Ouro como ativo de reserva dos bancos centrais
Em um cenário onde 2025 foi turbulento para os mercados, o início de 2026 não trouxe alívio. Conflitos geopolíticos, questões fiscais e incertezas políticas nos Estados Unidos têm gerado alertas entre analistas, apontando que os investidores buscariam proteção em um futuro próximo. A fuga em massa para o ouro se tornou evidente.
Recentemente, foi observado que, pela primeira vez desde 1996, o ouro se estabeleceu como o maior ativo de reserva estrangeira dos bancos centrais ao redor do globo. Dados da Visual Capitalist indicam que o metal precioso superou os títulos do Tesouro dos EUA, um movimento significativo após três décadas em que os Treasuries dominaram esse espaço.
Atualmente, o montante total de ouro em posse de instituições estrangeiras aproxima-se de US$ 4,5 trilhões, valor que excede os aproximadamente US$ 3,5 trilhões em ativos do governo dos Estados Unidos. Essa mudança é predominantemente impulsionada por mercados emergentes, como Índia, Turquia e Catar, que estão adotando uma estratégia clara: diminuir a dependência do dólar americano como um pilar fundamental das suas reservas internacionais.
O desempenho do ouro é notável, com o metal precioso encerrando 2025 com uma alta superior a 70%, batendo a marca de US$ 4,5 mil por onça em dezembro. No início de 2026, o ouro quebrou a barreira histórica de US$ 5,5 mil.
De 1996 para 2026: 30 anos de mudanças
A última vez que o ouro deteve uma parcela maior das reservas globais do que os Treasuries foi em 1996, quando os bancos centrais estavam ainda em uma trajetória de acumulação do metal precioso. Entretanto, entre o final dos anos 1990 e início dos anos 2000, houve uma venda generalizada de ouro pelos bancos centrais devido a um ambiente macroeconômico favorável caracterizado pelo crescimento robusto, inflação controlada e baixa volatilidade. Esse período, inclusive, foi marcado por um superávit fiscal nos EUA.
Conforme apontado pelo Fórum Econômico Mundial, os títulos americanos se tornaram mais atrativos na época, enquanto o ouro passou a ser visto como um ativo com rendimentos limitados. Vários países europeus também reduziram suas reservas antes da introdução do euro, sendo que a Grã-Bretanha foi um dos principais vendedores, mesmo sem fazer parte da nova moeda. Consequentemente, o preço do ouro caiu para cerca de US$ 250 por onça em agosto de 1999, o que representou uma queda de 40% em comparação a 1996.
Essa tendência resultou na criação do Acordo de Washington, que instituiu limites para as vendas oficiais do metal precioso. Trinta anos depois, a situação em relação às reservas de ouro e os fatores econômicos é bastante distinta.
Riscos globais e a valorização do ouro
Os temores financeiros e geopolíticos que se manifestam hoje não surgiram de um contexto aleatório. O ano anterior foi repleto de desafios, incluindo tarifas impostas por Donald Trump a nações que são parceiras comerciais dos EUA, o aumento das tensões entre Israel e Irã, paralisias governamentais e questionamentos sobre a independência do Federal Reserve.
Esses eventos geraram uma fuga do dólar em direção ao ouro, que se reforçou como uma opção de proteção aos investidores. Kyle Rodda, analista sênior da Capital.com, declarou que “o governo Trump causou uma ruptura permanente na forma como as coisas são conduzidas, fazendo com que muitos busquem o ouro como a única alternativa viável.”
Com o início de 2026, a expectativa de um cenário mais sereno foi rapidamente desmentida. Em um acontecimento marcante, forças especiais dos EUA capturaram o presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, elevando novamente as tensões geopolíticas e impulsionando a valorização dos metais preciosos.
Após esse ocorrido, o ouro e a prata experimentaram novas e significativas valorizações. As tensões aumentaram ainda mais com as ameaças de anexação da Groenlândia por Trump, questões migratórias e novos episódios de shutdown, mesmo que parcial, nos EUA. O Irã enfrentou protestos e uma inflação elevada, o que complicou ainda mais a cena de risco no Oriente Médio.
Esse mix de fatores resultado na intensificação do papel dos bancos centrais e investidores, que vêm aumentando suas participações em ouro enquanto o dólar apresenta uma perda de relevância em sua comparação no mercado. Passadas três décadas, o metal precioso volta a se consagrar como a principal escolha para reservas, redimensionando as discussões sobre a configuração das reservas globais de ativos financeiros.
Fonte: www.moneytimes.com.br


