Adiamento das Negociações entre EUA e Irã
O adiamento das negociações entre os Estados Unidos e o Irã, que estavam programadas para ocorrer na Suíça, traz novas incertezas quanto à retomada da navegabilidade no Estreito de Ormuz. O Ministério das Relações Exteriores suíço confirmou que os encontros, agendados para esta sexta-feira (19) no resort de Burgenstock, não acontecerão, em razão da desistência da viagem do senador JD Vance, que buscava se reunir com negociadores iranianos.
Implementação do Acordo e Tráfego Marítimo
Durante o primeiro dia da implementação do acordo entre Washington e Teerã, cerca de dez navios petroleiros conseguiram transitar pela região. No entanto, esse número ainda é considerado insuficiente para indicar uma normalização do tráfego marítimo. Alexandre Pires, professor de Relações Internacionais do Ibmec-SP, observou que a plena retomada do corredor petrolífero levará tempo.
Pires afirmou que a região ainda apresenta as marcas dos conflitos anteriores. "Os navios cargueiros têm que chegar a uma área que esteve em estado de guerra, o que não é uma tarefa simples", disse. Ele acrescentou que o risco já foi precificado pelo mercado, o que mantém as tarifas de frete marítimo elevadas e torna a rota pouco confiável para os operadores. "Houve um distensionamento, mas as tensões permanecem", enfatizou.
Complexidade Geográfica do Estreito de Ormuz
O professor também abordou a complexidade geográfica do estreito. O Estreito de Ormuz é dividido entre os mares territoriais do Irã e de Omã. As minas instaladas pelo Irã na margem de Omã desvio a navegação para o mar territorial iraniano, criando um impasse que precisa ser resolvido por meio de negociações diplomáticas.
Com o acordo, está previsto que os Estados Unidos se retirem da região como força de bloqueio, enquanto o Irã permitirá a livre navegação por um período de 60 dias.
Pedágio de Ormuz como Instrumento de Barganha
Outro aspecto a ser considerado é a possibilidade de o Irã estabelecer uma taxa de passagem pelo estreito após o término do período de 60 dias. Alexandre Pires interpretou essa ameaça como uma ferramenta de negociação. "Isso parece mais uma questão de barganha", declarou. "O Irã, em nenhum momento, revela suas intenções totalmente, e essa tem sido a sua estratégia nas negociações."
A grande dúvida, segundo Pires, gira em torno de saber se o Irã pretende cobrar o pedágio apenas em seu mar territorial ou se também buscará taxas sobre as embarcações que transitem na área sob jurisdição de Omã. "Se isso acontecer, a guerra poderá se intensificar novamente", alertou.
O Irã como Potencial Vencedor
Quando questionado sobre quem sairia vencedor desse processo, Alexandre Pires foi assertivo: "Sem dúvida, o Irã, enquanto regime, é o grande vencedor." O país conseguiu resistir a ataques de duas potências militares, manteve seu regime mesmo após a morte de lideranças importantes e demonstrou capacidade de retaliação.
Pires ressaltou que não está claro se o Irã conquistará armas nucleares ou mísseis balísticos que possam atingir a Europa, e essas incertezas, segundo ele, favorecem o país.
O cancelamento da reunião na Suíça também está relacionado a ações de interferentes no conflito. O Hezbollah declarou, por meio de um canal de televisão iraniano, que não enviou uma delegação para as negociações. Israel, por sua vez, intensificou ataques contra o sul do Líbano.
Perspectivas de Instabilidade
Alexandre Pires avaliou que o período de 60 dias poderá ser marcado por instabilidade. "Provavelmente, será uma das tréguas que envolverá mais disparos de um lado para o outro", comentou, destacando que tanto o Hezbollah quanto Israel possuem interesses próprios que não foram satisfeitos no acordo.
"Para Israel, a existência do Hezbollah como força militar e a persistência do Irã como potência nuclear são inaceitáveis", destacou o professor, sublinhando a dificuldade em harmonizar essas posições com os interesses dos Estados Unidos.
Fonte: www.cnnbrasil.com.br


