A aposta dos EUA na Groenlândia em terras raras é absurda, alertam especialistas diante dos desafios.

A aposta dos EUA na Groenlândia em terras raras é absurda, alertam especialistas diante dos desafios.

by Patrícia Moreira
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A Busca dos EUA por Recursos em Groenlândia

A iniciativa dos Estados Unidos para explorar os terrenos de Groenlândia em busca de terras raras é considerada uma solução "absurda" para reduzir a dependência de Pequim, de acordo com especialistas da indústria. As votações destacam depósitos de baixa qualidade, condições climáticas severas e o fato de que qualquer material extraído ainda precisaria ser processado na China.

Impacto do Discurso Político

Apesar dos desafios, as ações no mercado relacionadas a terras raras com exposição à Groenlândia se valorizaram após o presidente Donald Trump reviver a possibilidade de adquirir o território com base na segurança nacional, mencionando atividades russas e chinesas na região do Ártico. As ações da Critical Metals Corp, que está desenvolvendo o projeto de terras raras Tanbreez no sul da Groenlândia, tiveram um aumento de cerca de 25% na terça-feira. Já a Energy Transition Minerals, proprietária do projeto Kvanefjeld, viu suas ações subirem mais de 30%.

Importância Estratégica da Groenlândia

Localizada entre os Estados Unidos e a Rússia, a Groenlândia é considerada de grande importância estratégica, especialmente no que diz respeito à segurança no Ártico. O território abriga aproximadamente 57.000 pessoas e está situado próximo a novas rotas de navegação no Ártico, que, devido ao derretimento do gelo, poderiam reduzir drasticamente o tempo de trânsito entre a Ásia e a Europa quando comparado ao Canal de Suez.

O governo norte-americano também vê os recursos da Groenlândia como uma forma de romper o monopólio da China sobre as terras raras, conforme informado por Brendan Clark, CEO da Victory Metals.

Interesses de Segurança Nacional

Michael Waltz, que era o conselheiro de segurança nacional do governo Trump, declarou de forma clara o interesse do presidente em Groenlândia. "Isso se trata de minerais críticos. Isso se trata de recursos naturais", afirmou Waltz em uma entrevista à Fox News há um ano. Caso os Estados Unidos controlassem a Groenlândia, o mercado provavelmente anteciparia aprovações para mineração, criando uma expectativa otimista de curto prazo, como mencionado por Mathan Somasundaram, fundador e CEO da Deep Data Analytics.

Desafios na Mineração e Processamento

Entretanto, especialistas alertam que o entusiasmo pelo aumento de ações ignora gargalos fundamentais na extração e processamento das terras raras. Somasundaram destacou que as dificuldades climáticas tornam a mineração muito desafiadora e não economicamente viável. Mesmo que a extração ocorra, os materiais teriam que ser enviados para a China para processamento, o que, a médio e longo prazos, acaba não fazendo muita diferença.

Qualidade do Minério

No cerne do ceticismo está a qualidade do minério. Embora a Groenlândia possua grandes volumes de rochas que contêm terras raras, as concentrações são significativamente inferiores às encontradas em minas existentes em outros lugares do mundo. Alguns dos projetos na Groenlândia são expressivos, porém normalmente carecem de altas concentrações de terras raras mais estrategicamente valiosas, como disprózio, térbio e ítrio.

"Embora existam volumes muito grandes de rocha enriquecida em terras raras, suas qualidades são muito baixas", afirmou John Mavrogenes, Professor de Geologia Econômica na Australian National University. Nas principais minas produtoras do mundo, como as localizadas nos Estados Unidos, China e Austrália, as terras raras geralmente representam cerca de 5% a 10% ou mais do minério, permitindo que uma quantidade maior de material utilizável seja recuperada a cada tonelada minerada. Na Groenlândia, essa cifra é inferior a 1%.

Custo e Logística

A baixa qualidade do minério eleva consideravelmente os custos. "Quando as qualidades são tão baixas, é necessário movimentar uma quantidade enorme de rocha", disse Mavrogenes. "Imagine comparar minérios com 1% de terras raras a alguns com 10%. Isso significa que você precisaria mover dez vezes mais volume de rochas em um lugar sem infraestrutura, sem equipamentos existentes e sem uma força de trabalho adequada." Mesmo sob condições otimistas, Mavrogenes afirmou que a produção na Groenlândia estaria vários anos distante. "Seria necessário, pelo menos, uma década antes de serem feitas quaisquer movimentações", afirmou.

Processamento de Terras Raras

Esse não é o único obstáculo. Se a mineração prosseguir, o processamento continua sendo o principal gargalo da indústria e a maior alavanca da China, advertiram veteranos do setor. As terras raras necessitam ser separadas e refinadas antes de serem transformadas em metais ou ímãs, e a China detém quase um monopólio sobre o processamento de terras raras, controlando cerca de 90% do refino global. Isso lhe confere uma vantagem estratégica sobre as cadeias de suprimento, especialmente em setores como veículos elétricos, energia renovável e sistemas de defesa.

"Todo o foco deve estar no processamento fora da China. Os recursos da Groenlândia não alteram a dinâmica, já que as terras raras não são tão raras. Elas estão presentes em todo lugar… Qualquer um que consiga realizar processamento em larga escala fora da China terá uma vantagem significativa", disse Somasundaram.

Reservas nos EUA

Caso Washington quisesse garantir suprimentos, já teria essa capacidade, de acordo com Jon Hykawy, presidente e diretor da Stormcrow Capital. As reservas de terras raras nos EUA são estimadas em 1,9 milhão de toneladas, em comparação com as 1,5 milhão de toneladas previstas para a Groenlândia, segundo o Serviço Geológico dos EUA. "Se os EUA desejam terras raras, eles podem simplesmente extraí-las no continente americano."

Riscos Ambientais e Políticos

Clark, da Victory Metals, também destacou os riscos ambientais e políticos, salientando a forte oposição à mineração na ilha ártica. Investidores poderiam ficar expostos caso os EUA não consigam um acordo que atenda a esses riscos. Kingsley Jones, da Jevons Global, apontou que há uma desconexão entre a política e a economia. "A segurança de novas terras raras na Groenlândia não terá impacto nenhum nesta área de insegurança da cadeia de suprimentos", disse Jones. "O que observamos é que a retórica política tem superado em muito a realidade comercial."

Fonte: www.cnbc.com

As informações apresentadas neste artigo têm caráter educativo e informativo. Não constituem recomendação de compra, venda ou manutenção de ativos financeiros. O mercado de capitais envolve riscos e cada investidor deve avaliar cuidadosamente seus objetivos, perfil e tolerância ao risco antes de tomar decisões. Sempre consulte profissionais qualificados antes de realizar qualquer investimento.

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