A compra da Desktop pela Claro
A Claro iniciou um novo ciclo no setor de telecomunicações brasileiro ao anunciar, no domingo, 22, a aquisição da Desktop, a maior provedora independente de banda larga fixa localizada no interior de São Paulo.
A ação evidencia o esforço das operadoras para aumentar sua escala de atuação e avançar na combinação de pacotes de internet móvel e fixa. Essa estratégia é fundamental para melhorar a retenção de clientes em um ambiente de intensa concorrência. Especialistas indicam que essa transação poderá incentivar outras operadoras a adotarem estratégias semelhantes.
Histórico da Desktop
A Desktop foi fundada em 1997, na cidade de Sumaré (SP), por Dênio Alves Lindo. Em 2020, recebeu investimento da gestora norte-americana HIG Capital, com o objetivo de acelerar seu crescimento. Em 2021, a empresa fez sua estreia na Bolsa de Valores. Desde o final do ano passado, a Claro começou a discutir a compra da empresa, após tentativas de negociação com a Vivo, que não resultaram em acordo devido a divergências sobre o preço definido.
Atualmente, a Desktop conta com 1,2 milhão de clientes em 198 cidades do Estado de São Paulo, o que representa uma participação de mercado de 7,6%.
No que diz respeito à Claro, a aquisição é um passo significativo no Estado, onde compete pela liderança com a Vivo. A Claro possui 4,5 milhões de clientes em São Paulo, correspondendo a 28,3% do mercado, enquanto a Vivo detém 4,9 milhões de clientes, ou seja, 31% do total.
Detalhes do negócio
Na primeira fase da transação, a Claro comprará 73% das ações da Desktop a um preço de R$ 20,82 por ação, o que representa um prêmio de 45% em relação ao valor em Bolsa. Essa negociação avaliou a Desktop em R$ 4 bilhões, que inclui R$ 2,4 bilhões referentes aos ativos e R$ 1,6 bilhão referente à dívida líquida.
Em uma segunda fase do processo, a Claro deverá realizar uma oferta para adquirir os 27% restantes das ações existentes no mercado. Consequentemente, a avaliação da Desktop foi estimada em 6,2 vezes o seu lucro operacional (Ebitda) projetado para 2025.
De acordo com análises do mercado, essa transação representa um indicativo de que o processo de consolidação no setor de banda larga no Brasil está entrando em uma fase mais estratégica. “As operadoras estão utilizando fusões e aquisições não apenas para ampliar sua escala, mas também para reforçar a convergência entre serviços móveis e fixos, aumentar a presença regional, reduzir a taxa de desconexões e restaurar a racionalidade em um ambiente de alta competitividade”, afirmaram os analistas da XP, Bernardo Guttmann e Luis Chagas, em um relatório divulgado.
Crescimento do setor de banda larga
O mercado de internet por banda larga atingiu um crescimento significativo entre 2018 e 2022, impulsionado por medidas regulatórias que dispensaram pequenas empresas de atender às mesmas exigências de qualidade e prestação de contas que as grandes operadoras. Este período foi marcado pela expansão das redes de fibra óptica e uma maior atração de clientes.
Desde 2018, o total de assinantes de banda larga cresceu 72%, conforme relatórios da Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel), subindo de 31,2 milhões para 53,8 milhões. Contudo, atualmente, o serviço já é amplamente difundido e não apresenta um crescimento no mesmo ritmo, registrando uma expansão de apenas 2,5% entre 2024 e 2025.
Por esse motivo, as empresas mudaram seu foco. A competição por clientes está aumentando, e não há espaço para aumentos significativos nos preços dos planos de banda larga. As fusões, portanto, tendem a se tornar uma alternativa viável para expandir a base de clientes e aumentar a receita, enquanto se diluem os custos associados à manutenção das redes, publicidade, equipamentos e investimentos. Um exemplo notável que iniciou esse ciclo foi a fusão entre os negócios da Vero e Americanet, realizada em 2023.
Desde então, os altos juros na economia brasileira pressionaram o valor dos ativos, resultando em uma pausa nas fusões e aquisições. Entretanto, a expectativa é de que a possível queda nas taxas de juros possa reavivar esse processo, como evidenciado pelo valor elevado que a Claro está disposta a pagar nesta operação, tendo em vista a avaliação de 6,2 vezes o lucro operacional.
“Esse é um prêmio considerável em relação ao múltiplo atual de 5 vezes da Desktop e pode acelerar as tendências de consolidação nesse setor. O mercado se encontra ainda muito fragmentado, com diversas empresas enfrentando dificuldades em um contexto de juros altos e competição acirrada”, afirmaram os analistas de telecomunicações do Itaú BBA, sob a liderança de Maria Clara Infantozzi.
Regulamentação da operação
A conclusão do negócio está sujeita à autorização prévia do Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) e da Anatel.
Carlos Baigorri, presidente da Anatel, declarou ao Broadcast (sistema de notícias em tempo real do Grupo Estado) que a aquisição da Desktop pela Claro não gera preocupação e será analisada segundo os termos regulamentares.
“Diante da ausência de barreiras à entrada de novas empresas no mercado e a natureza altamente competitiva do setor, a Anatel não enxerga riscos em relação a essa operação”, comentou Baigorri na manhã de segunda-feira, 23.
A afirmação do presidente contrasta com um relatório elaborado pela área técnica da agência reguladora em outubro, que indicava que essa transação seria motivo de “preocupação substancial” em função dos potenciais efeitos adversos sobre a concorrência no mercado e a entrada de novos competidores.
“A área técnica possui sua própria visão, mas institucionalmente, eu sou a voz da Anatel. E não tenho nenhuma preocupação com esta transação”, ressaltou Baigorri.
Características do mercado de telecomunicações no Brasil
O presidente da Anatel destacou que o mercado de banda larga fixa no Brasil é “o mais competitivo do mundo”, contando com mais de 15 mil provedores atuando no País. “Nesse panorama, a consolidação do mercado é algo previsível e esperado”, afirmou.
Ele acrescentou que o mercado é totalmente acessível, de modo que qualquer operadora pode ingressar sem custos significativos.
Fonte: www.moneytimes.com.br

