Embora a filosofia greco-romana possa parecer distante do universo empresarial contemporâneo, a realidade revela um interesse notável de alguns dos mais influentes nomes de Wall Street, do Vale do Silício e da política por novas interpretações de obras com quase dois mil anos de existência, escritas por Marco Aurélio, Sêneca e Epicteto, figuras proeminentes do estoicismo. Apesar de não terem abordado temas como startups, mercado financeiro ou inteligência artificial em suas obras, os ensinamentos desses filósofos continuam sendo relevantes para líderes, investidores e empreendedores que precisam fazer escolhas em um ambiente repleto de riscos, pressão, ego e incertezas.
Marco Aurélio: o imperador romano que se tornou leitura obrigatória de grandes líderes
Entre os escritos estoicos, a obra Meditações, de Marco Aurélio, se destaca como uma das mais conhecidas.
Originalmente, este texto foi concebido como anotações pessoais de um imperador romano e não tinha a intenção de ser publicado. Funciona mais como um diário de autocontrole, disciplina e reflexões sobre os desafios enfrentados na liderança de um dos maiores impérios da história.
Bill Clinton já expressou que Meditações é seu livro favorito e que o relê frequentemente. O ex-presidente norte-americano destacou o impacto dessa obra em sua forma de compreender liderança, responsabilidade e pressão em situações desafiadoras.
Clinton não é um caso isolado; presidentes como Theodore Roosevelt e George Washington também costumam ser associados à leitura de autores estoicos, revelando uma continuação dessa tradição ao longo do tempo.
Mesmo sendo uma das figuras mais poderosas de sua época, Marco Aurélio abordou temas como humildade, dever e controle emocional. Essa combinação de qualidades permanece relevante para aqueles que enfrentam pressão pública, política ou financeira.
Sêneca: um filósofo estoico que viveu entre riqueza e reflexão
Sêneca, um senador romano, filósofo estoico e detentor de grande fortuna, deixou um legado escrito sobre temas como tempo, fortuna, morte, riqueza e autocontrole através de cartas que sobreviveram por quase dois milênios.
É comum encontrá-lo citado no trabalho de Nassim Nicholas Taleb, que é trader e autor de influentes livros como A Lógica do Cisne Negro e Antifrágil. Taleb dedica capítulos inteiros à filosofia de Sêneca, explorando suas lições sobre a instabilidade e os desafios que se manifestam em nossa vida.
Em Antifrágil, ele associa Sêneca à capacidade de prosperar apesar da instabilidade, afirmando que a filosofia estoica ensina a ganhar com a incerteza ao invés de ser dominado por ela. Para Taleb, “a versão de Sêneca para o estoicismo é a antifragilidade em relação ao destino.”
No contexto do mercado financeiro, a conexão entre a filosofia estoica e o ambiente de investimentos é quase intuitiva. Quando se trata de investir, é inevitável lidar com ruídos, volatilidade e incertezas, e o estoicismo não elimina esses riscos. Contudo, ele oferece uma forma de não ser dominado por eles e, em certas circunstâncias, até de capitalizar com eles.
Para Taleb, o estoico moderno é aquele que “transforma o medo em prudência e os erros em aprendizado.”
Epicteto: ensinamentos que inspiram empreendedores
O Manual de Epicteto justifica seu título. Em um texto conciso e direto, ele afirma: “Algumas coisas dependem de nós, outras não.”
Epicteto nasceu como escravo, conquistou sua liberdade e se tornou uma das figuras mais influentes do estoicismo. Suas ideias chegaram até nós por meio das anotações feitas por seus alunos.
Tim Ferriss, investidor-anjo e autor de Trabalhe 4 Horas por Semana, é um dos responsáveis por reintroduzir o estoicismo no Vale do Silício. Segundo Ferriss, a filosofia estoica serve como uma ferramenta prática para lidar com riscos, pressões e decisões difíceis que surgem na administração de startups bilionárias.
Em seu blog, Ferriss escreveu sobre como “o estoicismo é o sistema operacional pessoal ideal para prosperar em ambientes de alto estresse.”
Essa lógica talvez explique o crescente interesse entre fundadores, investidores e executivos, já que empreender significa conviver com variáveis incontroláveis, como as mudanças no mercado, concorrência, taxas de juros, inovações tecnológicas e comportamento do consumidor.
A filosofia de Epicteto ensina uma abordagem simples: se a situação não depende de você, não desperdice energia tentando controlá-la; caso contrário, aja com disciplina e determinação.
O ‘estoicismo aplicado’ aos negócios e aos investimentos
Warren Buffett, Bill Gates e Jeff Bezos podem não ter declarado abertamente a presença de obras estoicas em suas bibliotecas, mas seus comportamentos e princípios de vida refletem a filosofia estoica.
Buffett, por exemplo, é conhecido por defender que os investidores atuem dentro de seu “círculo de competência”. Essa ideia remete à dicotomia do controle estoico de focar no que se entende bem, no que se pode dominar e no que é possível decidir de maneira clara.
Charlie Munger, sócio de Buffett na Berkshire Hathaway, também é frequentemente associado a uma mentalidade estoica, evitando decisões guiadas por ego, minimizando erros evitáveis e cultivando modelos mentais que melhoram sua capacidade de análise.
Em seu livro Poor Charlie’s Almanack, Munger faz referências diretas a Epicteto, Sêneca e Marco Aurélio, utilizando seus ensinamentos para moldar sua filosofia de vida, resiliência e processar decisões financeiras.
Bill Gates, por sua vez, é conhecido por manter uma rotina de leitura intensa e aprendizado constante ao longo de décadas. Jeff Bezos ganhou notoriedade por proteger seu tempo e energia mental, além de priorizar decisões a longo prazo.
Essa aproximação ao estoicismo é comumente referida como “estoicismo aplicado” ao âmbito empresarial e ajuda a esclarecer o motivo pelo qual essas obras continuam a seduzir empreendedores e investidores que precisam tomar decisões sob pressão.
Por onde começar: o que ler primeiro?
Aqueles que desejam compreender por que essas obras ainda figuram entre as leituras relevantes para líderes, investidores e empreendedores têm duas opções de abordagem.
A primeira é explorar os autores contemporâneos que adaptam os clássicos para os contextos atuais. Essa pode ser uma excelente porta de entrada para quem busca aplicar a filosofia estoica na sua rotina e nas suas decisões comerciais:
- Ryan Holiday: Diário Estoico, A Vida dos Estoicos, O Ego é Seu Inimigo, e O Obstáculo é o Caminho, entre outros;
- Donald Robertson: Pense Como um Imperador e Estoicismo e a Arte da Felicidade;
- Massimo Pigliucci: Como Ser Um Estoico;
- David Fideler: Um Café com Sêneca.
A segunda etapa consiste em se aprofundar nos clássicos originais:
- Marco Aurélio: Meditações;
- Sêneca: Cartas de um Estoico, Sobre a Vida Feliz, Sobre a Brevidade da Vida, entre outros;
- Epicteto: Manual de Epicteto e Discursos.
A leitura desses textos pode indicar que, mesmo em Wall Street e no Vale do Silício, o foco não está apenas em acumular riqueza, mas em conservar a clareza mental e a racionalidade ao se construir algo significativo.
Fonte: www.moneytimes.com.br

