A nova bolha que assusta Wall Street

A próxima bolha no mercado financeiro dos EUA

Jamie Dimon, CEO do JP Morgan, fez uma advertência ao mercado há quatro meses, afirmando que eventos inquietantes podem sinalizar a presença de problemas maiores. Ele utilizou a metáfora de que, ao observar uma barata, provavelmente há mais delas escondidas, sugerindo assim que os investidores devem estar atentos a sinais de alerta. Dimon referiu-se a uma possível bolha prestes a estourar nos Estados Unidos.

No cenário atual, há preocupações com os investimentos significativos em inteligência artificial (IA) e as avaliações inflacionadas das big techs, que podem resultar em uma nova crise. No entanto, Dimon estava se referindo a um problema que cresce dentro do mercado financeiro: o crédito privado.

Um sinal recente que levanta preocupações ocorreu esta semana, quando as ações da Blue Owl Capital apresentaram uma queda de quase 6%. Isso aconteceu após a gestora realizar a venda de US$ 1,4 bilhão em ativos provenientes de empréstimos disponíveis em seus três fundos privados de dívida.

A maior parte da venda foi originada de um fundo de crédito privado semi-líquido, denominado Blue Owl Capital Corporation II, que não oferecerá mais opções trimestrais de resgate para investidores. Essa mudança reacendeu o debate sobre o estresse crescente em um dos segmentos de maior crescimento em Wall Street.

A formação da bolha

Recentemente, as preocupações em torno do crédito privado nos Estados Unidos reapareceram, pois investidores começaram a considerar a possibilidade de que as inovações em IA poderiam desbancar modelos tradicionais de software corporativo, um setor substancial de tomadores de empréstimos privados.

As inquietações sobre alavancagem excessiva, avaliações obscuras e estresse no crédito não são recentes. Em setembro do ano passado, o alerta começou a ecoar mais intensamente, especialmente após a First Brands Group, uma fabricante de autopeças com alto nível de alavancagem, enfrentar dificuldades financeiras. Essa situação revelou estruturas de dívida complexas que vinham se acumulando ao longo de anos em um ambiente de financiamento facilitado.

Logo em seguida, o Tricolor, um banco com foco no setor automotivo, colapsou devido a alegações de fraude, resultando em uma perda de US$ 170 milhões para o JP Morgan. Nesse contexto, Dimon utilizou a metáfora sobre as baratas para alertar o mercado. Ambas as empresas estavam ligadas ao crédito privado dentro do conhecido shadow bank, que opera sem a mesma regulamentação que as instituições financeiras tradicionais e não é obrigado a divulgar os níveis de risco de suas carteiras.

Os bancos regulados, como o JP Morgan, enfrentam sua exposição ao setor de crédito privado, seja por meio de empréstimos diretos a empresas privadas ou por meio de empréstimos concedidos a instituições que trabalham com crédito privado. As conexões entre bancos e crédito privado incitam preocupações sobre as possíveis repercussões de uma crise mais profunda em uma indústria avaliada em aproximadamente US$ 3 trilhões.

Corrida aos fundos

Um dos principais problemas associados aos acordos de mercado privado é a discrepância entre compromissos de longo prazo e as opções de resgate trimestrais. Michael Shum, CEO da Cascade Debt, destacou que em períodos de prosperidade, o fluxo de caixa pode satisfazer os pedidos normais de resgate. Porém, em momentos difíceis, os pedidos aumentam, resultando em uma corrida ao fundo.

Em uma análise recente, o UBS Group alertou sobre um cenário em que as taxas de inadimplência no crédito privado nos EUA poderiam escalar até 13% em um cenário de estresse, um percentual que ultrapassa as projeções para empréstimos alavancados e títulos de alto rendimento, que, segundo o banco suíço, devem atingir cerca de 8% e 4%, respectivamente.

Mark Zandi, economista-chefe da Moody’s Analytics, apontou que, embora seja desafiador fazer uma análise completa dos riscos no setor devido à sua falta de transparência, o crescimento acelerado do crédito relacionado à IA, junto ao aumento da alavancagem, são “sinais amarelos” que não devem ser ignorados. Ele declarou que problemas de crédito significativos são inevitáveis e, embora a indústria de crédito privado possa absorver perdas moderadas de maneira razoavelmente eficiente, essa situação poderá mudar caso a corrente de crescimento do crédito continue.

Alertas sobre riscos no crédito privado

No Brasil, Daniel Goldberg, CIO da Lumina Capital, já havia levantado preocupações relacionadas ao crédito privado nos Estados Unidos. Durante um painel no Fórum de Investimentos da Bradesco Asset, realizado em novembro do ano passado, ele apontou que a indústria de crédito high yield (de alto risco) passou a direcionar sua atenção quase que exclusivamente para empresas de software na última década.

Na ocasião, Goldberg indicou que essa tendência representa um risco, uma vez que uma parte significativa desses serviços poderia ser ameaçada por inovações em inteligência artificial. Ele ressaltou que a totalidade da indústria de crédito parece ter migrado para o financiamento de software, indicando uma tendência alarmante. Ao observar a média dos últimos 30 anos, cerca de 2% a 6% do mercado de high yield é absorvido por essa indústria. Contudo, atualmente, esse percentual atinge perto de 10%, ou seja, uma em cada dez operações dessa natureza se concentra em empresas de software.

Esse cenário indica uma migração significativa para o financiamento de empresas de software, mesmo aquelas consideradas mais arriscadas, sob a perspectiva de que a relação entre risco e retorno se mostraria favorável, dado que essas agências são percebidas como com maior previsibilidade econômica.

Fonte: www.moneytimes.com.br

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