Relevância das Utilities na Bolsa Brasileira
As empresas de utilities vêm ganhando destaque na bolsa brasileira, alcançando uma participação recorde no principal índice do mercado. De acordo com um levantamento realizado pelo Money Times em parceria com a Elos Ayta, foi identificado que o peso combinado das companhias de energia elétrica, saneamento e gás aumentou de aproximadamente 5% em junho de 2021 para quase 16% em junho de 2026. Essa ascensão reflete tanto a valorização das ações quanto o crescimento do interesse dos investidores por negócios considerados mais previsíveis.
Esse movimento ocorre em um contexto macroeconômico caracterizado por taxas de juros elevadas, incertezas fiscais e dúvidas relacionadas ao crescimento econômico. Entretanto, sua explicação também se encontra nos avanços que têm ocorrido dentro do próprio setor.
Em períodos de maior volatilidade, os investidores tendem a favorecer empresas que apresentam receitas recorrentes, proteção contra a inflação e um histórico consistente de distribuição de dividendos; características essa que estão historicamente associadas às utilities.
Fonte: carteira teórica mensal do Ibovespa, jun/2021-jun/2026. Soma dos pesos de
Axia Energia/Eletrobras, Sabesp, Equatorial, Copel, Cemig, Energisa, Engie Brasil,
ISA Energia, Copasa, Taesa, CPFL Energia, Auren e EDP – Energias do Brasil.
Crescimento do Setor de Utilities
A trajetória de crescimento do setor não foi linear. Dois eventos significativos contribuíram para o avanço das utilities no índice: a privatização da Eletrobras, agora chamada Axia Energia (AXIA3), completada em 2022, e a desestatização da Sabesp (SBSP3), realizada em 2024. Essas ações reforçaram a percepção de que empresas de infraestrutura regulada têm o potencial de gerar valor por meio de eficiência operacional e melhores alocações de capital.
Paralelamente ao aumento da participação das empresas já integradas ao Ibovespa, o setor também registrou a ascensão de companhias como Equatorial (EQTL3), Copel (CPLE3), Cemig (CMIG4), Energisa, CPFL Energia, ISA Energia e Engie Brasil. A própria Sabesp se tornou um exemplo marcante desse período, com sua participação na carteira teórica do índice multiplicando significativamente após a privatização.
Proteção em Períodos Desafiadores
Segundo Bernardo Viero, analista da Suno Research, a crescente demanda pelas utilities reflete a busca dos investidores por proteção em tempos econômicos difíceis. Viero ressalta que a aversão ao risco, assim como a incerteza em relação às taxas de juros a longo prazo, levam os investidores a alocarem seus recursos em segmentos mais previsíveis e seguros.
Diversos dados de negociação corroboram essa análise. Levantamentos feitos pela Elos Ayta apontam que as empresas de utilidades públicas representaram 14,5% do volume financeiro médio diário negociado na B3 em 2026, em comparação com 11,2% em 2024. Quando analisado em valores absolutos, o volume negociado pelo setor aumentou de R$ 1,9 bilhão para R$ 3,5 bilhões por dia durante esse período.
Saneamento: Um Setor em Ascensão
Uma das principais razões para o recente avanço das utilities se deve ao setor de saneamento. Esse movimento ganhou força após a aprovação do novo Marco Legal do Saneamento em 2020, que estabeleceu metas de universalização para os serviços de água e esgoto até 2033 e ampliou a participação da iniciativa privada nesse campo.
Desde então, os investidores têm passado a considerar um ciclo de investimentos de longo prazo, reconhecendo o potencial de consolidação, eficiência e crescimento para empresas que consigam ampliar suas operações ou melhorar seus indicadores operacionais. O novo Marco Legal também ajudou a explicar as privatizações no setor, uma vez que as empresas precisam buscar financiamento para atender às novas exigências de universalização.
Após a privatização da Sabesp, os investidores voltaram suas atenções a outras companhias que poderiam apresentar uma trajetória de valorização semelhante. Assim, empresas como Copasa e Sanepar (SAPR11) passaram a ser mais observadas. Flávio Conde, analista da Levante, destaca que “aqueles que compraram ações da Sabesp antes da privatização obtiveram excelentes retornos.” Ele complementa que depois desse evento, o mercado começou a observar com mais interesse outras empresas, como Copasa e Sanepar.
Expectativas de Privatização
A expectativa pela privatização da companhia mineira, que deve ocorrer em breve, tem influenciado positivamente as ações da empresa. Segundo Conde, entretanto, grande parte dessa expectativa já está embutida nos preços atuais.
Viero, também da Suno Research, endossa essa avaliação ao afirmar que “Copasa já não é negociada com o desconto tradicionalmente atribuído a estatais. O período em que se pagava um valor inferior para se expor a uma estatal que poderia melhorar seus resultados já passou. Atualmente, embora a melhoria ainda seja possível, ela se tornou uma condição necessária para garantir um retorno atrativo.”
O crescente interesse dos investidores também se faz notar nas operações de mercado de capitais. Recentemente, a oferta subsequente de ações da Copasa atraiu uma demanda expressiva, com relatos de pedidos de investidores chegando a cerca de R$ 25 bilhões, muito além do volume inicialmente ofertado.
Transformações no Setor Elétrico
No setor elétrico, a atratividade vai além das características defensivas comuns. Segundo Conde, o mercado passará por uma transformação estrutural, impulsionada pelo crescimento acelerado da geração solar e eólica, o que resulta em excesso de energia durante o dia e uma maior demanda à noite. Essas mudanças elevam os preços em horários específicos e favorecem empresas que dispõem de energia disponível para comercialização.
Além disso, esse fenômeno está promovendo discussões sobre investimentos em sistemas de armazenamento com baterias, considerados fundamentais para equilibrar a geração renovável e o consumo. O interesse dos investidores também se estende ao potencial de crescimento associado à expansão dos data centers e à inteligência artificial, que podem elevar significativamente a demanda pelo consumo de energia elétrica nos anos vindouros. Viero acredita que, enquanto a infraestrutura adicional não se concretiza, essa tendência se apresenta mais como uma opção do que como uma realidade incorporada nas projeções das empresas.
Dividendos e Perspectivas em um Cenário Volátil
Analistas afirmam que a ascensão das utilities não está explicada apenas pela busca de segurança. Para além da previsibilidade das receitas e dos dividendos recorrentes, os setores de energia e saneamento estão em um ciclo de expansão, impulsionado por investimentos em infraestrutura, mudanças regulatórias e novas demandas de consumo.
Viero resume essa visão ao afirmar: “As utilities oferecem previsibilidade em meio ao caos macroeconômico e possuem boas perspectivas em termos micro e setoriais.” Contudo, os especialistas ressaltam que o principal risco reside na avaliação das empresas. “Não adianta ter boas perspectivas se o mercado já precificou essas companhias perfeitamente”, alerta o analista da Suno.
Com uma liquidez aprimorada, uma maior presença no Ibovespa e operações bilionárias atraindo a atenção de investidores, as utilities estão solidificando sua posição como um dos principais destinos do capital na bolsa brasileira, destacando-se como um dos poucos setores que conseguiram ganhar relevância de maneira constante ao longo dos últimos cinco anos.
Fonte: www.moneytimes.com.br
