas subsidiárias para acelerar o uso de ativos fiscais”, informaram.
Por outro lado, a Eleven adota uma visão mais pessimista. Analistas afirmam que a forte valorização observada nos últimos meses deixou o banco com pouco espaço para crescimento.
Além disso, a diferença de rentabilidade entre Bradesco e Itaú Unibanco e BTG continua a ser bastante significativa. “Olhando para o futuro, notamos a tendência de a diferença diminuir, mas em um ritmo lento, estimando que isso pode acontecer em 2025. Para modificarmos a recomendação do Bradesco, aguardamos sinais mais evidentes de recuperação da rentabilidade”, concluiram os analistas.
Fonte: www.moneytimes.com.br

